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O Leão Náufrago, um conto de Daniel Ferreira

O Leão Náufrago

Daniel Ferreira*

 

Conta-se que, certa vez, naufragou em alto-mar um navio que, dentre outras coisas, transportava animais para um zoológico. Aconteceu de um desses animais, um leão vindo da África, conseguir alcançar uma ilha bastante extensa.

Logo que começou a explorar o local, o leão percebeu que aquilo era um verdadeiro paraíso: tinha água fresca, animais de pequeno e médio porte para alimentá-lo e não havia mais nenhum predador além dele. Vendo tudo muito aprazível, o leão tratou de banquetear-se. Caçou uma gazela das maiores que já tinha visto, sendo preciso empregar muita força para segurá-la. Morta a gazela, o leão refestelou-se com entranhas e carne da melhor qualidade.

Passado algum tempo naquela ilha, e diante de tão farta mesa, o leão desenvolveu seu paladar, como uma madame cheia de gostos, ele só queria comer o fígado de suas caças, desprezando quase todo o restante da potencial refeição. Não tardou para que, em todos os cantos da ilha, grandes concentrações de urubus e outros animais carniceiros aparecessem, pois o leão matava vários animais por dia, os outros bichos sequer conseguiam dar conta das carniças. O leão, mais do que nunca, sentiu-se como rei.

Um dia, quando o sol já começava a se por, o leão caçou um porco do mato e estava a lamber-lhe o sangue que escorria da jugular quando, surpreso pela audácia, ouviu alguém lhe chamar. O leão olhou para o local de onde vinha a voz e percebeu que era um velho urubu com as penas já acinzentadas da idade. O urubu, que estava empanturrado e empoleirado sobre uma carniça, disse-lhe:

- Então você é o tolo que se diz rei desta ilha?

O leão grunhiu ameaçador para o velho urubu, sem que a ave ao menos se abalasse.

- Leão tolo, guarda estes teus dentes, guarda a tua gula e a tua sanha de matar. Será que não vês que, da maneira que procedes, estás a acabar com as caças desta ilha? Sei que ela te parece grande por não ter outro com quem dividir o alimento, mas isso é o que tu pensa, muito maior é o mundo lá fora e, mesmo aqui, tudo há de acabar-se. Fica tu sabendo que, se continuar a matar tantas gazelas e tantos porcos quanto te convier, chegará a hora em que todos os animais desta ilha vão perecer e, junto com eles, tu perecerá.
Se, de início, o leão ficou ofendido, ao final tudo pareceu-lhe muito engraçado. Para completar a graça, o leão pulou em direção ao urubu com zombaria:

- Voa daqui urubu velho, esta ilha é minha, nunca mais volte.

Acontece que as palavras do urubu passaram a concretizar-se. Até mesmo o leão percebeu que já não encontrava facilmente porcos e gazelas, às vezes tinha que se contentar com animais bem menores e difíceis de capturar. No dia em que não encontrava nenhuma caça, o leão tinha que comer as carniças que ainda existiam em razoável quantidade na ilha. Mas, daí, chegou o dia em que também não encontrou mais carniças.

Tentou uma dieta de frutas, mas aquilo não lhe satisfazia o estômago e tampouco lhe agradava. Arriscou-se até mesmo na pescaria, mas fracassou, sua única façanha na água foi alcançar aquela ilha.

O fato é que o leão já estava bastante desnutrido e sem forças quando viu passar ao seu lado um macaco. Foi o que bastou para que o coração do leão acelerasse e seus olhos brilhassem. Aquele era sem dúvida um dos últimos macacos da ilha, porque o leão também aprendera a caçar macacos e matara muitos e lhes comera o fígado. Não sabia o leão, entretanto, que aquele macaco era um sobrevivente, não seria capturado facilmente e, assim sendo, o macaco já estava no alto de um coqueiro quando o leão saltou para o ataque. Aquele salto foram as últimas forças do leão. Cansado, ele caiu pesado na areia, sentido a vida esvair-se, forçando o ar em seus pulmões, dando à vista ainda mais a saliência de suas costelas sob o pelo desgrenhado e grosso. Olhando para cima do coqueiro, o leão viu o macaco e viu também o velho urubu que lá estava balançando sobre uma palha. Foi o macaco quem falou:

- Esse leão levou muitos dos meus, quase todos, agora não há quem lhe salve, mas posso conduzi-lo.

O velho urubu viu que, ao dizer isso, o macaco arrancava com os dentes um coco. Foi o que bastou para o urubu entender, nisso anunciou ao leão:

- É minha vez, majestade. Já que não me ouviste e tanto fogo tinha para a matança, agora vê se parte, minha fome já não pode esperar. Ao macaco, digo obrigado.

Dito isso, o macaco arremessou o coco na cabeça do leão, deixando-lhe morto e pronto para o banquete do velho urubu.

Na ilha, a vida continuou, nunca mais se ouviu falar de leões.

 


*Daniel Ferreira, é contista. Autor de “Sob a Sombra da Noite” (2005). Gosta de cerveja e Radiohead