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Fernando Abreu - Poemas

 

 

Fernando Abreu é maranhense de São Luís. Viveu na cidade de Grajaú, interior do estado, até os 13 anos. Durante cerca de dez anos editou a revista de poemas Uns & Outros, ao lado de outros integrantes da Akademia dos Párias, grupo que agitou a cena literária na capital maranhense entre o final dos 80 e meados dos 90. Tem quatro livros de poemas publicados, sendo o mais recente Manual de Pintura Rupestre (7 Letras, 2015). Antes vieram Aliado Involuntário (Exodus, 2011), O Umbigo do Mudo (Clara Editora, 2003) e Relatos do Escambau (Exodus, 1998). Como letrista, tem parcerias com Zeca Baleiro, Chico César, Marcos Magah e Nosly, entre outros. Tem poemas publicados nas revistas Germina, Modo de Usar, Sibila e Poesia Sempre e no Blog do Antonio Cicero. Mantém o blog Homem Comum, onde publica basicamente poemas.

 

 

linha de fronteira

 

poemas que não recusam nada

nem mesmo ser um poema

quando isso totemizou-se em tabu

anti-poema acima de tudo a não música

quando a fome onívora é teu nome de guerra

puta protéica pós-nuclear

barato definitivo quando nada mais abre porta alguma

porque apenas ficamos sentados nas calçadas

com raiva do sol

partir pra cima do poema desarmado até os dentes

nem sempre a luta é justa

quase nunca se leva a melhor

sobre quem?

esse é o quadro o quadrado

o poema é o ringue não o punch

 

 

like/dislike

 

poetas

não gostam de piadas

e isso é sério

garotas de programa

tem muita graça

e gostam de poemas

que não entendem

poetas sérios

não entendem

garotas de programa

e são uma piada

triste

 

 

o estado das coisas

 

o que se pode esperar de um poema:

que fique de pé e ande sem muletas

mesmo sendo coxo como byron

 

que não faça ver o pior cego

mesmo sendo um glauco mattoso

 

que não tenha pena de seus leitores

como dylan thomas

mas que também não seja sádico com eles

como ninguém que eu lembre no momento

 

que aceite seu lugar no aqui agora

se houver um para ele

e que o tempo faça o resto

se der tempo

 

o que não se pode esperar de um poema:

lamentações em cima do muro

napalm em embalagem de sorvete

finalizações relâmpago para

comentaristas de UFC

isso até se pode esperar

considerando o “estado geral das coisas”

mas não se deve

ou deveria.

 

 

burroughs na amazônia

 

replicando o pajé que soprou

a fumaça do tabaco

sobre o vinho bárbaro

que enfim se revelava

a seus lábios de navalha

william s. burroughs soltou a névoa

do mata-ratos que usava desde que

trocara o deserto mexicano

pelas vielas da amazônia

sobre a cuia que o poema imagina de barro

ou velha caneca enrugada

fim da busca pelo barato definitivo

que deveria curá-lo da doença da heroína

 

o gesto ritual reencenado

pode ser visto como um espasmo

de ironia senhorial

na mente do junkie egresso de harvard

ou como a silenciosa expressão

do mais puro júbilo

Inteiramente impossível

em outras circunstâncias.

 

 

o linchador

 

bati um pouco sim

o clima do momento

qualquer pai de família faria

agora não sei

quase não encostei nele

o pessoal barbarizou mesmo

ele estava muito doido

podia matar qualquer um ali

eu não linchei ninguém não

queria ver se fosse você

pensa só na sua família na hora

acho que nem acertei ele

acho que nem era quase um garoto

acho que nem parecia

com meu filho mais novo

linchador o caralho