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Roberto Piva - Poemas

4 Poemas do Livro "Antropofagias e Outros Escritos"

 

Roberto Piva é um dos poetas de brado mais forte da poesia brasileira dos séculos XX/XXI. Figura central da contracultura no Brasil, soube articular vida experimental com linguagem explosiva. Piva emerge no cenário dos anos de 1960 com uma poesia que bebia na fonte do surrealismo e da geração beat. Seu trabalho extrapolou a dimensão da página e dos livros, por isso mesmo, se tornou um “poeta perigoso”, aquele que poderia desconcertar os arranjos estabelecidos. Sua rebelião e sua política, sempre foram a do corpo, a da sexualidade e da busca por uma espiritualidade pagã.

Em vida publicou: Ode a Fernando Pessoa (1961), Paranóia (1963), Piazzas (1964), Abra os Olhos e Diga Ah! (1975), Coxas (1979), 20 Poemas com Brócolis (1981), Quizumba (1983) e Ciclones (1997). Ao longo dos anos 200, a sua obra completa foi publicada em três volumes Um Estrangeiro na Legião (2005), Mala na Mão e Assas Pretas (2006) e Estranhos Sinais de Saturno (2008).

Roberto Piva faleceu em 2010 e deixou pequenos conjuntos de textos e manifestos, inéditos em livro. Esse material foi publicado no final de 2016, após uma campanha de financiamento colaborativo que aconteceu pelas nas redes sociais e por meio da imprensa cultural. O livro “Antropofagias e Outros Escritos”, saiu pela editora Córrego, e está associado a um esforço de escritores,editores, pesquisadores e amigos do Piva, para manter viva a sua memória e criar uma biblioteca com o seu acervo particular de 6 000 títulos. Bem como, criar um centro de pesquisas.

 

Saiba mais sobre a biblioteca Roberto Piva

Para adquirir o livro – Editora Córrego.

 

 

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o Amor é claro como uma lágrima

a morte o silêncio, epifania das rosas que desfolham

cobra mascarada enroscada num

hiato do Verão

 

mar calmo & partidas crédulas

Vento amarelo do Sonho

            contornando coxas estendidas na manhã

 

 

***

olhos negros do garoto & seus sonhos

borboleta-mil-patas esvoaçando na agonia

onde eu vii um deus

Villon, o vento sul cola no teu olho

            Uma bela concha

garoto de olhos negros, maturação de um outro mundo

sexo novo, tráfico entre sol & lua

 

 

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a poesia é perigosa

flores mugem

nuvem rosada rosna

sobre o telhado de taipas

o garoto dilacera o sexo

de Deus numa dentada

relógios desabam do décimo andar

fogueiras propiciatórias enroscam suas línguas

                                   [nas coxas que fogem

canhões cospem cazzos compridos

a poesia é perigosa

a cidade num espasmo lunar se contrai & explode

 

 

Estados Unidos do Fogo

 

fitoplâncton

esta paisagem esta canção

fundo do mar descabelado & fanático

escaravelho que ejacula cravos que assustam

horizonte Klee na palmatória de bronze do Sol

Eu virei do avesso o Amor

            comendo uvas negras

barco cossaco de pirataria elétrica

bombeiros do fogo-fátuo marcaram-me para morrer

eu desço da nave espacial

            no relâmpago que martela suas vísceras

dando pontapé na bunda pedregosa dos velos poetas