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Leonardo Fróes - Poemas

Leonardo Fróes nasceu em Itaperuna, município fluminense, em 1941. O poeta, tradutor, jornalista, naturalista e crítico literário brasileiro cresceu e foi criado, no entanto, na cidade do Rio de Janeiro. Publicou os livros de poemas Língua Franca, em 1968. Seguiram-se A Vida em Comum (1969), Esqueci de Avisar que Estou Vivo (1973), Anjo Tigrado (1975), Sibilitz (1981), Assim (1986), Argumentos Invisíveis (1995), Um Mosaico Chamado a Paz do Fogo (1997), Quatorze Quadros Redondos (1998), Chinês com Sono Seguido de Clones do Inglês (2005) e Trilha – poemas 1968 – 2015 (2015). Traduziu para o português, livros de escritores como: Virginia Woolf e Wiliam Faulkner.  Ganhou o prêmio Jabuti de poesia, em 1996, e o prêmio Paulo Rónai de tradução, em 1998.

 

documentário: Leonardo Fróes, um animal na montanha (2017).

filmado por Alberto Pucheu, Gabriela Capper e Sergio Cohn. A edição é de Gabriela Capper.

 

 

PASTOREANDO UM BRUXO URBANIZADO

 

Interpele o mato a brotação a seiva

que borda obras custosas de artesão

sob os elos amenos do jardim indague

com que paciente amor foram tecidos

os fios luminosos da manhã

cuja cortina ondeada se biparte nos morros abjure

toda forma suspeita urbanizada

ou transmitida

por imperfeitas formas literárias

de assimilar o mundo espie

essa nudez de coisas que se entregam

à embriaguez da própria criação o lento

crescimento raízes

matizes o intento

imprevisível do capim a ilusão preguiçosa

de nuvens que desandam

e de repente chovem sobre a roça

um frio leque de água clara ouça

essa mensagem muda que o minuto

sopra: viva invoque vislumbre invente

mas não pergunte nada.

 

 

O OBSERVADOR OBSERVADO

 

Quando eu me largo, porque achei

no animal que observo atentamente

um objeto mais interessante de estudo

do que eu e minhas mazelas ou

imoderadas alegrias;

 

e largando de lado, no processo,

todo e qualquer vestígio de quem sou,

lembranças, compromissos ou datas

ou dores que ainda ficam doendo;

 

quando, hirto, parado, concentrado,

para não assustá-lo, com o animal me confundo,

já sem saber a qual dos dois

pertence a consciência de mim —

 

— qualquer coisa maior se estabelece

nesta ausência de distinção entre nós:

a glória, a beleza, o alívio,

coesão impessoal da matéria, a eternidade.

 

 

JUSTIFICAÇÃO DE DEUS

 

o que eu chamo de deus é bem mais vasto

e às vezes muito menos complexo

que o que eu chamo de deus. Um dia

foi uma casa de marimbondos na chuva

que eu chamei assim no hospital

onde sentia o sofrimento dos outros

e a paciência casual dos insetos

que lutavam para construir contra a água.

Também chamei de deus a uma porta

e a uma árvore na qual entrei certa vez

para me recarregar de energia

depois de uma estrondosa derrota.

Deus é o meu grau máximo de compreensão relativa

no ponto de desespero total

em que uma flor se movimenta ou um cão

danado se aproxima solidário de mim.

E é ainda a palavra deus que atribuo

aos instintos mais belos, sob a chuva,

notando que no chão de passagem

já brotou e feneceu várias vezes o que eu chamo de alma

e é talvez a calma

na química dos meus desejos

de oferecer uma coisa.

 

 

MALUCO CANTANDO NAS MONTANHAS

(Baseado em Po Chü-i ou Bai Juyi, China, 772-846)

 

Todo mundo nesse mundo tem a sua fraqueza.

A minha é escrever poesia.

Libertei-me de mil laços mundanos,

mas essa enfermidade nunca passou.

Se vejo uma paisagem bonita,

se encontro algum amigo querido,

recito versos em voz alta, contente

como se um deus cruzasse em meu caminho.

Desde o dia em que me baniram para Hsün-yang,

metade do meu tempo vivi aqui nas montanhas.

Às vezes, quando acabo um poema,

subo pela estrada sozinho até a Ponta do Leste.

Nos penhascos, que estão brancos, me inclino:

puxo com as mãos um galho verde de cássia.

Vales e montanhas se espantam com meu louco cantar:

passarinhos e macacos acorrem para me espiar,

eu que, temendo me tornar para o mundo motivo de chacota,

tinha escolhido esse lugar, aonde os homens não vêm.

 

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