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Conceição Lima - Poemas

Conceição Lima. Nascida em Santana, ilha de São Tomé, São Tomé e Príncipe, a 8 de Dezembro de 1961. Jornalista de profissão, tendo exercido vários cargos de chefia nos órgãos nacionais de comunicação social, incluindo o de directora da TVS, Televisão São-tomense. Durante vários anos foi jornalista e produtora dos Serviços de Língua Portuguesa da BBC, baseada em Londres. Licenciada em Estudos Africanos, Portugueses e Brasileiros pelo King's College of London, com o grau de mestre em Estudos Africanos, pela School of Oriental and African Studies, SOAS, de Londres. Publicou O Útero da Casa, A Dolorosa Raiz do Micondó e O País de Akendenguê pela Editorial Caminho, de Lisboa. Em 2015, publicou Quando Florirem Salambás no Tecto do Pico. Está traduzida para o alemão, o árabe, espanhol, francês, inglês, italiano, turco, servo-croata e shona.

 

Arquipélago

 

O enigma é outro – aqui não moram deuses

Homens apenas e o mar, inamovível herança.

 

 

Em Santana

 

Em Santana

É a limpidez do mar que esconjura

O hálito das palmeiras mortas

 

Mora no cantar dos búzios um som de vigília

E na veemência das ondas

A indelével lembrança dos deuses

Desterrados.

 

Em Santana, noite e dia

A praia é um corpo erguido que se amotina.

 

 

Poema para Minha Avó

 

É nos teus olhos que acorda

o jardim das plantas boas.

Cada cheiro guarda um nome

O orvalho renova a história da cura.

 

Escuta: a casa dorme ainda, só o galo e a vigília

Só húmidos os dedos e a lua em despedida.

 

A nervura é uma linhagem.

 

Avó, lembro-me dos pingos, a luz do matrusso

na mão que espremia o amargo milagre.

 

 

Residência

Visão de meu pai de volta à casa de

Sua mãe, San Nôvi, no Budo-Budo.

 

Regressarás pela ladeira velha

sem aviso.

Será como ontem, ao entardecer:

remoto, repentino, o assobio.

E no caminho, um soluço de festa

derramado.

 

A luz será húmida

a chuva íntima

sobre a marca dos teus pés.

Dedo a dedo, folha a folha

tocarás os cheiros

os sortilégios do quintal –

o limoeiro anão da avó

o decrépito izaquenteiro

o ocá assombradíssimo

o kimi torto

e à entrada, no barro gravado,

o fantasma do bode branco.

O degrau há-de ranger ao primeiro passo.

Subirás devagar, concreto

sem pisar a tábua solta no soalho.

A porta estará aberta, a tocha acesa.