Cidadeverde.com

Nuno Gonçalves - 4 Poemas do Livro "Calabouço de Reticências"

Nuno Gonçalves nasceu em Recife, mas é cearense. É mestre em história pela UFC, tendo se graduado pela UECE, e doutor em EstudoLatino-americanos pela UNAM. Publicou os livros de poesia Cacos de Cristo, O Sol e a Maldição, Cartas de Navegação, Calabouço de Reticências e o de prosa O Canto das Onças.

 

 

A PEDRA: SIGNO SEGUNDO

 

ofegante, asmática,inexata

a Rocha vagueia pelo chão empoeirado

sem reconhecer nenhum dos traços de sua última visita

perambula pelo tempo esse lagarto de pedra

com seu fogo amolado

em busca da pele e seus calendários

faminta como os carneiros e os albatrozes

a Rocha se ergue nas águas turvas do aquário

e o horizonte se converte em um emaranhado de águias

a Rocha retorna à garganta emplumada do equinócio

e lança suas maldições sobre o Sol:

esse bastardo encarnado...

 

 

***

a metamorfose agreste de meu canto despovoa

a imensidão do pasto em meu peito se devora

o relógio geme à algazarra que provoca

em cruz das almas encontro a polis de outrora

 

perdi os versos fascinados à meia-noite

num clone de palavras & arbustos

meu nome é foice ou príncipe da morte

e pela terra cainhou como um vulto

 

não descreio de nada nem abrigo entulhos

pois nestas águas o que vejo é apenas sombra

da flor do esperma, pesadelo radiatômico

 

sem violinos brasões ou ferraduras

esta cidade é extensão daquela outra

paisagens cinza onde galopam éguas russas

 

 

***

em busca dos ossos do jaguar assassinado

tornei-me um canto sem sementes ou compassos

deixo partir para os sertões os meus cavalos

com suas múmias esmigalhadas em frangalhos

 

ao pé da cruz invoco as almas em pó desfeitas

e o rio que tão longe ainda corre

o desejo é o pássaro sem agouro

que mastiga e fere a pedra deseducada

 

não há mais hinos ou portais nestas cidades

encruzilhadas em seus próprios desesperos

somos deuses nas esquinas destas fábulas

ou o abismo entre o nada e o desterro

 

 

ENCRUZILHADA

 

Duas línguas me sopraram suas verdades. Uma trazia a mensagem dos touros, a outra trazia o código das vespas. Forjei alguns passos nas duas direções até entender quão ridículas eram. Foi então que preparei carinhosamente o despacho, ofereci ao sétimo e decidi tatear o espanto do mundo por conta própria. Em busca de minha própria febre e do amor profundo ao meu permanente desabrigo. Meus olhos viram coisas que minha boca não seria capaz de relatar. Abraçado ao meu rancor, fui sol fui lua fui estrela nos festejos da rainha do mar. A piedade que ainda sinto por aquelas línguas é o único empecilho que resta pra que meu sonho se desfaça em mar, sigo deserto, sigo vomitando naufrágios minerais.