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Matheus José Mineiro - Poemas

 

 

Matheus José Mineiro - 1988, da Zona da Mata de MG. Autor do livro A Cachoeira do Poema Na Fazenda do Seu Astral, Selo Tomate Seco/2013. Integra a Oficina de Experimentação do Poema/MG. Produz artesanalmente e expõe em eventos culturais e calçadas a Apologia Poética. Já participou de eventos como Amostra Grátis/Geringonça/Norte Comum, Poesia F.C/Sesc Campinas, Off Flip/Paraty,  Festival de Inverno de São João Del Rey/MG, Alt Fest/Fliporto, Mostra Poesia Agora/Museu da Língua Portuguesa/SP, Oficina Experimental de Poesia e diversas publicações impressas e eletrônicas. A Editora Urutau prepara seu próximo volume de inéditos para este 2016 com o título Galáxia Pupila. www.apologiapoetica.blogspot.com

 

 

***

o poema em um cotidiano que contrai músculos,

comprime vasos sanguíneos,

incha varizes e entope veias.

 

insisto na sublimação e na calefação

para não ser arremessado

na emergência sem maca e soro

desse simulacro cotidiano.

 

temos pés que não pedem massagens,

muito menos hidratantes;

mas pedem caminhos,

esburacados, espinhosos, pedregosos,

porém caminhos.

 

e;  halterofilista paraolímpica,

levantamos essas anilhas de ferro

fundido com sentimentos, desejos e reinvindicações.

 

há momentos que

acontecem surtos de convulsão e epilepsia

na sala de espera para atendimento.

 

mas enquanto escavamos a fossa cotidiana

do nosso banheiro ecológico com a unha

o telescópio espacial da nasa

insiste rastrear os asteroides que orbitam

a galáxia castanha das nossas pupilas.

 

 

***

como disse o murilo mendes:

“um movimento pendular entre a agitação e a serenidade.”

 

a gente procura ter poiesis

mesmo diante da conturbação

                           e do tripalium.

num lugar onde se diz multidão e solidão

ao mesmo tempo.

num lugar onde charles henri sanson

retorna para seu lar

tranquilamente e abraça seus filhos

e ama sua companheira.

 

me sinto aquela cabana

incendiada

mesmo diante daquele temporal no zerkalo do tarkovski.

sinto

um fogo que pode derreter os canhões, fuzis e o aço de todas

                    as preocupações

para serem transformados

                         em um sino de vinte toneladas

pra estrondar na catedral

                         da cabeça de cada um,

como se trincasse uma montanha com sua ressonância.

desse corpo divergente que transita saiba que

o muro de arrimo que sustenta a igreja

                        de são francisco de assis   

                                                   há anos

são os mesmo que

sustentam essa coluna vertebral.

só não se distrai demais

pois

as fatiadeiras da padaria focalizam dedos e articulações

                           como uma câmera digital.

e a língua de aço de uma tamanduá

saltita e saliva observando o fêmur.

em certos momentos

funciono como cupim profanando

a nave de uma capela barroca.

e tendo a ser mais teimoso que a empresa

de demolição que pretende implodir as pontes

que nos conectam.

 

é preciso possuir sentimentos

mais laminosos que esmeriladeiras e serradeiras.

 

os dias

propiciam massagens com chibancas e enxadas.

cavalos relincham e búfalos bramam

nestes alqueires distantes que somos.

mas ás vezes

a massagem do poema é tanto com óleo

quanto com a fiação de alta voltagem.

 

 

***

bailado do meu feitio de santo daime,          

minha fórmula mágica,                            

ladeira de pedra que acolhe                    

minha procissão do rosário,

fogueira do meu ritual indígena,                       

água que ferve meu peiote,                 

pequena haste de chacrona                     

que abriga milhões de luzes e cores

onde o soldador no fundo do túnel

recita claridade num mundo escuro; 

reveste a lombar deste carpete   

que foi massageado por um contêiner                  

que despencou do içador.                 

 

cotidianamente aproxima-se de

algo que haja como um desinfetante,

- alecrim camomila canela -

que remova todo este odores de soco,                       

diarreia, disenteria e silêncio.

 

homeopatia que sana o organismo,

                  simila similibus curantur.

veneno de cobra que cura picada de cobra.

poema que

exploda esta indústria petroquímica

instalada na beira do rio.

 

entusiasmem palhaços da folia de reis

para distraírem

os pittbulls de aço galvanizado

que rastreiam

pacientemente

a região de carótida e da medula.   

 

o poema;

duas lésbicas negras e gordas

que se abraçam e se beijam na praça

multicolorindo a bandeira ensanguentada

hasteada nesta barricada do século vinte e um.

é com espanto que se cura um espantado.