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Nuno Gonçalves - Poemas

 

 

 

regresso da mais longa das viagens

 

 

também o tempo morre e como todos os mortos exige sua sepultura

estive na trácia na índia no paquistão

buscando um chão para esse intervalo miserável de tempo

perambulei maltrapilho e insone carregando esse fardo

esses farrapos de luz e cultura e amor e baba de vira-lata

buscando um lugar adequado para depositar esses restos de vida

que na íngreme subida do himalaia

iniciaram sua transmutação em lixo radioatômico

e ameaçaram a estrutura saudável de minhas células

estive em persépolis na babilônia e em creta

implorando aos filhos de zoroastro um pedaço de cosmos

para enviar esses satélites paralíticos e deformados

que no auge de uma combustão espontânea

ardiam sobre meus ombros

como uma sarça silenciosa e infeliz

irradiando uma poeira fina e asquerosa

que nem bem tocava a pele ou qualquer outra superfície

se transformava em vorazes vermes insaciáveis

que a tudo corroíam com uma fome febril e desmesurada

no meu encalço sempre o hálito da morte

bafo de cálcio e amianto

promessas de vinganças nada doces

rastejando como uma entidade decaída e maquiavélica

na órbita daquele sol que um dia habitou com plenitude a minha face

estive no cariri em olinda e no rio das onças

procurando um palmo sagrado de terra prometida

onde enterrar esse defunto estirado nessa rede

que me tocou carregar sozinho

que transformou minha coluna num tobogã

que provocou dores corporais intraduzíveis

e acelerou o processo natural de envelhecimento dessa carcaça

estive fora por muito tempo

agora estou de volta

trouxe comigo uma das luas de saturno

trouxe comigo uma cor verde típica de uma alga marinha em extinção

trouxe uma nova e estranha serenidade

que encheu de perfume a mochila anteriormente cheia de esterco e solidão

trouxe comigo uma fita cassete com canções jamaicanas sobre a liberdade

com uns poemas novayorkinos sobre magia & perda

com uma linda loira junkie alemã cantando a mais aprazível de todas as estações

cheguei nessa cidade em estado meio sonâmbulo

e andei e andei e andei por essas ruas antigas de calçamento irregular

como um fantasma que mal termina de adentrar o inferno

e percorri todos os caminhos desse povoado de sombras e loucos

como se nunca estivesse saído daqui

como se nunca tivesse conhecido o oriente

como se nunca houvesse existido nenhum regresso

alguns me reconheceram apesar do estado deplorável de meu espírito

e seus dedos e seus olhares e suas mórbidas curiosidades

se esticaram em minha direção

denunciando a deterioração de minhas vestes

o desânimo de minha alma em frangalhos

e o nonsense de meus gestos todos

alguém não hesitou aproximar-se

entregou-me algumas flores

visivelmente mal tratadas pela ação implacável do sol dos trópicos

e me ofereceu um beijo simples e cheio de amor e ternura

em seguida se retirou com passos seguros

com passos de quem sim há muito aprendeu a caminhar só na noite escura...

 

 

Nuno Gonçalves, poeta y aprendiz