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Dante Galvão - Sobre Presentear

SOBRE PRESENTEAR

Dante Galvão*

 

Há mais ou menos 20 anos, conheci o rock’n’roll. Eu e meu irmão conseguíamos algumas fitas cassetes de bandas que os headbengers “das antigas” iam nos sugerindo. Até que resolvemos comprar nossos próprios LP’s. Meu irmão sempre foi mais impulsivo para coleções, a mim bastava ouvir e gostar. Ele guardava dinheiro e comprava discos. Eu escutava. Até que chegou o dia em que achei que também deveria comprar meus discos. Meu irmão com tantos e eu sem nenhum. Juntei uma grana e fui a uma loja de discos a dois quarteirões de casa. A tal loja, vendia de tudo, mas as opções de rock eram escassas. Não sabia que disco queria comprar, apenas que queria comprar um disco.

Chegando a loja, comecei a olhar aqueles discos expostos pela parede até que vi um de capa verde, com chamas amarelas e o nome L7. Nunca tinha escutado as músicas da banda, mas sabia que era composta só por mulheres que tocavam um grunge bem podreira. Em 1993 haviam tocado no Hollywood Rock, no Brasil e tinham a fama de tocar sem roupa no palco. Pronto, comprei meu primeiro disco: L7 – Bricks are Heavy. Cheguei em casa e fui direto ouvi-lo, realmente era muito bom, e passei muito tempo curtindo o disco.

 

 

Nunca consegui juntar tantos LP’s quanto meu irmão, mas quando conseguimos comprar um aparelho de som que tocava CD, ele começou a vender desapegadamente todos os discos que tinha para comprar CDs. Mania de colecionar. Eu dizia pra ele: “- cara, não vende teus discos!” Mas com a mesma velocidade que acumulava, também se desfazia. Eu pensava: “-nunca vou vender meus discos!” Sempre fui mais apegado às coisas.

O tempo passou, ficamos sem toca-discos em casa, meu irmão vendeu ou trocou todos os discos que tinha (inclusive os que eu gostava tanto que era quase como se fossem meus, como o Fly on the Wall, do ACDC. Às vezes ele comprava porque eu gostava, mas quando ia vender não pensava nisso) e era cada vez mais difícil ouvir meus discos. Mas todos eles estavam guardados: os do Ramones, do Iron Maidem, outros do ACDC e o L7. Este último era o meu grande souvenir. Meu primeiro disco. Memória da adolescência e representação da iniciação ao rock’n’roll. Uma relíquia sentimental. O tempo foi passando e ele sempre lá na estante.

Eis que passados 10 anos, já casado e morando em minha própria casa, eu e minha esposa recebemos a visita de um casal de amigos, num final de semana. Ele, velho conhecido. Ela, uma garota ainda quase adolescente, cheia de afeto e muito cativante. Naquela noite conversamos muito, ouvimos muito rock, bebemos (deve ter sido muito também, não me lembro). Em certa altura da noite, a menina perguntou se podia olhar os discos que estavam enfileirados à mostra na estante da sala. Eu consenti. Enquanto ela passava disco a disco, retirando de-vez-em-quando um pra olhar com mais detalhes, nós, os outros, continuávamos o papo e a bebida.

De repente, ela tem um surto. Só lembro dizendo: “- cara, não acredito!” “– Não acredito que tu tem esse disco!” “- Eu amo essa banda.” “- É minha banda favorita.” “- Esse é o melhor disco dela.” Era o L7 – Bricks are Heavy.

Naquele momento me senti o headbenger “das antigas”. O cara que tem os discos mais difíceis de encontrar. O cara mais velho que detém aquilo que a turma das novas gerações não conseguiu viver (ou ter). A euforia daquela jovem me deixava orgulhoso de mim mesmo por não ter me desfeito dos discos, principalmente aquele, que tinha uma história, uma representação importante pra mim. E naquela oportunidade, contei a história do L7 – Bricks are Heavy.

Os dias se passaram e o orgulho que sentia em ter o disco do L7 foi se transformando em qualquer outro sentimento. O orgulho que tinha em ter aquele disco era tanto que havia se tornado em orgulho de que algo que eu possuía podia causar tamanha reação positiva em outra pessoa. E esse sentimento me ocupou pelos dias seguintes àquela visita, àquela situação inusitada.

Lá pelo meio da semana, decidi que iria dar o disco para aquela menina que delirava pelo L7.  Então, embrulhei o disco, coloquei numa sacola e levei pra universidade. Lembro como se fosse hoje: eu chegando à pracinha do CCHL e ela numa roda de conversa com outros colegas, me aproximei e disse que tinha um presente a lhe dar. Ela, como quem esperava aquele presente, não se aguentou em si: se mexia, sorria, ia e voltava e dizia: “- eu não acredito!” “- eu não acredito!” E quando entreguei, rasgou o embrulho e explodiu em alegria.

Sem dúvida, esse é o disco que mais me orgulho de ter possuído. E é também o presente que mais me orgulho de ter presenteado. É orgulho de ter algo significativo pra si e que mesmo quando desfeito dele, ele se ressignifica e continua sendo significativo para sua vida. O disco continua sendo importante pra mim, porque além de preservar uma memória da minha vida, agora, também, preserva a memória de uma amizade. 

 

* Dante Galvão, graduado em História e Sociologia, com especialização em História Cultural. Professor de história da educação básica.