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Entrevista com Nathan Matos / Ed Substânsia

Impulsionados pelas discussões do campo editorial independente Nathan Matos, Talles Azigon e Madjer Pontes, criaram em 2014 na cidade de Fortaleza/CE a editora Substânsia. Os três amigos, escritores e apaixonados por livros e literatura, resolveram encarar o trabalho desgastante e apaixonante de editar. Criaram, assim, um espaço para jovens escritores interessadas em ter um livro bem editado e com acabamento de qualidade. Segundo os editores, a Substânsia é “como uma vereda no meio do sertão que nos leva ao poço”. 
 
Hoje a Substânsia tem um catálogo com mais de 20 livros editados e alguns desdobramento importantes: a revista eletrônica Substânsia, participações em algumas feiras de publicações independentes e em eventos literários. Além do trabalho do Nathan Matos à frente do site LiteraturaBR, um dos melhores e mais sérios espaços virtuais que aborda a literatura brasileira contemporânea.
 
Conheçam um pouco mais da Substânsia e dos projetos do Nathan Matos, nessa entrevista que fiz com ele no início do ano de 2016.

 

 
1) Como chega até os autores, ou são eles que chegam até você? Comente sobre essa relação.
 
Acho que o encontro é uma via de mão dupla, como eu já possuía um portal que é voltado para incentivar a publicação de poemas, contos e crônicas de novos autores, acabei conhecendo muita gente. Tento acompanhar, na medida do possível, o que é feito pelo país através das redes sociais, das revistas eletrônicas e sites sobre literatura. E posso afirmar que é um universo impossível de dar conta, nós nunca sabemos e nem poderemos saber o que é feito ou o que foi feito em uma determinada época. Sendo assim, nesse meio tempo, acabei mantendo um diálogo próximo a alguns autores, como o Marco Severo, que tendo conhecido os textos dele através do blog pessoal, acabei chamando para integrar o time de colunistas do LiteraturaBr, e, depois de um ano, tivemos a oportunidade de lançar o primeiro livro de crônicas pela Substânsia, chamado “Os escritores que eu matei”. 
 
Só que, claro, esse encontro aí nem sempre é algo harmonioso. Há muita gente que chega pra perto de você só pra tentar conseguir fazer o livro ser publicado, uma enormidade de pessoas que só querem lhe dar um calote, como já aconteceu com vários outros editores amigos. Depois que você começa a ser comentado, o mínimo que seja, entre os amigos ou profissionais da área muita gente quer se aproveitar, e isso é frustrante, porque você passa o tempo todo querendo ajudar a divulgar, a arranjar espaço para a literatura que ainda é deixada de lado, como a gente bem sabe.
 
Mas, como somos os donos da nossa própria editora, por sermos independentes, podemos publicar pessoas que já conhecemos e que mereciam já estar publicadas, isso acaba contribuindo bastante para criar um elo entre os escritores e nós, editores, pois acaba fortificando a literatura em locais que já mereciam tê-la fortificado. Acho que neste ponto contribuímos bastante com o cenário editorial, em Fortaleza, nos últimos dois anos. Veja o nosso próprio exemplo, os outros dois editores, Talles e Madjer, aceitaram a criar a Substânsia comigo justamente por isso, porque poetas como eles não tinham espaço por serem autores estreantes, não apenas no Ceará mas em outros locais do país, uma vez que é muito escassa a chance de publicar novos autores por grandes editoras. Contudo, com o mercado das editoras independentes se fortalecendo o que se começa a perceber é que os conglomerados editoriais agora estão a criar novos selos justamente para isso. 
 
2) Quais suas estratégias para conseguir vender seus livros? Você utiliza algum meio específico, quais suas experiências nesse campo? 
 
Uma das frases que mais se repete no meio editorial é que vender livro é difícil. Pode ser verdade, mas é interessante se perceber que cada vez mais pequenas editoras têm sido fundadas e pouquíssimas têm fechado. Acho que isso se dá porque está se criando uma rede entre os editores independentes que acaba por possibilitar a criação de feiras literárias, encontros literários ou qualquer outra atividade que tenha a literatura como foco. Há cada ano, surge uma nova feira que possibilita vendermos nossos livros em vários estados, se não é possível, por exemplo, nos dirigirmos até o encontro, algum amigo editor se responsabiliza em colocar à venda nossos livros e depois fazer o repasse do valor vendido, isso você não tinha antes. Além disso, usamos as redes sociais e a nossa loja virtual, a ideia é no futuro ter um local para fazer nossos próprios lançamentos e quem sabe poder vender livros de outras editoras como a Lote42 está fazendo e como a Patuá, em breve, irá fazer. 
 
os editores: Madjer Pontes,Nathan Matos e Talles Azigon
 
3) Qual a sua relação (editor/editora) com as redes sociais e as diversas possibilidades do mundo virtual? Você explora de que forma esse campo?
 
Acho que a Substânsia ainda poderia ser mais presente nas redes sociais, mas como nós três somos responsáveis por tudo na editora, além de nos preocuparmos com nossos trabalhos e estudos, não sobra muito tempo para ficar divulgando o máximo que poderíamos nossas obras, nosso catálogo. Mas tendo em vista que a maioria dos escritores que publicamos são do Ceará, acredito que isso não tem sido um problema por enquanto, pois, como comentei, ainda há espaço para novas publicações em nossa cidade ou estado, há ainda um nicho muito grande a ser alcançado por nós. Enquanto tivermos quem publicar de nossa região as redes sociais não serão, talvez, o nosso foco principal. Preferimos atuar também criando elos com escolas e empresas como o Sesc, que realiza um projeto fenomenal no Ceará para a literatura.
 
4) Na sua opinião, qual o papel das pequenas editoras e o que elas trazem de novidade para o cenário literário contemporâneo?
 
Acho fundamental. Há cerca de uns cinco anos pra cá, o mercado editorial independente tem contribuído bastante para que novos autores, de ambos os sexos, credos e raças tenham a possibilidade de publicar. Isso é muito bom, mesmo que alguns mais críticos vejam nisto um problema devido à qualidade da literatura que acaba sendo produzida e divulgada. No entanto, acho que o que os leitores aprovarem ou não o tempo se encarregará de nos dizer. As novas casas editorias, com suas baixas impressões, e parcerias que fazem com novos autores facilita para que este cenário que você mencionou seja mais atuante e esteja mais visível do que em outras épocas. Quantos Machados, Rosas, Bandeiras nós não perdemos desde que a literatura no país começou a ser produzida devido a não existir antes essa facilidade nas publicações?
 
 
           
        
 
 
5) Quais as pretensões de um editor independente em um país tão extenso como o Brasil?
 
Acho que a pretensão é viver do que se gosta, do que ama, do que acredita ser uma das ações que pode contribuir diretamente na educação de seu povo. É assim que eu vejo. Eu não sabia que um dia iria virar editor. Desde cedo, imaginei um dia poder editar uma revista, divulgar ela pelo país, mas o rumo que tomei foi outro e edito livros, o que me anima imensamente. Parece clichê quando os editores falam isso, mas qualquer profissional que viva daquilo que gosta de fazer vai entender o que queremos dizer. Ser editor no Brasil é uma guerra, é viver no limite da própria economia pra poder possibilitar novos sonhos, novas produções, novos projetos que acreditamos realmente serem positivos para a melhoria da nossas sociedade. E o que é importante lembrar é que novas editoras estão surgindo em estados que não têm uma história, digamos assim, de um mercado editorial, mas que com certeza possuem escritores de alta qualidade.
 
6) Como você observa, nesse momento, a construção de um certo cenário de feiras de publicações independentes se espalhando pelo Brasil? 
 
Acho que 2015 foi possível evidenciar isso. Foi realmente um boom. Feiras em várias cidades do país, em cidades do interior, capitais, feiras feitas por organizações sem fins lucrativos, outras por organizações privadas, por coletivos, por editoras, enfim, é um mundo que está crescendo e que tem espaço. Já ouvi gente dizendo que isso “já deu”. Não. Pelo contrário, nós nem começamos a fazer o que é possível fazer. Temos que ter feiras de livros, ações que envolvam a literatura de maneira intensa, isso contribui para uma aproximação entre leitor e autor, entre autor e editor, entre o livreiro e o leitor, vários elos importantes para aprofundarmos nossos conhecimentos e nos conhecermos mais e mais é necessário para que encontremos soluções para os nossos problemas e que deixemos apenas de ficar rondando nossos problemas. 
 
7) Você administra/edita o portal LiteraturaBR em parceria com alguns escritores, fale um pouco sobre essa sua frente de trabalho? 
 
A primeira palavra que me vem é dificuldade. O portal foi criado no intuito justamente de contribuir na divulgação de novos autores. Iniciei sozinho, postando resenhas semanalmente de livros, quando o tempo ainda me permitia ler por prazer e aproveitar e contribuir dando a minha opinião sobre o que achei das obras. Contudo, com os estudos, o trabalho da editora e outros serviços que realizo, esse tempo foi escasseando e ficando cada vez mais difícil de fazê-lo só. Daí, alguns amigos colaboraram outros que fui conhecendo, mas nunca algo tão fixo, apenas um autor me acompanha há dois anos produzindo conteúdo comigo. Agora, pra esse ano, fechei parcerias com pessoas que conheci justamente através de feiras literárias ou pelas redes sociais devido à literatura. Você, Demetrios, é um deles, que contribui selecionando novos poetas para que possamos divulgar; o Marco Severo, a quem tive o prazer de editar o livro, contribui na seleção dos contos que nos chegam de novos autores e agora vamos começar a convidar alguns nomes mais conhecidos, porque sempre achei que grandes nomes podem ser um chamariz para ‘os desconhecidos’, fazer essa mesclagem acredito ser essencial. Além disso, o Marco faz parte do time dos cronistas fixos, ele é quem está comigo há dois anos no Literatura Br. Ao lado dele, agora, chegaram Roberto Menezes da Silva e Rafael Belúzio para fechar o time dos cronistas. Essa aproximação é muito boa, pois proporciona que eu possa acompanhar novos autores de outros estados que muitas vezes não me chegam devido à falta de divulgação. Apesar desses esforços, todo ano, tenho que pedir ajuda aos meus seguidores e a amigos para manter o site no ar, pois pago o servidor e o domínio para o portal permanecer no ar. Mas o portal é algo que me engradece como pessoa e profissional, sou muito grato a ele, pois foi devido a ele que conheci o Eduardo Lacerda, que foi quem me ajudo a fundar a Substânsia. Além disso, tenho certeza, que o portal tem se tornado um ponto de referência entre os melhores portais de literatura do país.
 
 
8) Na sua opinião, qual o papel dos portais e das revista eletrônicas no atual cenário literário?
 
Apesar de as revistas eletrônicas ainda não serem tão lidas, tento acompanhar na medida do possível. A revista 7faces, editada pelo Pedro Fernandes, do Blog Letras In.verso Reverso, é uma das minhas prediletas, sempre a leio de cabo a rabo. A Nota do tradutor é outra importantíssima, mas que parece chamar pouca atenção de quem não é tão ligado à tradução. São revistas importantes porque acabam realizando um trabalho que infelizmente não está sendo possível realizar com tanta força em impresso. 
 
9) Articular edição de livros, administrar um portal literário e participar de evento literários, é essa a dinâmica de quem quer produzir e sobreviver no cenário independente? 
 
Não sei se essa é a melhor dinâmica pra quem quer viver nesse meio (risos), mas é uma possibilidade. Quem convive comigo sabe que essa administração aí não é fácil. Os prazos são curtos a dinâmica pra conseguir fazer tudo e fazer com qualidade demanda uma atenção enorme. Sempre discuto isso com amigos e meio impossível você não fazer várias coisas ao mesmo tempo para poder ter a sua vida pessoal em ordem ao lado da profissional. Atualmente, fora isso tudo, eu ainda presto serviço de revisão, de diagramação e avalio originais criticamente para poder sobreviver pagando as contas. Acho que quem quer viver nesse meio, da literatura, tem que realmente se esforçar porque muita gente deseja isso. Viver de vendas de livros é muito difícil, mas não impossível. Além disso, se formos fazer uma rápida pesquisa, outro ponto que tem crescido no meio literário são as oficinas ministradas por editores, autores e livreiros. Parece que estamos encontrando um meio para que seja possível melhorar essa “economia literária” que conhecemos tão bem. Ainda vemos mais cursos no sudeste sendo realizados, principalmente em São Paulo e Rio de Janeiro, mas em algumas outras capitais, como Fortaleza, Curitiba, Belo Horizonte e Porto Alegre, timidamente isso já é perceptível. E isso é fantástico, pois se continuarmos assim iremos criar um meio de sobrevivência que eu acredito ser muito bom. Contudo, sempre devemos lembrar que é necessário também o apoio do Governo. A luta de todo e qualquer artista, assim como o escritor, é que o Governo olhe mais para a cultura do nosso país. Espero que em breve tenhamos mais editais saindo da gaveta para proporcionar a sobrevivência da literatura entre nós de maneira a possibilitar uma aproximação entre sociedade e literatura.
 
10) Qual o seu principal projeto literário hoje?
 
É difícil responder, eu não tenho um apenas. O LiteraturaBr é algo importante pra mim e que está me possibilitando uma gama de trabalhos que antes eu não poderia ter. Ao lado dele, tenho a Substânsia, junto com meus dois grandes amigos e editores Talles Azigon e Madjer Pontes, que é realmente como um filho. É algo que eu me orgulho de ter feito e de estar fazendo. Acho que o meu principal projeto literário hoje é conseguir manter sempre a leitura próxima a mim, sem isso eu não consigo viver. Sem ler poesia ou um ótimo romance não é possível existir em meio a tanta balbúrdia e caos. Acho que é isso, talvez seja esse meu projeto, não me desfazer nunca da literatura.