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Samarone Lima - Poemas do Livro "A Invenção do Deserto"

Samarone Lima é jornalista e escritor. Nasceu no Crato, Ceará, e vive no Recife desde 1987. É autor dos livros jornalísticos Zé: José Carlos Novaes da Mata Machado - reportagem biográficaClamor - a vitória de uma conspiração brasileira e Estuário - crônicas do Recife. Foi finalista do prêmio Jabuti com o livro-reportagem Viagem ao crepúsculo, em 2010, e com o livro de poesia A praça azul & Tempo de vidro, em 2013. Recebeu, com o livro O aquário desenterrado, de poesia, o 2º Prêmio Brasília de Literatura e o Prêmio Literário da Biblioteca Nacional, ambos em 2014.

 

 

MANUAL DE ESPERA E SOLIDÃO

 

Como o silêncio sem rastros

De um animal desvairado

Com seu cheiro difícil de esquecer

De tão próximo.

 

Ou o espaço que damos

Entre os ossos

Dessa ausência doentia

De tudo o que se quer.

 

Como se aquilo que se perde

Não virasse outro abismo –

O de ter sido.

 

E mesmo assim, se promulga a voz

Do absoluto desejo.

 

Tão imaculado, tão limpo, tão puro

Que sequer precisa de um nome

Para saber-se vivo.

 

 

VESTÍGIOS

 

Algumas perguntas são prematuras

Como o irmão que nasceu antes

E não vingou.

 

Outras ofendem o amor.

 

O pó da infância e da saudade

Não tem resposta

(Sequer pensa nos móveis carcomidos

Nos múltiplos tempos da espera).

 

Tanto amor, tanto amor

E o perdão resvala apenas

Quando os corpos adormecem.

 

Algumas respostas

Têm tanto ardor

Que ferem

(Retornam como uma pedra que dorme).

 

Só o desespero não responde.

 

 

RESILIENTE

 

Resiliente.

Assim me chamou nas dobras

A antiga amiga.

 

No corpo que torceu e retorceu

Ao seu centro noturno

E desigual.

 

M espantalho sem biografia

Aguando as quimeras de si.

 

A ruminação como defesa

Ou como certeza.

 

As brasas que ardem

No tempo da espera.

 

O quase dono de si.

 

O vaqueiro cego

Buscando um cão

Brincando com os espinhos.

 

Capaz de um destino lógico

De amarrar narcisos

Aos vasos inconclusos

Do jardim devastado.

 

De cerzir o passado

Sem álbuns, sem a matéria dos homens.

 

Como quem escreve segredos

Com aspas imaginárias.

 

 

UM NOME À MINHA SOMBRA

 

Eu poderia jogar as mãos no mar

E endurecer porque há o infinito

E me completa.

 

E poderia recolher

O que disseram ser meu

E baixar os olhos em súplica

Como uma intenção desabitada.

 

Nada disso me levaria

A pontos extremos

(E sinto a respiração

Dos mesmos pássaros que sonhei).

 

Acedo. Aquieto.

A imensa ternura, engolfada pelas ondas

Murmura qualquer coisa indecifrável

Que julgava minha.

 

Elaboro a espera.

Mancho de branco o que restou

(As espumas diriam)

E sei que há um nome à minha sombra.

 

É quando o mar percebe a súplica.

E tudo devolve.