Cidadeverde.com

Thiago E - Poemas

Thiago E, nasceu debaixo do céu-sol de Teresina em 1986. É poeta de testes, músico em reabilitação labiríntica, professor com problema de visão e driblador de gagueira. Na UFPI, formou-se em Letras e, na bebida, busca esquecer. Lançou o projeto de poesia Cabeça de Sol em Cima do Trem – livro e disco. Com a banda Validuaté, gravou alguns álbuns, o mais recente é o CD e DVD Validuaté ao vivo. Edita a revista Acrobata. E também trabalha na Comunicação do MP-PI.

 

 

!

 

as árvores da rua álvaro mendes

não existem para o aprendizado dos hábitos

na calçada quebrada em que caminho

seus troncos engrossam, alheios às pessoas

 

há profundas rachaduras nas cascas dos caules

olhando aqui, ou tocando nelas, é possível

conhecer suas rugas: as ruas do tempo vivido

o sol

 não tem

            ouvidos

                            para

                                      reclamações

 

essa parte da cidade de brasa e sombra

melhora o pensamento em modificação:

aquele encanto claro de palavra nova

transmitindo mais surpresas que entendimentos

 

passei a ter resistência aos poluentes urbanos

e o impulso extremo de absorver tudo

 

 

!!

 

as árvores da avenida santos dumont

        dividem o céu entre sol e semáforos

              parece que a beleza esconde toda dor

                       e descanso a cabeça cheia de nada

 

                   suas folhas não ligam para o casal no bar

          nem para os passageiros que decolam com medo

 em outro

             voo

                    do aeroporto petrônio portela

 

passeio, sem pressa, respiro, o sangue circula

minhas pernas percebem o cair da temperatura

 

          interessante percorrer a anatomia dos sentidos

jamais entenderei tal alegria flutuante

         todo limite é miragem nessa parte da cidade

 

                   sem saber, as

                                       árvores

                                       crescem

                                       alterando

meu corpo por           diferentes estados emocionais

 

 

PRESSA

 

a pressa traz nos braços sua bagagem de atrasos ; distribui de bom grado relógios enferrujados ; engorda na avenida e ergue novos obstáculos ; a pressa pintou-se moça e diz dar conta do recado ; chegou cedo e abriu a fábrica pro operário ; a mil por hora faz máquinas muito rápido ; a pressa medida com fita métrica tem tamanho de máximo ; corre com as pernas bem abertas empurrada pelo horário ; não descansou com o funcionário e acendeu o asfalto ; a pressa abraça as ruas, os telhados, mas não se vê tentáculos ; ajudou a motorista a jantar, a juntar o salário ; a pressa mostra a pá com a qual enterrará o passado ; acabou com a festa dos pássaros no mato ; não seca o suor na testa do trabalho forçado ; se fez sangue e força destes dias, destes maios ; constrói a época em que mais nada é acabado ; a pressa e trinta inícios por segundo por projetos ávido ; a pressa apenas, e apenas por pressa e princípios tem apreço ; a pressa só, sem limites, sem finais, sem desfecho – só começo: