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Michael Garcia Spring - Poemas

Poemas: Michael Garcia Spring ganhou a bolsa luso-americana 2016 do Projecto DISQUIET International. É autor de quatro livros de poesia de língua inglesa. O seu quinto livro, Corvo Azul, o primeiro em língua portuguesa, será publicado em 2018 e está actualmente a ser traduzido por Maria João Marques. Os seus poemas já figuraram em várias publicações portuguesas, incluindo as revistas NEO, Vértice, The Portuguese Times, Gávea-Brown e o jornal Açoriano Oriental. Michael vive no estado do Oregon, nos EUA, onde é agricultor, instrutor de artes marciais e editor de poesia para a Revista Pedestal.

Tradução: Maria João Marques é licenciada em Escrita de Argumento pela Escola Superior de Teatro e Cinema, mestre em Estudos Ingleses e Norte-Americanos pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e tradutora desde 2008, tendo já traduzido alguns poemas de Michael Garcia Spring, publicados no jornal Açoriano Oriental e The Portuguese Times.

 

baratas

 

chamo-as

das casas de lata vazias

dos túneis subterrâneos

e das carcaças esventradas dos computadores

 

eis a desoladora

paisagem de cogumelos de pizza

que deixo suspensa do lustre –

preciso de continuar

 

a desafiá-las

a mantê-las atentas e fortes

 

quando esta casa

estiver reduzida a um mero

alpendre pairando sobre o abismo

 

e as baratas

forem obrigadas a fugir e a rastejar por entre

cabelo queimado e roupas bolorentas

ficarei contente

 

por ter reforçado a sua sorte

contente por saber

 

que algo desta casa

possa precipitar-se

para o outro mundo

 

 

o guitarrista

inspirado por Steve Vai

 

ele sustém uma nota

tão longa como o seu braço

 

uma veia carnuda

que arranca do pulso

 

põe uma extremidade

na boca

 

para ver quanto tempo

consegue respirar assim

 

gostaria de pensar

que cada nota

 

em cada música

pudesse ser assim tão fácil

 

assim tão próxima do que ele é

 

 

o choro

 

assim que me sentei a escrever

o choro da criança brotou do outro lado

do riacho transbordante

 

calou todos os outros sons, rompendo

o ruído das folhas

e encrespando o canto dos pássaros

 

tentei ignorá-lo, mas foi então que aterrou

no meu caderno – exausto, soluçante, faminto –

os seixos e o timbre da voz da água

emaranhavam-se nos seus cabelos

 

foi então que me rendi

e deixei-o alimentar-se da minha escrita

deixei-o devorar todas as palavras que queria

até estar farto

arrotando e gorgolejando e cuspindo palavras

até se transformar numa estrofe

 

foi então que decidi reescrevê-lo

fazer o que seria melhor para o choro

dei-lhe asas – asas de borboleta enormes e moles –

e lancei-o no ar

 

vi-o agitar-se languidamente –

um suspiro profundo – um sopro sonolento – pairando

de novo rumo ao escuro das janelas

 

 

o tatuador

 

o tatuador bateu à minha porta

estava zangado e num pranto

queria a mulher de volta

 

achou que podia esquecê-la

depois de a suturar na minha coxa

 

estava desesperado, lançando

a voz através da porta

disse que ela nunca seria mulher para mim

 

disse que com as suas ferramentas afiadas

e cores vivas

podia transformá-la

em algo mais que eu desejasse:

 

teias psicodélicas na minha cara – uma língua

nos meus genitais – uma boca escancarada

florescendo em êxtase

 

mas a mulher já começara a mover-se

sobre o meu peito, lentamente

envolvendo-se no meu corpo

a sua boca contra o meu ouvido

 

deixei de ouvir

o que o tatuador dizia

deixei de ouvir

as pancadas na porta