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Sofia Mariutti - Poemas do Livro "A Orca no Avião"

 

Sofia Mariutti nasceu em são paulo em 1987. formou-se em letras-alemão pela usp e trabalhou até 2016 como editora da companhia das letras, onde foi responsável pela reedição das obras de paulo leminski, ana cristina cesar e waly salomão, entre outros livros. organizou antologia comemorativa dos trinta anos da editora, o livro é um poema (2016) e o livro das listas: referências musicais, culturais e sentimentais, de renato russo (2017). para a companhia das letrinhas, traduziu do alemão os livros a orquestra da lua cheia (2010), a visita (2016) e os voos de thiago (2016). a orca no avião é seu primeiro livro.

 

 

 

 

RÉQUIEM PARA O ALTO RIO NEGRO

 

nos aguaçais os aguapés

cruz, canhoto! —

bolem... peraus dos japurás

de assombramentos e de

[espantos!...

                                                                                                                            

manuel bandeira

 

 

nos igarapés do rio uaupés

cada igreja erguida é um túmulo

cabari japú tiquié timbó

riachos não ainda desenhados

nos mapas de navegação virtual

 

nas margens do rio içana

cruzes foram içadas

e fincadas com empáfia

no topo de templos cristãos

atestando “aqui jaz o povo tal”

hupda tukano siriano baniwa

pira-tapuya todos enterrados

sob os internatos salesianos

 

desana não é decano

dow não é deão

não há missão sincera que ensine

casamento camiseta de algodão

culpa plástico perdão

triquíase tracomatosa

 

os shorts jeans quando se molham

ficam pesados e atrapalham

o movimento das pernas

das mulheres do alto rio negro

 

essa igrejinha de fachada

tão charmosa azul e branca

está vendo? tome tento

é um túmulo

 

sobre as sobras de uma noite de festa

resta apenas um demônio

sombra negra

justificando o que ninguém entende:

o suicídio de duas jovens índias

cada uma em um canto da aldeia

batizada pela igreja

santa cruz do cabari

 

a corda que sustenta os sonhos numa rede

quando amarrada no pescoço

inaugura um sono profundo

que as livrará de todo o mal

 

sucumbir ao abismo da existência

esse modo tão branco de morrer

a palavra de cristo não sei mas

a questão de camus

chegou até lá

 

nos igarapés do rio uaupés

nas margens do rio içana

quinhentos anos de cortejo

e os índios seguem carregando as cruzes

do seu próprio funeral

 

nos igarapés do rio uaupés

nas margens do rio içana

hoje todos os afluentes do alto rio negro

vestiram preto

 

 

DESEQUILÍBRIO DOS CORPOS 

 

no escuro do quarto dos fundos

há um violão deitado de bruços

o oco do ventre recluso

nenhum ensejo de música

 

será que tombou com o vento

ou foi a fanfarra dos gatos

o golpe fatal?

 

em torno um silêncio de túmulo

suscita o homicídio perfeito

sem sangue vestígios sinais

 

quiçá voluntariamente

o instrumento se lançou

desesperado:

falta-me uma corda,

já não sirvo para arpejo

 

com o ré arrebentado

ele enlaçaria o próprio pescoço

como aquele guitarrista

love will tear us apart

 

o violão suicida, no fundo

é um corpo sedento como qualquer outro

que se umedece e abre quando faz calor

 

 

LUGAR COMUM

 

essa semana passou

voando

parece que vai cair

uma água

o tempo está

fechando

você acha legal?

eu também apesar

que vou embora de motoca, né?

quanta chuva que bom

que amanhã já é sexta

espero que o tempo

melhore essa semana

passou voando