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Salgado Maranhão - Poemas

Salgado Maranhão, Letrista e poeta. Nasceu em Caxias, no Maranhão, em 1954. Ainda adolescente, mudou-se com os irmãos e a mãe para Teresina. Escreveu artigos para um jornal local e conheceu Torquato Neto, que o incentivou a ir para o Rio de Janeiro, o que fez no ano de 1972. Estudou Comunicação na Pontifícia Universidade Católica (PUC). Terapeuta corporal, foi professor de tai chi chuan e mestre em shiatsu.


Publicou os livros: Aboio (1984), Punhos da serpente (1989), Palávora (1995), O beijo da fera (1996) e Mural de ventos (1998), Sol sanguíneo (2002), Solo de gaveta (2005), A pelagem da tigresa (2009), A cor da palavra (2010), O mapa da tribo (2013), Ópera de nãos (2015) e Avessos avulsos (2016).

Foi o vencedor do Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, com o livro “Mural de ventos”. Ganhou o Prêmio de Poesia da Academia Brasileira de letras, em 2011, com o livro “A cor da palavra” e o Prêmio Pen Clube de poesia, em 2014, com o livro “o mapa da tribo”.

 

 

Cena Verbal 52

 

Posso despir-me nas

                                 tatuagens

verbais; mostrar a Deus

essa farpa no arame.

 

Posso migrar sobre o deserto

com as hordas fraturadas,

num grito

            impassível

em que a boca toca

os astros.

            Meu tempo

é recluso e estou órfão

de auroras – , incrustado

nas mulheres com o sangue

ancestral sobre a neve.

 

Cavalgo uma cidade

                        faminta

com seus cães cheirando

a ópio. Cavalgo a dor

de ser pétala entre espinhos;

e as sobras do milagre

em que a língua se faz (lã)mina!

 

 

Cena Verbal 29

 

Só agora lavro o poema da tua carne;

as ervas aromáticas do teu sexo. Sabes

quando ardi para roubar-te às hienas.

Só agora penetro em teu reino

com o fogo e a lança

                                    (e gritas sob mim

chamando os anjos

para aplaudir).

                        Sou a vigília ancestral

do teu bosque ( e a faca rasgando

a fruta).

            Só há um tempo que desata

os cachos e adoça as raízes: o tempo

que aborta ira.

                        Por isso, habita-me

com teus ritos. Tu que irrigas a chama

sagra.

 

 

Cena Verbal 13

 

Acolho este alfabeto de espanto

como quem se nutre na cuia de Deus.

Há luares nos pés do rocinante

que me arrasta a um reino

sem reinado.

                        Guardo na pele

a tarifa do fogo: em minha pele

de continente errante. Os vales

e os palácios de sombras

por onde escorrem os dias

                                         inumeráveis,

serão sempre infindos: areia movediça

onde o sangue é saga.

                                   Quem adoça

o deserto dos justos? Quem preserva

a trama dos cínicos?

 

 

os poemas, aqui publicados, são do livro recém lançado “Avessos Avulsos” (2016).