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Pedro Spigolon - Poemas

 
 
Pedro Spigolon nasceu em Araras-SP no dia 16 de Abril de 1992, sob o signo do fogo. Graduou-se bacharel em Sociologia pela Universidade Estadual de Campinas. Publicou poemas em diversas revistas virtuais e impressas como a “euOnça” e a antologia de cinco anos do Jornal RelevO. Já morreu diversas vezes nesta vida. Usa a poesia para dar corpo à sua Imaginação. “espanto” é seu primeiro livro de poesias, publicado em maio de 2015, pela editora Medita, na coleção “Galo Branco”, com financiamento do Proac.

 

 

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Meus olhos estão virados

como se fios de lã os puxassem

para as ruinas da cidade.

— O que há por debaixo

de tanta pedra?

retiro uma a uma

como um punhado

de passado.

Havia de descobrir minha demolição

como se meus braços fossem toda a fome

e as pedras o que há de comer no mundo

mas minha carne é sal podre

e minhas mãos estátuas desmoronadas.

 

Estranha deformidade do olho

que se lança ao revés do horizonte,

macabro presente do destino

que embrulha o tempo das perdas

e nem ao menos nos oferece

um punhal

para rasgar as tripas

caso não tenhamos

força para jejuar.

 

Poema e Recitação: Pedro Spigolon/ Piano: Thyago Villela/ Áudio: Enzo Petrucci/ Imagens e edição: Ciro Bertolucci

 

O Passeio dos Amantes

 

Quero colher as lágrimas

de teu ventre abençoado.

Arar em silêncio tuas coxas

e semear sorridente meu pomo.

Cultivar a solidão do deserto

em teu corpo visto de perto.

Da leve palha de teus cílios

esperar brotar amarelos lírios.

Agricultores de Eternidade!

Agora sei a graça

dos que se abandonam:

O rio – eterno músculo

a cavalgar correntezas

ama porque cai ao mar,

é o desejo de desaguar

o oceano e sua vastidão.

Os amantes – eterno suplício

de persistir em se deixar,

da ponte estreita

vislumbram um naufrágio.

Amam porque caem a amar.

Sabem no rio

seu duplo contágio:

A solidão das águas longe do mar

e a vertigem para se abandonar.

 

 

Meteorologia dos Corpos

 

Nenhum dilúvio limpará esse ódio

haverá sempre uma vingança justa

sempre uma revolta necessária.

Qualquer apelo é inútil

rezar nem se fala.

Não há onde esconder esse desespero

As crianças não cabem nos bolsos

e ainda precisam empilhar corpos

como os brinquedos de uma guerra.

Um olho nunca será uma bolinha de gude,

uma amarelinha não se pula sobre cadáveres.

O único céu é o da boca

quieta como um dia nublado

em que a chuva encontra o silêncio

que abandonou a carne.

Sangue não é urucum

para pintar o rosto da cidade

com pavor e medo.

Nem tente recostar seu rosto

nessas bochechas que desmancham,

qualquer carinho é um crime

toda empatia uma cumplicidade.

Do telhado do país

a vertigem das gotas,

em vão esfrega essas mãos:

água não lava o horror.

No Jornal Nacional tudo será

paz e progresso

e a previsão do tempo

indicará estiagem

seca das lágrimas

racionamento da saudade.

A vida escorre confundindo

choro com chorume...

Daqui algum tempo,

quando o sol evaporar o medo

o ódio grudará nas nuvens

escurecendo o céu

e novamente seremos

mortos

órfãos

ou cúmplices.

 

 

# o livro Espanto, do poeta Pedro Spigolon, pode ser adquirido no site da editora Medita.