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Rodrigo M Leite - Poemas

 

rodrigo m leite nasceu na zona sub de teresina - piauí em mil novecentos e oitenta e nove. é formado em letras - português. edita o blogue antológico a musa esquecida. desde dois mil e doze publica livros independentes e fanzines com seus poemas, entre eles: a cidade frita, zona sub, tara, a cidade revisitada & seus leões, ser movediço, zine d'a musa esquecida, a cidade frita ilustrada. tem poemas publicados em jornais, revistas e portais. contato: rodrigoemeleite@gmail.com 

 

blogs do autor:

rodrigomleite.blogspot.com.br 

amusaesquecida.blogspot.com.br

 

zine - A Cidade Frita:

https://issuu.com/rodrigomleite/docs/poemas_d_acidadefrita/1

 

 

 

embrulhados pelo tecido da tarde

saímos os dois suados

na mesa posta xícaras facas e colheres

café fervendo apitando na chaleira

margarina derretendo nos pães das quinze horas

o cheiro do leito quente por toda a casa escura

a tv desligada não avisa

os próximos três dias sem água

desleixos

nossos corpos

aquecidos e com sede

afogados largados na cama

 

 

doce é a tarde dos metais ou tempero meu verso com sabores moídos

 

desvendando gavetas, veredas domésticas

à procura do açúcar

atravessar a casa de pés descalços

 

quando a tarde cai sobre os lençóis

e a casa silenciosa

a fumaça da brasa é sensual

 

verduras brotam sem fúria

formigas migram e entram no perímetro

das laranjas que despencam sorridentes

 

a música é um som enferrujado

o barulho agreste do despertador

 

 

nenhuma sereia serena

 

à margem do rio terra vermelha noite açafrão

aceito o convite proposto pelo céu

um caminho de constelações acesas meu corpo

vaga o lume das estrelas

uma embarcação à deriva

à procura dos mistérios envoltos nas cercanias do capinzal

a noite adensa provocações e convites

embalo das águas vai-mas-vem das canoas

cricrilar dos grilos

baldio  entre brumas

namoro os aspectos fugidios

assombros vaporosos atrás de arbustos

assobios de seres estranhos imaginários

ninfas vulneráveis zanzando névoa eu selvagem

córrego de signo esfomeado pela quinta

onde galhas ferem meu curso

semiárido de quebradiça

pele agreste

 

 

piauí sul experiências ¹

 

Quando escrevo cerrado digo metafórica camada regional

com salgadas imagens carregadas enferrujados

materiais retorcidos sob nuvens de contorno grave

assombros vaporosos que invadem terreiros

percorrem hectares de grãos

desaparecem desapercebidos montados numa égua cega no cio

o destino sempre paralém

 

Quando escrevo cerrado lembro mangas verdes o cheiro de sal

insinuações crepusculares entre os ásperos caibros com felpas

transfiguras no teatro de paredes amarelas e cerâmicas antigas

sombraspectos sensibilizados pelo meu ser moreno

sépias da infância souvenir's do fundo do rio

 

Quando escrevo cerrado leio velhos encostados na antiga parede da casa dos temperos

sabores moídos condimentos ingredientes da tarde mistério

quando fumo e cachaça são tragadas com suor

quando a agitação das folhas mortas secas saudades de casa

quando laranjas no átrio despencam sorridentes

sobrados sem brilho falso

 

Quando escrevo cerrado vejo insetos de areia duros no quarto dos aracnídeos

                                                                                                           [abandonados

bulbasauro um sapo que alimento ancião designado para fechar o dia

amortecer desejos dos corpos inclinados na rede

reacender vaga-lumes

incitar ninfas no terreno vadio

 

 

[1] ao poeta rubervam du nascimento