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Lia Testa - Poemas do Livro "Sanguínea até os Dentes"

 

Lia Testa gosta de palavras que se encontram em permanente estado encantatório e de envolvimento. busca ritos degustativos de salivas que molham a linguagem numa fala erótica e de erotização. acredita que a poesia está em todos os espaços para recodificar o corpo. tenta viver/estabelecer uma íntima relação de atravessamento com a palavra, pelo desejo/sonho de encontrar seu intenso e incessante tecido (palpável ou impalpável), para chegar a um estado poético possível. toma a sua produção como um “work in process”, impelida de desdobramentos múltiplos, de energias moventes e de imersões. Além de se dedicar à produção poética e à produção de obras-colagens (feitas à mão), é professora de Literatura Portuguesa da UFT, Mestre em Letras e Doutora em Comunicação e Semiótica. Têm trabalhos publicados em revistas acadêmicas e literárias, participa de algumas antologias poéticas e é autora dos livros “guizos da carne: pelos decibéis do corpo” (Poesia Menor, 2014) e “sanguínea até os dentes” (no prelo)

Contato em: lialeny@uft.edu.br ou liapoeta@hotmail.com

 

 

 

***

nasceu. não queria tirar as garras da pele primeva. temia o voo anorgânico. desvencilhava-se se houvesse voos-casulos. não havia. olhos postos nas peles. thânatos a espreitar. desejo de refazer o que se desfez. afirma o pouso não pouso. pathos. desvios. errância. clara fenda de|fusão.

 

 

***

ser peixe

ser a guelra

do peixe

a escama

da guelra

do peixe

ser barbatana

de peixe

a escama

que escama

a guelra

do osso

do peixe

ser a cartilagem

que dobra o peixe

ser olhos de peixe

ser olhos boca

ópera de peixe

a carnuda

cavidade

do peixe

ser espinho

espinha que

rasga o peixe

nadadeiras

que escapam

longe

ser o longo

dorso do peixe

em linha curva

ser a zona neutra

do aquário

o opérculo

semicircular

de guelras

arco de arpão

isca de anzol

ser anzol e peixe

ser a isca

na guerra

ser a guerra

do peixe na

água 

o corpo-orifício

o ar da narina

o branco da

fenda branquial

o olfato

ser o nervo

tongue de peixe

de língua

fusiforme

fiando a água

o céu o mar

fluindo na

sonda aquática

onda de voz

raio rima

peixe-mulher

ser medusas

cristais de guanina

maré

em água doce

ser o sal

ser o peixe

de sal

celacantos

do peixe

ser o muco

da truta arco-íris

o truque da água

a moreia de mole

corpo anguiliforme

ser peixe

ser a guelra

do peixe

 

 

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ataque de ícaro | na escada rolante | só

ventosas na goela | goela abaixo | só

pedrada na carne | o voo do mundo | só

abaixo do equador | pena fora do ovo | só

sóis órbitas celebram | o olho do vulcão | o grão | só

o mareado espinho | o chão | o vão | de | sol | só

a espinha dorsal | o dorso do peixe | a ponta | só

concêntrica | espetada no ouvido | o ar da água | só

o radar da antena | atenta ao sopro | desafina | só

a estricnina | na língua | o soco | no estômago | só

o saco do som | na bagagem babilônica | silva | só

os fungos sabem a | coreografia do pulo | pula | só

o íntimo andar | nada se diz | já disse: | radiação | só

tudo fronteira | o longo dervixe | deve evoé | vish! | só

de vir aqui | digere | dirige | o fim | . | o começo | só

o eco | a eco | na caverna | saída | do capim santo | só

o resto todo | todo o resto | sabre ensaboado | s.o.s | só

os goles desfibrilados | o nervo | retido na retina | só

o abismo não basta | bastardo olheiro | nuances | só

alcança disfarce | nunca descansa | a mão do poeta | só