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Liv Lagerblad - Poemas

 

Liv Lagerblad, poeta e artista plástica por força do hábito. eventual compositora de canções. Publiquei o primeiro livro, que consiste em uma recolha de dez poemas, que leva o nome e o selo da coleção kraft, pela editora Cozinha Experimental.  Tenho alguns quadros, poucos desenhos,  muitos poemas nem sempre exatos nem sempre prontos. Alguns livros esperando por editora. Um diploma de belas artes por angariar que já vai se arrastando faz uns anos.   Tenho poemas publicados pela web, na revista saúva, na revista modo de usar e na escamandro.

 

 

te mando aquele fotograma estourado

 

numa carta em branco

esse limbo aquoso

nós que estamos verdejando membros

nesse cenário apocalíptico de lama

está pronto pra comprar as próprias cuecas?

soube que os peixes do rio doce estão sendo

transportados por voluntários, para lagos da região

 

estamos todos aqui, esperávamos

não esperaremos mais.

estar do outro lado da tela :

desintegrar-me em bites

desaparecer da cena,

fumar um cigarro no canto,

não cantar

os peixes respirando chuva em mariana

a cadela com as tetas inchadas :

grávida ou pariu e perdeu os filhotes

em mariana .

a cadela no meio da lama, em mariana

 

 

rua itaperú

 

abre uma clareira entre as árvores

rebenta um galho e cai no meio da clareira

apontando para o norte

 

#

 

no dia do acidente de ônibus

um motorista passou pela rua itaperú

à duzentos quilômetros por hora e tombou

no hospital não se podia andar na rampa

o calçado deslizava no sangue

quando meu irmão acordou

os dois braços quebrados

disse-me “se passar por lá, abaixa e corre”

rindo, na cama hospitalar

eu muitas vezes passei

anos depois, pela rua itaperú

e tinha essa frase como mote

e via os braços desfigurados de meu irmão

inchados da cirurgia

 

#

 

ele ria, acenderam um baseado no hospital

eu era a única que chorava

sem parar / convulsivamente

ele ria, e dizia que o barato da anestesia

era excelente.

 

 

cidade :

 

cheiro de carbono – ardentia

manhã, cheiro de sêmen e camomila

poderia exclamar calma

meu dedo sujo de enxofre – traça um destino

o desleixo faz com que me detenha

no fim sem paragens, água clara que corre

ter conversas de dez horas sem nenhuma

sequência lógica.

             espasmos

                        quando tudo for secreto

quando se puder sobrevoar

as ruínas dessa construção

 

(corpo-contágio)