Cidadeverde.com

Entrevista com os editores da Livrinho de Papel Finíssimo Editora

 
A Livrinho de Papel Finíssimo (PE) é uma editora singular, que leva em sua composição temperos diversos, costurando caminhos pelo underground dos fanzines e das subculturas urbanas, sempre com o som pesado em alto volume. Os editores(as) Camilo Maia, Rodrigo Acioli Peixoto, Sabrina carvalho, Leta e Fred Vasconcelos,  trazem em suas práticas o princípio da ação direta, a paixão pelo que faz e apresentam um cuidado manual e artesanal na produção de livros, livrinhos, livretos, zines e diversas modalidades de publicações de impressos. A Livrinho é um exemplo de editora/editores que encara as publicações independentes como um sentimento e uma atitude a serem vivenciados cotidianamente, como um modo de existência.
 
Ao longo de 2015 a Livrinho participou ativamente do cenário pernambucano.  Marcou presença na Bienal do Livro de Pernambuco com stand e oficinas. E ainda organizou um grande evento chamado Publique-se - Festival de Publicação Independente que aconteceu no Museu da Cidade do Recife, Forte das Cinco Pontas, entre 27 de outubro e 01 de novembro. O evento reuniu produtores e editores independentes de diversas partes do Brasil, em um ambiente de confraternização e de debates sobre a produção editorial independente. A programação se dividiu entre mesas redonas, oficinas e feira.
 
Segue uma entrevista que fiz com o pessoal da Livrinho De Papel Finíssimo.
 
Quais os caminhos da Livrinho de Papel Finíssimo para produzir e fazer seus livros circulares? 
 
Quanto à produção dos nossos livros temos três caminhos: 1 – nossas proposições editoriais, linhas como “Olho de Bolso” e “Literatara” que são autores convidados e os livros são produzidos de forma artesanal em nossa oficina gráfica. Uma máquina laser, e papéis variados, bem como os formatos de encadernação e trabalhos de capa igualmente singulares são pensados de acordo com cada proposta, mas que seguem as determinações de formato mais geral. Nós destacamos o nosso próximo lançamento “Homo Ludens” como um exemplo deste trabalho artesanal. 2 - Dentro ainda da esfera artesanal temos os clientes, que contratam nossos serviços e expertises para confecção dos seus livros. 3 - A depender do projeto gráfico e dos anseios do cliente e de nossas limitações artesanais, terceirizamos os serviços de impressão e montagem. Sobretudo quando a tiragem é superior a 200 exemplares, como o exemplo de “A Morte e a morte de Frei Caneca”, que teve como tiragem 1000 exemplares e foi impresso pela Gráfica Cepe. Quanto à visibilidade, contamos com um blog livrinhoeditora.blogspot.com.br, e no facebook um perfil e uma fanpage. A visibilidade do produto reside basicamente na visibilidade de nossas ações, lançamentos, participação em eventos literários, feiras, palestras e debates, além da repercussão dessas ações na imprensa formal.
 

Camilo Maia, Leta Vasconcelos, Rodrigo Acioli Peixoto e Fred Vasconcelos.

 

Como vocês chegam até os autores, ou são eles que chegam até vocês? 

A Livrinho de Papel Finíssimo Editora é filha dileta dos fanzines, e como tais carrega em seu modo de ver e produzir ações artísticas das mais variadas expressões plásticas, gráficas e literárias de nossa contemporaneidade, com ele a publicação de amigos. Ela nasce do desejo comum de alguns amigos em publicar suas próprias experiências e experimentar em coletivo o processo editorial. Hoje, há seis anos de distância do fanzine, que ainda fazemos, há instalado uma competência reconhecida além de um trabalho já feito com algumas dezenas de escritores, artistas plásticos, gráficos e congêneres. De um lado, convidamos artistas para publicação, mas também recebemos clientes e prestamos serviços que cobre todo o ramo editorial e todo o processo de feitura de um livro. Neste caso, o que nos importa é o desejo de publicar um livro no qual acreditamos, seja esteticamente, politicamente, ou os dois ao mesmo tempo, já que estética e política sempre estão de algum modo imbricadas. Para mostrarmos um exemplo de como trabalhamos estamos para publicar uma coletânea de título “História Sujas e Mal Acabadas do Rock’n’Roll” em parceria com a Caderno Listrado e com o coletivo de Serigrafia Supertrampo, o corte editorial do livro foi um convite feito a diversos ilustradores e escritores para que eles compusessem suas histórias e ilustrações baseadas em músicas que escolhemos previamente, em um período extremamente curto (uma semana) para que pudéssemos confeccionar em tempo hábil o livro. Nele participaram não só artistas que já foram publicados por nós de alguma forma, mas tantos outros que ainda não o foram. Este livro, em fase de diagramação, não terá como fim o comércio, posto que sua forma de produção e encadernação é demasiado trabalhosa. É um livro de arte, com pouquíssimos exemplares. Mas por outro lado, o crescimento de nossas produções artesanais nos colocou em outro lugar, agora temos a procura de diversas pessoas interessadas em se publicar ou publicar amigos, familiares etc. Ainda preservamos o espírito fanzineiro, do desafio, da politização e estetização da vida literária, mas acrescido de novos desafios de caráter mais profissional.
 
Quais as estratégias para conseguir vender os livros? Vocês utilizam algum meio específico, quais suas experiências nesse campo?
 
A venda de livros é o gargalo da produção independente. Contudo, contamos com alguns pontos de vendas na cidade, e algumas editoras amigas como revendedoras de nossos livros. Além disso, temos os livros na nuvem e os lançamentos como formas de venda e divulgação de nossos produtos. Na verdade, nos lançamentos tiramos maior parte da renda de venda de livros. Em grandes livrarias só alguns títulos, pois, é uma atividade deveras desgastante e em última análise antieconômica, dado os acordos propostos pelas grandes livrarias. Residimos e nos movimentamos pelas margens.
 

Qual a relação dos editores/editora com as redes sociais e as diversas possibilidades do mundo virtual? Vocês exploram de que forma esse campo?
 
Como havíamos exposto, blog, facebook nos ajudam a vender, mas mais do que isso, a divulgar nossos eventos e lançamentos, que são de fato nossos grandes momentos de vendas. E como editora, nos ajudam a agrupar projetos e os envolvidos, sejam como grupos de discussão, trocas de arquivos. Contudo, ainda não há uma viabilidade plena de sustento com o mundo virtual, ele nos permite articular o outro mundo, mas não viver dele. É uma força que estamos atuando, mas ainda não desenvolvemos as potencialidades que a internet promete. Mas queremos, por que sabemos que uma boa lojinha virtual é capaz de ampliar as vendas.
 
Qual o papel das pequenas editoras e o que elas trazem de novidade para o cenário literário contemporâneo?
 
Sem querer parecer arrogante, diríamos que a novidade está nas margens e não nos centros do universo das publicações. Os centros de publicação tem seus filtros, suas estruturas e suas formalidades de modo que nada emerge ali que já não esteja devidamente aparado e dócil. Nos centros de publicação não há mais o risco, o perigo da escrita. Ou mesmo quando vemos uma figura com uma obra invejável de produções malucas em sua biografia, como um Lourenço Mutarelli, que agora publica na Cia das Letras, mas que muito já rodou pelas estradas imprimentes e loucas das publicações alternativas. Nas pequenas editoras surgem os projetos arriscados, sem cálculo de antemão. É o risco da palavra bruta ainda não devidamente empacotada que emerge daí. São projetos que não poderiam emergir de outros lugares, mas sim das margens inquietas, onde o mundo jamais parou de girar que emergem os livros impossíveis, os textos mais imprevisíveis, os visuais mais loucos e os formatos mais experimentais.
 
O que significa ser independente no circuito editorial contemporâneo?
 
Eis uma pergunta, mais ainda, uma questão, na qual a imbricação nesta definição mobiliza nossa vida, nosso horizonte político e estético. Difícil definir independência. Arrisquemos uma definição etimológica, nela verificamos que o prefixo “in” vem do latim, prefixo negativo, mais “dependere”, que é  “estar preso a, estar pendurado”, formado por “de”, indicando origem, mais “pendere”, “pender”. Não estar preso ou pendurado a algo ou alguém é independência. Entre seus sinônimos, há um em especial que é “autonomia”, que é de etimologia grega e significa ser capaz de gerir suas próprias leis e regras: “auto”, “a si próprio” e “nomos”, “lei”.  Levando em conta o campo semântico de independência e autonomia, temos um horizonte, uma abertura, o campo de um embate, político, estético e ético. Independente certamente significa muita coisa diferente para muita gente, e, se reduzir essa significação etimologicamente é uma tarefa que aparente uma leitura reducionista, podemos, com efeito, tentar, ao menos, cercar os campos de oposição em que esse conceito se encontra, e mais, se pratica. Então, uma editora que tem a independência e a autonomia como horizontes, tem de se situar no combate entre as dependências, entre estarem presas há algo, mais precisamente, estarem presos a instituições e leis já há muito fixadas, gastas e de limitada produção de sentidos. Desde de leis de mercado, estéticas ou morais.  
 
Significa aprender a fazer pactos com o diabo sem perder a alma. E, apesar de ser um caminho muitas vezes de poucas compensações financeiras, do ponto de vista criativo, artístico e estético, é altamente satisfatório. Faz valer a pena o caminhar.