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Guia Para Viajar Pelas Florestas do Sentido

"Nós rebentámos a linguagem. Rebentar a linguagem significa a invenção de relações novas e invulgares entre as palavras, a invenção de novas relações entre a palavra e as coisas, dentro e fora. É a tentativa de procurar absorver aquilo que, racionalmente, não é possível, isto porque a poesia lírica representa uma forma de violação da linguagem, ou seja, é a tentativa de obrigar a linguagem a dizer aquilo que a prosa usual jamais conseguirá exprimir".  Adonis

 

Guia para viajar pelas florestas do sentido

por Adonis. trad. Michel Sleiman

 

 

O que é o caminho?

anúncio de partida

escrito em folhas que o pó desenhou.

 

O que é a árvore?

lagoa verde cujas ondas são o vento.

 

O que é o vento?

alma que não quer

habitar o corpo.

 

O que é a morte?

carro que leva

do útero da mulher

ao útero da terra.

 

O que é a lágrima?

guerra perdida pelo corpo.

 

O que é o desespero?

descrição da vida na língua da morte.

 

O que é o horizonte?

espaço que se move sem parar.

 

O que é a coincidência?

fruto na árvore do vento

caindo entre as mãos

sem se saber.

 

O que é o não sentido?

doença que mais se propaga.

 

O que é a memória?

casa habitada só

por coisas ausentes.

 

O que é a poesia?

navios que navegam, sem portos.

 

O que é a metáfora?

asa aliviando

no peito das palavras.

 

O que é o fracasso?

musgo boiando no lago da vida.

 

O que é a surpresa?

pássaro

que escapou da gaiola da realidade.

 

O que é a história?

cego a tocar tambor.

 

O que é a sorte?

dado

na mão do tempo.

 

O que é a linha reta?

soma de linhas tortas

invisíveis.

 

O que é o umbigo?

meio caminho

entre

dois paraísos.

 

O que é o tempo?

veste que usamos

sem poder tirar.

 

O que é a melancolia?

anoitecer

no espaço do corpo.

 

O que é o sentido?

início do não sentido

e seu fim.

 

ADONIS ( Ali Ahmad Said )
 
Adonis ( poeta e ensaísta sírio-libanês, nasceu em Al Qassabin perto de Lataquia, no Norte da Síria, a 1 de Janeiro 1930. O seu verdadeiro nome é Ali Ahmed Said Esber. Ainda bastante jovem começa a trabalhar na agricultura. Porém, o seu pai incita-o a interessar-se pela poesia.
Em 1954 sai da Universidade de Damasco com uma licenciatura em filosofia. Em 1955 encontra-se preso, durante seis meses, por ser membro do Partido Social Nacionalista Sírio. Depois da sua libertação,  instala-se em Beirute (Líbano) onde, em 1957, funda, com o também poeta Yousuf el-Khal, a revista literária mais importante do espaço árabe: «Schiir» (Poesia).
Em 1980, depois da guerra civil libanesa, abandona o Líbano para se refugiar, a partir de 1985, em Paris. Hoje vive entre Beirute e Paris. Nesta cidade foi , durante vários anos, professor catedrático de árabe na Sorbonne.
Adonis é hoje considerado um dos poetas árabes mais importantes do nosso tempo. É um trabalhador fronteiriço entre duas culturas: a oriental e a ocidental, um clássico moderno que conseguiu realizar uma síntese entre a forte tradição da poesia árabe e a lírica moderna do Ocidente. É precisamente esta polifonia que permite aos leitores, de diversas culturas, o acesso à sua obra.
A sua poesia contribuiu fortemente para a renovação da língua árabe, influenciando uma geração de escritores e poetas árabes.
O nome Adonis é considerado no mundo árabe, desde os anos 60, um sinónimo de modernidade. Aí se afirmou como um dos principais porta-vozes da corrente crítica e pós-moderna.