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Sombras na Caverna

                                                                                                                                                  Gabriel Archanjo

 

texto: Roberto Menezes*

 

Pra mim escrever é uma forma ancestral e sofisticada de pintura, uma pintura codificada. Minha mente seria apenas escuro, se não fosse bombardeada pelo que vem de fora, do meio que me transformou no que sou. É essa encomenda que procuro representar quando sento pra escrever, domar a luz que ricocheteia nas paredes da consciência. Os dilemas existenciais impostos aos meus personagens são consequências de fatores externos, e não uma realidade fechada e por si só completa. Esse personagem, esse narrador, apesar de estar mim, não sou eu; é só sombra na parede da caverna.

Escrever é projetar no papel o que encontrei nessa parede. As sombras sobre ele delineiam o texto. Não se faz literatura com carvão, é preciso cor. Literatura não é só projeção da realidade, literatura é projeção da mente.

Pego meu estojo de giz de cera e começo a cobrir a penumbra com cores. Não me importo em ter muita cor, muita tinta atrapalha. Cores primárias, um preto, um branco, um bege servem. E na parede, não me contento em copiar a luz feito esboço de um plano cartesiano. Nada me impede de misturar essas sombras assim como as tintas, já que tudo aqui dentro é uma sopa e não uma fardo de agulhas. E posso dizer que a graça está aí, desmanchar o retrato e dos seus pedaços fazer um outro. Um retrato recortado diz muito de quem o rasgou. Gosto de mundos que rodem ao contrário e dos que enfiam chifres nas cabeças dos seus cavalos. Quando escrevo, faço figa pra que muita cobra de asa pouse em meu papel.

Tento descrever um jardim em que a flor se sobressaia mais que a fada. Há mais na flor do que cor e cheiro, e isso é o que me impressiona, não o que vem de bandeja por um desejo de salomé. Um escritor não é um cozinheiro de uma sopa de letras, está mais pra um cientista que brinca no laboratório de criar mundos de proveta.

O caminho que se dá à escrita é um atalho entre o aqui e o ali, não a via engarrafada em linha reta. O caminho da literatura é um atalho repleto de nós. É bem melhor entrar na selva de facão e arpão do que ficar preso no trânsito vendo os mesmos outdoors.

 

 

*Roberto Menezes é paraibano. Nasceu em 1978. É professor da Universidade Federal da Paraíba. Faz parte do Clube do Conto da Paraíba. Tem quatro livros publicados "Pirilampos Cegos" (romance), "O Gosto Amargo de Qualquer Coisa" (romance), "Despoemas" (contos) e "Palavras que devoram lágrimas" (romance) e "Julho é um bom mês pra morrer" (romance). Foi vencedor do Prêmio José Lins do Rego (2011). É um dos criadores da FLIPOBRE.

**texto publicado originalmente no site LiteraturaBR no dia 14 de abril de 2016