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Lucas Rolim - Poemas

 

 

Lucas RolimCompartilha desde 1995 das alucinações e delírios solares na província perdida de Teresina, onde nasceu e reside. Estuda Letras Inglês na Universidade Federal do Piauí. Tem publicado seus textos em fanzines como os da série “Tetrapoema[s]” e o atual “No Panorama do Tempo o Menino se Alarga”, bem como na revista Mallarmagens e no blog A Musa Esquecida. facebook.com/olucasrolim

 

 

 

 

 

 

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da textura do piso

brotam perguntas

 

no toque esquecido das mãos.


flutuando na sala

meu olho espia

 

atrás do corpo sentado na noite.


a madrugada

é mãe da afasia.


a incerteza

resgata-se milenar.

compreender

o desespero das formas:
sentir sede e não saber o nome da água.

lamber

a queda dos calendários:
desenhar no tempo o calor da língua.

 

não saberíamos

da febre ou das datas.

 

não seríamos capazes

de um palpite.

 

qual

o volume do sono

atado à coluna infantil?

 

 

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monótono sob os olhos

pesa o silêncio da areia:

sepultura do primeiro amigo:

espírito simples, um brinquedo.
o corpo vermelho e duro

delira nas mãos do inventor.

a terra, particular, geme

sobre a mão do menino-coveiro.

atrapalha a busca, a perda,

torna-se o desafio da quiromante.

d'um plástico mudo tirei lições.
d'um metal oxidado compreendi tempo:

a solidez da forma
excita a dança das imagens.

solidão no pátio.

um relincho que sabe seu fim.

 

cavalo rubro mergulha num sonho,

sob giros do sol, envolto nas dunas.

 

 

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sobre o sigilo das pedras,

os pés são gêmeos de tecido:
brincam o jogo de amarelinha.

antes:
o modelo estático na ideia:

brincadeiras sem vértebras
em composição de velocidade
confundem o gesto das sirenes.

o depois
tatua-se no eco alongado:

uma vez distintos nos vértices,
os olhares se perdem na partida
de vez para um outro retiro.

apostar o desejo pueril
no terreno da memória
é dar-se por vencido.

o corpo ósseo das falanges
toca a queda dos cabelos:

a recordação do menino
eriça os sentimentos,

transverbera-se ágil

na carne das nucas.