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Eliza Caetano - Poemas

Eliza Caetano, nascida em Belo Horizonte, é jornalista, mãe de duas filhas e escreve desde sempre. O Caderno das Inviabilidades é seu primeiro livro de poemas.

 

 

Segunda tentativa

 

Bobagem — resmungava os entulhos, as molduras dos quadros de que eu gosto. Ia até a cozinha, fervia água, preparava a refeição e tinha mais panelas do que precisava. Pecava pelo excesso e decidi jogar tudo fora. Até as colheres de pau. Até os lençóis. A espera que contava as horas do meu dia. As horas. A porta que afinal se abriria. As cortinas. Os lábios, o cachorro, a visita, o cartão do banco, cada livro, cada palavra que eu diria e cada som que talvez saísse das caixas. O microfone e o papel de presente eram, então, inúteis. Assim como as canetas, os papéis, o teclado do computador. Então eu teria o silêncio porque dentro de mim é como o centro da cidade resmungando bobagem, lixo, barulho, palavras, gente e a espera impaciente pelo silêncio do fim do dia. Joguei fora a espera que contava as horas do meu dia e ela saiu acompanhada das horas do meu dia e do talão de cheques.

 

 

Terceira tentativa

 

Insisto.

Paro, sento, teço

Faço rosas, faço ventos, cubro–me

Tranço linhas confusas e frias.

É por nada

Porque só caminho sobre a brita

Surda leio lábios

Cruzo as pernas com displicência

olho para baixo.

De pernas trançadas

lanço ventos frios para uma trama incômoda

Depois retorço as mãos segurando a colcha em direção

ao seio. Sonho lutas que não se acabam.

Não sou eu. Apenas faço votos de felicidade sob a colcha.

Paro, sento, teço e o

tecido não me cobre.

Minto a idade,

O vento me revela.

 

 

O atirador de facas

 

O atirador age calmo e morno

mesmo o sangue do baço perfurado

mesmo o sorriso de olhos fechados

ganha o jogo quem acertar sem querer

 

O herói do circo é o atirador de facas

aos olhos da moça pregada na parede

seus olhos tremem

 

O que ela quer

receber facas pelo corpo

o fio dos dentes do atirador de olhos azuis partindo suas postas.

 

Era uma vez uma garota na ponte

eram olhos de correnteza que a fitavam lá

de baixo.

Atirador, ela é nas suas mãos

retalhada de olhos fechados

de olhos abertos

fixos em seus olhos de correnteza azul.

 

Enquanto você gira para atirar

seu sorriso é morno

e seus olhos continuam

correnteza. Suas mãos

e meus olhos são

castanho–escuros.

Enquanto você ganha

meus seios e pele, enquanto,

querido atirador, escrevo

uma carta e mostro

o caminho para suas lâminas

sei que você tentará acertá–la.

Me atire, a garota na ponte,

o sorriso na ponte,

seus olhos de correnteza azul

na ponte.

 

 

***

Tenho um retrato surdo do tempo

um retalho de carne

o vão cardíaco

um último corte

o que tenho vai longe

é um fio de voz em canção de ninar

são braços vazios que ninam meu resto

um sono que embala meu corpo ereto:

tenho um talho do tempo em minha mão

um filho mudo e o barulho seco

da ausência do som que deveria estar

guardo por dentro uma constatação

assimilada sob a água da pia do banheiro

que me abre asséptica, enxerga lá dentro

cria um vão no ventre e outro no coração

depois costura.