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Bellé Jr - Poemas

 

 

 

Bellé Jr. nasceu em Francisco Beltrão, sudoeste do Paraná. Viveu em Curitiba, graduou-se em Jornalismo na UEPG e há quase seis anos habita São Paulo. Vive de escrever histórias e estórias. É autor do livro Trato de Levante, publicado e 2014 pela editora Patuá.

 

 

 

 

 

 

o poeta que amo é comunista

não tenho dúvidas sobre meu coração anarquista

e assim seguimos de versos dados

 

apertamos o caudilho e disparo

meu pássaro negro vara a tempestade

num desespero libertário de vida

e de morte

 

rima no poente sangue de nosso povo sulamericano

as tintas sílabas em teu vermelho de oceano

rebelde que nunca se rende

não sei se somos

ou nos tornamos

 

tua poesia tem densidade de cobre

verve vulcânica aflora na altura dos andes

pura lava de copihue

que lavra

a brava terra mapuche

 

 

***

desfaz as horas desse tempo

pro tempo dessas horas

desalmar

 

lembra que agora preciso ir

pois sem demora

já é amanhã dentro de mim

 

vamos ficar mais cinco gramas

de sossego

pra que todo esse nosso desespero se vá

enfim remoendo

nesse dichavador invencível do tempo

e então enrolar em velhos horizontes

o inesquecível e o distante

acender nos últimos raios do poente

de nossa juventude errante

que vai nesse destino esfumaçante

renascendo em círculos infinitos

de baforada

em baforada

 

n’um beque a dois

 

 

***

é preciso apegar-se à mão de um amigo

a qualquer sinal coletivo de gratidão

a qualquer minúscula evidência empírica de solidariedade

às raras empatias capazes

de comungar os homens e as mulheres

é preciso apegar-se às flores e às frutas maduras

e à manga rosa que é as duas

 

faça outubro ou faça verão

 

não há outro jeito, compadre

comadre, de algum jeito

a insanidade se apossou da razão

e tudo começou quando vendemos o último naco

de nossa dignidade

por um prato de arroz e feijão

 

quem consegue esquecer desse dia?

os olhos abrindo-se fatalmente após uma noite

de tormenta fria

ainda assim desejando retornar a ela

e matar os sonhos de hipotermia

como esquecer a maré cheia e súbita

ao abrir as duas densas cortinas?

uma de couro e outra de insolência intempestiva

e deixar que a luz inunde as ideias

e da nascente dos olhos verta

a garoa antes seca

de realidades fundas

tão logo trovoem-se os cílios

e do atrito, a fagulha

faz brotar a manhã depois da manhã

numa ressaca de amanhecer

trazendo de volta tanto ontem

trazendo um hoje pra tanto talvez

 

é preciso acreditar na petulância do adolescente

é preciso acreditar na coragem

do sorriso esperançoso de um velho trabalhador

capaz de vencer as memórias

e o cansaço de viver delas

e nelas restar-se um pouco maior

desgarrar-se da brevidade da existência, arrancar-se

das próprias raízes

já abraçadas à morte

para dedicar à vida uma homenagem de quem

caso pudesse

jamais a esqueceria, jamais

a deixaria à míngua

e a ela voltaria

quantas vezes ela quisesse

 

é preciso creditar o amanhã

aos que ontem acreditaram

é preciso creditar o ontem

aos que acreditaram no amanhã

mas também é preciso creditar a fé

ao presente

mesmo estando ele

mais desacreditado do que a gente