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Quando o Cinema Busca a Verdade: O Filme "Cidadão Boilesen"

Nos últimos anos, por conta dos trabalhos da Comissão Parlamentar que investiga os crimes cometidos no período da ditadura, surgiu o projeto Cinema Pela Verdade. O projeto iniciou em 2012 e funciona como circuito de exibição de filmes com temas relacionados à ditadura no Brasil. As exibições acontecem em universidades por todo o Brasil, seguidas debate papos sobre os filmes apresentados.

Uma das questões centrais do Cinema Pela Verdade é discutir a memória a cerca da ditadura. Compreendendo que a memória é um campo plural e que está sempre em construção. No geral, os filmes/documentários abordam as experiências de pessoas que foram perseguidas, torturadas e que sofreram de algum modo com o regime. Essas experiências ganham visibilidade pela linguagem fílmica, com a mensagem clara de que é preciso falar sobre o acontecido, por medo de que as pessoas esqueçam e que um possível regime autoritário possa retornar. É a velha e conhecida lição da história, “um povo que sabe de sua história, não repete seus erros”.

Uma coisa curiosa dos nossos dias é observar que em São Paulo, os manifestantes pró- impeachment se reúnem na Av Paulista justamente em frente da FIESP, que representa o grande capital nacional (coligado com o internacional) e os interesses do empresariado.

Pois bem, um dos filmes exibidos no Cinema Pela Verdade de 2012, conta a história de um dinamarquês chamado Henning Albert Boilesen, um executivo presidente da Ultragaza e fundador do Centro de Integração Empresa Escola – CIEE. Esse senhor, esteve diretamente ligado a ditadura e foi um dos seus apoiadores.  Hoje, os historiadores discutem que a chamada “ditadura militar” não foi apenas militar. A força armada foi o instrumento material e agudo, para a realização dos interesses de uma certa parcela da população civil. Esse grupo era formado pelos grandes industriais e empresários. Assim como o senhor Henning Albert Boilesen.

A elite brasileira, coligada com os militares e aparelhada pelo capital internacional + EUA,  tinham todo interesse em um regime autoritário. Primeiro, para garantir os interesses do capital internacional e seus investimentos; segundo, que na época se vivia o período da guerra fria e os EUA queriam assegurar sua influência por todas as Américas, rechaçando o “perigo” do comunismo; terceiro, que a elite brasileira asseguraria seus interesses econômicos e manteria seus valores conservadores como uma cortina de moralidade para repreender e perseguir seus opositores, independentes de serem vermelhos ou não.

Então, me parece bastante esclarecedor relacionar o golpe militar do passado e as movimentações políticas contemporâneas, tomando o empresariado (elite brasileira) como um denominador comum.

Vamos ao filme “Cidadão Boilesen" e aprender um pouco mais sobre a nossa história.

 

Documentário: 1h 33m / data de lançamento: 27 de novembro de 2009 (Brasil) / Direção: Chaim Litewski / Edição: Pedro Asbeg

 

Sinopse do filme: O documentário Cidadão Boilesen de Chaim Litewski, montado por Pedro Asbeg, conta a história do empresário. O documentário afirma que Boilesen era um cidadão marcado pelas ambiguidades e paradoxos típicos dos seres humanos. O filme vai até a Dinamarca, visita os arquivos de histórico escolar da escola onde Boilesen estudou quando criança e adolescente no início do século passado; além de entrevistar amigos, colaboradores civis e militares do empresário, o filho mais velho deste, o cônsul americano em São Paulo à época dos acontecimentos e um dos militantes que participaram da morte de Boilesen. Contém ainda depoimentos de figuras como o ex-Presidente do Brasil Fernando Henrique Cardoso, o ex-governador de São Paulo Paulo Egídio Martins, Erasmo Dias e do cardeal Dom Paulo Evaristo Arns, entre outros personagens importantes da época. O filme debate fartamente o hábito do empresário de assistir as sessões de tortura, confirmado por testemunhos de militares e militantes da época.

 

Demetrios Galvão