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Bifurcações: A Silhueta Do Absurdo

foto: Aldenora Cavalcante

Bifurcações: A Silhueta Do Absurdo

*Lucas Rolim

 

Bifurcar-se é inventar

um outro, outros...

figuras derivadas de uma cosmologia sem vértebras

 

Assim são os primeiros versos do poema que dá nome ao último livro lançado de Demetrios Galvão, Bifurcações (Ed. Patuá, 2014). Partindo da ideia de que UM é potencialmente VÁRIOS, Bifurcações tem seus poemas distribuídos em quatro partes que, se por um lado apresentam aspectos estilísticos próprios que as diferenciam, por outro não se desgarram da poética já bem definida do poeta.

Na poesia de Demetrios, os versos imagéticos e as metáforas (por vezes paradoxais) fazem emergir o espírito surrealista com a rapidez e a facilidade que apenas os íntimos do onírico possuem – e não vejo de qual outra forma isso poderia acontecer. Peixes que deliram e desovam sol e lua, carteiros que entregam infâncias e lagartas que mastigam o sono marcam presença e pungem nos versos de Bifurcações. O fascínio mora aí: a disposição das palavras e o seu desenrolar fluido pelo corpo dos textos dá vida a figuras insólitas; cabe a quem ler se deixar imergir nesse processo.

O grande barato na poesia de Demetrios, bem como na poesia surrealista como um todo, está antes na contemplação de suas imagens e nos caminhos possíveis de se percorrer através delas, do que numa suposta mensagem fixa e objetiva do poeta. Seria talvez o mais próximo de sonhar acordado – o que condiz com o alinhamento do autor à estética onírica.

Em Bifurcações, as imagens vão surgindo e se transformando com o avançar dos poemas, até que, raras a exceções, chega a um ponto tão abstrato (ou absurdo), que apenas é possível compreender, mas não substancializar imageticamente o que é lido. O poema “língua materna” (p. 47) ilustra bem:

 

o ronronado

é uma língua secreta

que os gatos usam

para domesticar seus donos.

 

É possível gastar algum tempo imaginando, por exemplo, uma sociedade felina secreta onde seus membros se passam por criaturas indefesas a fim de ludibriarem seus donos humanos, ou ainda vislumbrar um gato escravizando um humano que lhe satisfaz os desejos, estando sob o efeito hipnótico do ronronado (viagem minha? mas é essa a intenção!), etc. Em contrapartida, em “o carteiro” (p. 39-40), logo no início do poema temos uma surpresa:

 

hoje o carteiro entregou infâncias na casa do poeta

e disse que a espera faz parte da gestação.

[...]

 

Sendo um dos poemas que mais sensibilizam em todo o decorrer do livro, mediante a própria natureza abstrata do substantivo “infância”, nós – os leitores – não somos capazes de construir a imagem de um carteiro entregando tal “objeto” a alguém. É aí que somos levados a substituir a IDÉIA de infância por uma FIGURA que a remeta, como a de um brinquedo, uma fotografia antiga, talvez até mesmo o encontro do “poeta” com o seu eu criança, como num choque espaço-temporal. As possibilidades se remontam a cada vez que o poema assalta novos leitores.

É possível, no entanto, imaginar alguns desses “absurdos maiores”, como escolhi chamar, se o leitor possui algum conhecimento prévio ou “desvenda o mistério” do poema. É o caso de “no último andar da mente: expansão e convulsão” (p.74-76). Em certo trecho do poema, tem-se:

 

[...]

asfixia

dentro dos braços-anéis

de saturno

[...]

 

Como o poeta não trata de um personagem específico, o termo “asfixia” poderia não surtir uma imagem sólida, que por sua vez se encaixasse nos “braços-anéis de saturno”. Mas um leitor atento notará que o poema foi escrito “ao som de joy division”. Sabendo disso e conhecendo um pouco da história da banda, o leitor pode conectar tais versos ao suicídio do vocalista Ian Curtis, que se enforcou, construindo assim, não somente um sentido, mas uma imagem para os versos.

Definitivamente, não é um livro para preguiçosos. A leitura de Bifurcações exigirá do leitor um esforço duplo: 1) para a materialização das imagens-metáforas e 2) para a busca dos seus significados ocultos.

 

 

*Lucas Rolim / Teresina (PI). Veicula seus textos através de impressos e publicações artesanais independentes. É autor dos fanzines poéticos “Tetrapoemas” (três volumes, 2015), “Esquizofrenia” (2015), “No Panorama do Tempo o Menino se Alarga” (2016) e “Besouro” (org. em parceria com Demetrios Galvão, vol. 1, 2016). Também apareceu em jornais, blogues e revistas eletrônicas.

 

foto: Aldenora Cavalcante