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Entrevista com Lúcia Rosa, Coletivo Dulcinéia Catadora

Fugindo ao padrão editorial convencional as editoras cartoneiras (cartón, em espanhol papelão), produzem seus livros reutilizando o papelão e trabalham com a perspectiva da economia solidária: sustentabilidade e preço justo. A primeira editora cartoneira surgiu na argentina em 2003, a Eloísa Cartonera, fundada em Buenos Aires, por Washington Cucurto, Javier Barilaro e Fernanda Laguna.

O diferencial dessas publicações é que elas trazem à cena uma discussão social sobre o reaproveitamento do papelão. Os editores trabalham diretamente com as cooperativas de catadores, não só comprando o papelão. Mas na medida do possível, os livros são também confeccionados pelas pessoas da própria cooperativa. Cada exemplar é único, as capas são pintadas manualmente e a diversidade é bem grande.

Hoje as cartoneiras são muitas e se multiplicam por vários países. No Brasil não é diferente e posso citar algumas como: Mariposa CartoneiraPé de Letra, Sereia Catadora, Cartoneira do Mar, Malha Fina Cartonera, dentre tantas outras.

Na Balada Literária de 2013 assisti a uma mesa redonda com vários editores independentes e nela, estavam presentes a Lúcia Rosa (Dulcineia Catadora) e o argentino, Washington Cucurto (Eloísa Cartoneira). Desse dia em diante, comecei a observar o movimento das editoras cartoneiras com mais atenção.

A Lúcia Rosa, do coletivo Dulcineia Catadora, me respondeu essa pequena entrevista um tempo atrás e faz parte da série de entrevistas, com editores independentes, que estão sendo publicadas no Janelas em Rotação.

 

Quais seus caminhos para produzir e fazer seus livros circularem? 

O Dulcinéia Catadora produz livros feitos artesanalmente com o objetivo primeiro de gerar renda para as catadoras que participam do coletivo. O livro, como instrumento de veiculação de obras literárias, é decorrência desse processo artístico. Com diagramações simples, em geral as edições são feitas com cópias, e não impressas em gráficas; fazemos tiragens pequenas, de cinquenta, cem livretos e refazemos conforme chegam os pedidos. A visibilidade de nosso trabalho é alcançada por meio de intervenções urbanas, lançamentos, oficinas, ou seja, com a atuação do grupo. Com a venda dos livros , pró-labore recebido com a realização de oficinas e projetos em instituições culturais garantimos a cobertura dos custos envolvidos na produção. Não vendemos nossos livretos em livrarias, mas em lugares alternativos, galerias e enviamos os pedidos que nos chegam por correio.

Como chega até os autores, ou são eles que chegam até você? 

Convidamos alguns autores e recebemos e-mail de muitos escritores novos, com arquivos de suas produções. Achamos importante incluir escritores que ainda não tenham inserção no mercado editorial. Acima de tudo, achamos fundamental que os escritores parceiros entendam como funciona o coletivo e se envolvam com os integrantes do grupo. A feitura dos livros não é um negócio que visa lucro, e a relação com os escritores não tem, portanto, nada de comercial. Baseia-se na troca de experiências e vivências, na cumplicidade de uma postura de resistência, no trabalho conjunto, no processo

Quais suas estratégias para conseguir vender seus livros? Você utiliza algum meio específico, quais suas experiências nesse campo?

A venda de livros é consequência das ações artísticas do coletivo. Participamos de feiras de livros de artistas, desenvolvemos projetos em instituições culturais e é dessa forma que vendemos nossos livros. Em geral, os interessados nos escrevem e enviamos os pedidos por correio.

Qual a sua relação ( editor/editora) com as redes sociais e as diversas possibilidades do mundo virtual? Você explora de que forma esse campo?

Temos uma página no facebook onde registramos nossas atividades, nosso site apresenta uma visão geral do Dulcinéia. Temos também um blog, vídeos disponíveis no Youtube, enfim, o meio virtual é uma ótima opção para divulgar nosso trabalho.

Na sua opinião, qual o papel das pequenas editoras e o que elas trazem de novidade para o cenário literário contemporâneo?

O papel do coletivo é de resistir, de traçar caminhos paralelos ao mercado editorial, de cavar oportunidades, tornar acessível o trabalho de escritores novos e buscar novas propostas literárias, textos experimentais. São essas ousadias dos escritores que têm o potencial de gerar algo novo. Não visar ao lucro é a chave para a nossa liberdade de escolher autores sem ter a garantia de que seus livros vendam bem. Muitas vezes as editoras convencionais vendem o nome do escritor, e não a obra literária. E mais, estar livre dos canais de distribuição, das negociatas com livrarias, das estratégias de marketing significa pensar na qualidade do texto literário, dar vez aos escritores que estão se firmando. Dessa forma, acredito que podemos colaborar para o mapeamento das manifestações literárias contemporâneas.  A liberdade é nosso diferencial, em relação às editoras estabelecidas. O que mais nos importa é apontar, mesmo que timidamente, os caminhos tomados pela literatura contemporânea.

Na sua concepção, o que significa ser INDEPENDENTE no circuito editorial contemporâneo?

O verbete INDEPENDENTE já diz claramente:  "autônomo, desobediente, desobrigado, individualista, insubordinado, liberal, livre, próspero,  separado e soberano". 

 

                                     O LIVRO pelo coletivo Dulcinéia Catadora

 

# conheça os livros da Dulcineia Catadora http://www.dulcineiacatadora.com.br/

# saiba mais sobre o movimento cartoneiro - A Resistência das Cartoneiras