Cidadeverde.com

Carlos Henrique Schroeder - conto - O Tempo Que Resta

                                                                                                                                                                                 Gabriel Archanjo

O Tempo Que Resta

*Carlos Henrique Schroeder

 

Eram botões difíceis de apertar. Duros, poderia se dizer. Marcelinho fazia força e careta, e conseguia. Ainda funcionava, mesmo depois de tudo. Na verdade os botões sempre foram duros, mesmo antes da morte de Ricardo. A gavetinha estava rachada, e por trás do plástico Marcelinho dizia que via algumas manchas de sangue, ainda.

— Caduquice, menino. Esse negócio tá tinindo. E dê graças que tá funcionando, esse troço.

Funcionar é uma palavra ambígua demais. A vida funciona? Não, sempre estraga.

Era impossível abrir a gavetinha, e, portanto, impossível de trocar o lado da fita. Sempre o mesmo, o Lado A, sempre a mesma fita, o mesmo lado. Há vidas de um lado só mesmo. Dó ré mi fá só.

Marcelinho sabia quantas músicas havia no Lado A, pois conseguia vislumbrar, mesmo nas letras gastas, o conteúdo: Há Tempos, Pais e Filhos, Feedback Song for a Dying Friend, Quando o Sol Bater na Janela do Teu Quarto e Eu Era Um Lobisomem Juvenil. Mas somente a primeira música tocava bem, as demais pareciam patinar algumas vezes, e acelerar em outras.

— Será esta a voz do diabo?, pensava o garoto.

“Há tempos” era justamente a de que Ricardo mais gostava.

— Aí, Mano, escuta só isso.

O garoto nunca esqueceu quando o irmão colocou os fones em seu ouvido. Foi a primeira vez em que ele compartilhou de algo, um gesto que não fosse...

— Não enche!

— Sai fora!

— Porra, que moleque chato!

Marcelinho limpava todos os dias o walkman. E não cansava de olhá-lo. Sony. Botões de apertar. Legião urbana. Fita branca. As quatro estações. AM/FM. Play. Stop. Pause. FF. RW.

— Pra que limpar tanto isso aí, menino!

— Poeira, mãe, poeira.

Quando se mora a menos de cinquenta metros da BR 101, percebe-se que a poeira dança, dia e noite.

É uma neblina seca que cobre os dias com uma tessitura opaca. As palavras tinham gosto de terra. A voz é sempre cansada, um pigarro ininterrupto.

Marcelinho e sua mãe moravam numa pequena casa de tábuas coloridas, com dois cômodos, um banheiro e uma cozinha. O garoto sabe que mora em algum lugar entre Curitiba e Balneário Camboriú, pois todos dizem que um lado do asfalto, o A, mais próximo de sua casa, leva para Curitiba, e o B para Balneário Camboriú. O A destruiu sua família.

— Foi o asfalto que matou teu pai. Foi o asfalto. E teu irmão também.

Para o jovem de nove anos de cabelos cacheados, o asfalto era o irmão do diabo. Todos temiam o asfalto, até o vô Neco, que a mãe dizia que era “sabedor das coisas”.

— Marcelinho, nunca brinque perto do asfalto, ele não perdoa. Você viu o que aconteceu com

seu pai e com seu irmão.

Quando o pai morreu, o garoto soube o que era um sentimento misto: alegria e tristeza.

Foram-se o bafo de cachaça, as surras de caniço, o choro do irmão, o som seco das mãos do pai no rosto lívido da mãe, os gritos. Foi-se o pai.

Dizem que o pai de Marcelinho estava tão bêbado que queria encostar nos carros, no meio da pista.

— Vem cá, fia-da-puta! Te pego, olho de fogo!

A morte do pai trouxe o silêncio. A do irmão, o vazio.

Ricardo morreu porque “confiou nas pernas”, segundo o vô Neco. Quando a mãe e Marcelinho escutaram o estrondo, sabiam que não teriam pão para o jantar. Ele morreu escutando a primeira música da fita, segurando o walkman. Marcelinho achava que ele havia apertado o Stop antes de morrer, e que isso era uma mensagem para ele, um sinal. Decorou a letra e passou a imitar a entonação de Renato Russo.

– Tá caduco, menino! Parece teu irmão, que Deus o tenha...

Ele gostava da comparação, e cantava ainda mais alto, com sua voz esganiçada. E escutava, escutava e cantava (embora não compreendesse de todo a letra).

 

Parece cocaína

Mas é só tristeza

Talvez tua cidade

Muitos temores nascem

Do cansaço e da solidão

Descompasso, desperdício

Herdeiros são agora

Da virtude que perdemos...

 

Palavras como tristeza, cansaço e solidão causam grande impressão em qualquer garoto, ainda mais quando se mergulha nessa tríade diariamente. Marcelinho batia ponto num pequeno amontoado de terra, perto do poço. Ele e seus dois carrinhos de plástico. E gostava de conversar com o pequeno morrinho, um pouco menor que ele, atribuindo a ele certa forma humana, em sua imaginação, claro. Dizem que sonhar com formigas é um sintoma da solidão. Marcelinho sempre sonhava com formigas. Elas o mordiam nos sonhos. Quando apareciam formigas em seu morrinho, ele voltava para o quarto, para o walkman.

 

Há tempos tive um sonho

Não me lembro, não me lembro...

Tua tristeza é tão exata

E hoje o dia é tão bonito

Já estamos acostumados

A não termos mais nem isso...

Os sonhos vêm, os sonhos vão

O resto é imperfeito...

Vô Neco dizia que não sonhava mais, que o asfalto roubara seus sonhos.

 

— Há algum tempo, antes da duplicação, acordar era um milagre. Todos os meses o asfalto levava um, dizia o vô Neco a Marcelinho.

Neco perdeu a mulher e três filhos para o asfalto. Sabia mais do que ninguém a força do bicho-lata, e do bicho-asfalto.

— Nunca brinque muito perto dele, pois o asfalto é tinhoso, está só esperando para engolir você, fique sempre próximo ao poço. Mais seguro.

Marcelinho gostava do poço, com sua água sempre fresca e limpa. Quando estava cheio, quase transbordando, passava horas admirando sua própria imagem, sempre ao som do walkman. O menino sempre fora uma pintura viva, talvez de Bonnard: os olhos tristes escondiam movimentos leves. Depois da morte da mãe o garoto foi viver com vô Neco, do outro lado, o lado B, a dois quilômetros de onde vivia. Deixou de falar e passava horas e horas observando o movimento dos carros, e não havia um dia em que não se lembrasse de quando o barulho da buzina e o da freada do caminhão eclipsaram o último volume do walkman. Do poço pôde ver as madeiras de sua casa, voando.

 

Disseste que se tua voz

Tivesse força igual

À imensa dor que sentes

Teu grito acordaria

Não só a tua casa

Mas a vizinhança inteira...

 

Vô Neco chorava todos os dias, pela mudez do menino por tudo, e imaginava o tempo que resta nos olhos do garoto.

 

 

*Carlos Henrique Schroeder, é contista, romancista e dramaturgo. Autor de “As certezas e as palavras” (Prêmio Clarice Lispector 2010 da Fundação Biblioteca Nacional), “Ensaio do Vazio” (adaptado para os quadrinhos), “A rosa verde”, “Fantasias Eletivas” e “História da Chuva, dentre outros. Coordena o Festival Nacional do Conto e a coleção Formas breves, de contos, pela E-Galáxia.