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Lisa Alves - Poemas

Lisa Alves, nasceu em 1981, é mineira (Araxá/MG) e radicada em Brasília. É curadora da revista Mallarmargens. Tem textos publicados em diversas revistas e páginas literárias. Tem poemas publicados em sete antologias lançadas no Brasil, Argentina e País Basco. Lançou em Agosto de 2015 seu primeiro livro de poesia "Arame Farpado"  pelo selo Coletivo Púcaro e Lug Editora.

 

 

[lagartixa]

 

Nasceu recortada – um membro para cada ponto cardeal.

Na quinta estação ela se juntava – bem longe dos olhos

da humanidade e daqueles seres colossais do laboratório.

 

Sina de ceder o rabo em qualquer encruzilhada.

 

Perdida, sozinha, embrulhada no estômago arruinado da civilização.

Sobrevivente do deserto, da neve, da fome e da matilha de michês.

 

Na face uma maquiagem bailava desfeita dos olhos à boca.

As pernas desgrenhadas eram carregadas pelo gene da sobrevivência.

 

Se tinha Deus era o Diabo.

Se tinha fé era na própria desgraça.

 

CINDY CHUPETA, VALKIRIA VALADÃO,

VERUSKA BOMBOM, VICTORIA HOUSE.

 

Lagartixas trucidadas (noticiou o jornal).

 

 

[do espírito do capital bruto]

 

Vaza na margem,

saltos já gastos

de tanto caminhar

em homens de pedra.

 

“Mulher-dama sim, senhor!”

Rapariga dos anos 80,

rainha dos botequins de esquina,

amante do rei (do crack),

casada na rapidinha

com o primeiro que abrir a carteira.

 

Filha da Puta e do Santo do Pau Descamisado.

Maria como nós (as outras),

virgem de amor,

crucificada pela navalha da concorrente.

 

Fali,

falece,

com sua bolsa de valores

no zero.

 

 

 

[persona non grata]

 

 

Ser prato de brilhante

para servir banhas

ao senhor do terno

de sete dígitos.

 

Ser o banco em couro de

dinossauro ressuscitado

pela engenharia genética

a pedido do Rei do Varejo.

 

Ser a pizza de Guarani Kaiowá

degustada pelos filhos do agronegócio.

 

Ser Diorim, Chanelim, Armanim,

Dolce e Amargo

e empestear o mundo

com a alquimia

prostituída.

 

Ser o tapete

tecido

pelas mãos miúdas

de crianças-0,10-centavos-ao-mês.

 

Não, grata!