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Fronteiras Blues – Entre o Céu e o Inferno

O que esperar de uma banda chamada Fronteiras Blues com um disco intitulado “entre o céu e o inferno”? 
 
Depois de ouvir o disco várias vezes e de ter assistido alguns shows, posso dizer que a banda realiza o que toda boa banda de rock blues faz. O som é pesado e sem firulas, guitarras intensas e refrãos que pegam de primeira . Os músicos da Fronteiras Blues fazem um som que lembra os bons tempos do Barão Vermelho, a intensidade do Led Zeppelin e a pegada selvagem do Rival Sons.
 
A banda iniciou suas atividades no início de 2013 e é composta por Janis Oliveira (vocal), Marcelo Carvalho e Pablo Arruda (guitarras), Pedro Ualef (baixo) e Benício Brandão (bateria). Depois de várias apresentações em Teresina e de ter tocado nos festivais “Grito Rock” e “Rock Cordel” em Fortaleza/CE, os caras gravaram ao longo de 2015 o primeiro disco "entre o céu e o inferno" no Patrese Stúdio. A arte de capa ficou a cargo do desenhista e quadrinhista CardosoNot Tnt.
 
O disco traz composições em português e inglês. Inclusive, destaco as que são cantadas em português, como as: o triste fim de jhonny, fuga contínua, o que desregra os sentidos,  porcos e caminhos tortos, isso só para citar algumas. Fora a intensidade sonora, um elemento que chama bastante atenção é qualidade das letras, escritas pelo vocalista Janis Oliveira, como a “o triste fim de jhonny”:
 
O que se dissolve sempre em tons de guerra.
São sempre as noites de Jhonny.
Que quando acorda o vazio lhe cerca
Mas a tristeza não some
Vivia achando que seria melhor
Morrer de ópio do que de tédio
Vendo o triste fim chegar 
Tomando de porre seus remédios
 
(...)
Morreu achando que foi melhor
Viver de opio que de tedio
Viu o triste fim chegar
E teve overdose de remédios
 
ou a música “fuga contínua”, que tem um refrão empolgante que pega de primeira:
 
Quem fala em teus sonhos quem cala tua boca?
Quem bebe teu vinho quem inveja tua roupa?
E cunha o medo pra te acordar
Na calada da noite lhe vigiar...
 
(...)
Um abismo para a lucidez
Um abismo para a lucidez
Um abismo para a lucidez
Um abismo!
 
As letras dessas músicas dizem muito sobre quem vive entediado e sufocado na cidade de Teresina. Principalmente, pela falta de opções culturais e pela mentalidade mesquinha e tacanha que permeia todos as instancia dessa cidade. Assim, a fuga aparece como uma possibilidade real e também, como um sensação vivida por muitos.
 
(...)
E pra viver minha decência 
Vou negar toda essa influencia
Que só me deixa mais fraco
E aumenta minha decadência 
 
Eu vou chegar lá no alto
Só pra ver como olha pra baixo
E aprender como se ama
Sem precisar descer do salto
 
E pra provar que sou forte
Andarei lado a lado com a morte
Por mais longe que seja o caminho
Eu sei que com ela
Eu não ando sozinho.
 
A música “porcos” é um brado irônico e sarcástico, no melhor estilo blues rock. Encara as adversidades de frente e tira onda, com a rebeldia que fez de Jim Morrison um dos grandes poetas da juventude das décadas de 1960/70 e que até hoje tem sua poesia de pé.
 
 
Fronteiras Blues - Triste Fim de Jhonny - Live @ 202 Sessions
 
 
A Fronteiras Blues surge no cenário de Teresina/PI para se juntas a outras ótimas bandas do gênero, como a Neandertais, o BR 316 e a já extinta Clínica Tobias Blues. Desse modo, o cenário se fortalece com ótimas bandas e apresentações marcantes. Todas essas bandas fazem um som firme, maduro e os discos começam a aparecer.
 
É importante que se diga, o cenário da música autoral no Piauí tem se destacado de forma independente e sem a presença das secretarias de cultura (Estado e Município), sobrevivendo na base de parcerias e colaborações. O que por um lado, mostra que as instituições estão completamente ausentes do fomento cultural local e assim, o mérito é todo dos artistas. Mas por outro, se essas instituições estivessem fazendo o seu papel, o nosso cenário cultural estaria em outro patamar. 
 
Recomendo para aqueles(as) que ainda não ouviram o disco ou não assistiram os caras no palco que procure logo conhecer a Fronteiras Blues. Fica a dica.