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Wanda Monteiro - Poemas

Wanda Monteiro, uma amazônida, nascida às margens do rio Amazonas no coração da Amazônia, no Estado do Pará, Brasil, reside há mais de 30 anos no Estado do Rio de Janeiro. Mãe de três filhos, Wanda Monteiro nunca se afastou de sua vocação literária. Além de escrever, exerceu a atividade de revisora e de produtora editorial durante muitos anos. Participou de vários projetos editoriais de pesquisa histórica realizados no Estado do Pará e sempre publicou seus textos literários em revistas literárias, blogs e sites. Publicou dezenas de seus textos poéticos na Antologia Poesia do Brasil do Proyecto Sur Brazil, participando  dos volumes IX, XI, XIII, XV. lançados no Congresso Brasileiro de Poesia no Rio Grande do Sul.é autora dos livros: O Beijo da Chuva, Editora Amazônia, 2009, Poesia; Anverso, Editora Amazônia, 2011, Poesia; Duas Mulheres Entardecendo, Editora Tempo, 2011, Romance escrito em parceria com a escritora Maria Helena Latini. Aquatempo – Sementes líricas, Editora Literacidade, 2016, Poesia.

Contato: [email protected]

 

 

 

Do mar

 

há tanta areia dentro de ti

há esse sal cristalizando teus músculos

um mar ondula em teu corpo

teu exílio

ressaca contida de tuas marés

mas

há um canto de liberdade

no voo de gaivotas

rasgando o céu de tua boca

o mar ouve esse canto

e te vem à garganta

subindo

crescendo

até transbordar

 

II

 

canoas

barcos

embarcações

carregam sonhos
cargas de dor
cartas grafadas na lírica da existência

 ao eco dos ventos

seguem

na dança vítrea das ondas

no corpo das águas


no mar da história 

vivem partidas

chegadas 
ancoram em afetos
em saudades
distantes cais

até que
na corrente de um repente
derramando o lastro de soçobros

emborcam sobre a areia
ancorados no avesso de seus ais

 

 

Do rio

 

I

 

ainda trazes nos olhos

o luzir da água que te acordou

lembras?

 

tu
a menina afagando a quase manhã na pele do rio
 

todo lúmen - todo espanto

espelhados na clara tez

de tua face

 

cravada em teus pés

pequena raiz

coberta da pouca terra

úmida-nascente 

verde leito onde abriste a tua carne para a vida

 

o tempo guarda-te no líquido gesto

e o rio corre em teus olhos

 

 

II

 

teus olhos miram invisível rio

nele

palavras

que  nunca disseste
nadam como peixes cegos

 

nadam famintas

morrendo à míngua

de tua coragem de dizê-las

 

no leito

um eu nunca dito

naufraga

reverberando teus assombros

e soçobros

III

 

teus olhos minguados

padecem do estio dessa tarde

 

o

sol

bebe

gota

a

gota

o

teu

rio

 

deita-te no chão da noite

colhe a chuva de teu sereno

quem sabe tu possas chorar sobre tua madrugada

 

a carne orvalhada dói menos

dói menos

dói menos

 

 

IV

 

do ventre de tua rosa tardia

nasce um tempo

de espera

solidão

silêncio

 

um tempo de plantar no pouco de tua terra

uma semente de rio

 

espera pelo rio nascer

ainda que nessa espera

um frio minuano

 

atravesse-te o corpo na angústia

de que possas não germinar

nem crescer

nem florescer

 

 

V

no canto de uma derradeira estação

 

tu que habitas essa ilha de memória 
terra de parto 
vida
e
morte
margeando  saudade na areia
olha
procura por debaixo das coisas miúdas 
os sentidos partidos ao meio pelo tempo 
recusa a morte

corrente-leito-de-espera 
do rio que já não é
aceita a vida

 manhãs 
do rio que será

o agora não é chegada 
é partida

 

 

Cláudio Daniel - Poemas

 

Claudio Daniel, poeta, tradutor e ensaísta, nasceu em 1962, em São Paulo, onde se formou em Jornalismo pela Faculdade de Comunicação Social Cásper Líbero. É doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo. Publicou 25 livros de poesia, ficção, antologias, ensaios e traduções, entre eles os seguintes títulos: A sombra do leopardo (Azougue, 2001), Figuras metálicas (Perspectiva, 2005), Cores para cegos (Lumme Editor, 2012), Cadernos bestiais, volume I (Lumme Editor, 2015), Esqueletos do nunca (Lumme Editor, 2015) e Livro de Orikis (Patuá, 2015). Participou de antologias de poesia brasileira contemporânea no Brasil e no exterior. Organizou os eventos literários internacionais Galáxia barroca e Kantoluanda, em 2006, em São Paulo, e foi um dos curadores do Tordesilhas, festival ibero-americano de poesia contemporânea, em 2007, e do Tordesilhas, poetas de língua portuguesa, realizado em Lisboa, em 2010. É editor da revista eletrônica de poesia e debates Zunái (www.zunai.com.br)  e mantém o blog Cantar a Pele de Lontra (http://cantarapeledelontra.blogspot.com). Foi curador de Literatura e Poesia no Centro Cultural São Paulo entre 2010 e 2014. Atualmente é colunista da revista CULT.

 

Os poemas publicados, são do livro Livro de Orikis” (Ed Patuá, 2015).

 

OGUM

 

Ogum Oniré

pisca o olho

e cai um dedo

do mentiroso.

Pesca o peixe

sem ir ao rio.

Molamolá

– farejador

de farelos –

livra seus filhos

do abismo.

Ogum Ondó

viajou a Ará

e a incendiou.

Viajou a Irê

e a demoliu.

Senhor de Ifé,

livra seus filhos

do abismo.

Ogundelê

malha o ferro

e faz flechas

de flagelo.

Comedor de cães

fulmina o racista.

Ogum Megê

queima o sangue

do fascista.

Megegê

golpeia o golpista

da revista.

Ferreiro-ferrador

forja a foice

forja o martelo.

Que não falte

o inhame.

Que não falte

massa de pão.

Pai do meu avô,

livra seus filhos

do abismo.

 

Ògún ieé!

 

 

IANSÃ

 

Oiá vem

com o vento

vem e revém

mãe do meu

pensamento.

Faz a pedra

Flutuar.

Escreve

na folha

palavras

de vento.

Mulher-leopardo

faz amor

amar

e medo

sentir medo.

Eeparrei!

Come pimenta

Vermelha.

Dança com pés

vermelhos.

Olha com olhos

vermelhos –

como se

quebrasse

cabeças.

Mulher-leopardo

dona do raio

e do vento

– aquela

que vem

dançando

aquela

que vem

dança-dançando

aquela

que vem

dança-noite-dançando.

Oiá ô!

Tira tripa

do mentiroso.

Fura olho

do preguiçoso.

Mãe do meu

pensamento

não me queime

com o sol

da sua mão.

Afefê Ikú Funã

aquela-

que carrega-

o-chefre-

de-búfalo-

e-dança-

no-cemitério-

coberta-

de-cinzas-

dissipa meu tormento.

 

Eeparrei!

 

 

EXU


Lagunã corrige o corcunda.
Faz crescer a lepra do leproso.
Põe pimenta no cu do curioso.

Legbá ensina cobra a cantar.
Entorta aquilo que é reto,
endireita aquilo que é curvo.

Exu Melekê — o desordeiro
faz a noite virar dia e o dia
virar noite. Surra com açoite

o colunista da revista. Cega
o olho grande do tucano —
e zomba do piolho caolho.

Marabô vai-vem-revém. 
Quente é a aguardente
do delinquente. Elegbará

com seu porrete potente
quebra todos os dentes
do entreguista privatista. 

Bará tem falo de elefante.
É o farsante dos farsantes:
fode a mulher do deputado

hoje – e faz o filho ontem.
Agbô confunde o viajante
e o faz perder a sua rota.

Bará Melekê compra azeite
no mercado — levando peneira
volta sem derramar uma gota.

Larôye Exu! O desalmado
soma pedras e perdas na sina
do condenado. Sete Caveiras:

que seja suave minha sina
neste mundo tão contrariado.
Que seja suave – Larôye Exu!

Sarau de Segunda com Letras

 

O Sesc Centro promove na próxima segunda-feira (30) o Sarau Segunda com Letras, dentro do projeto Trilhas Literárias. Será às 19h no Bar Genu Moraes, anexo ao Theatro 4 de Setembro. O objetivo é divulgar e cultivar a literatura piauiense em Teresina, associando literatura à musica, à linguagem visual e à vivência literária, além de promover novos trabalhos.

Dentro da programação do Sarau estão a premiação do Leitor do Circuito Sesc de Leitura, divulgação do Edital Prêmio Sesc de Literatura 2017, lançamento do livro Baú de Poesias, da escritora infantil Raíssa Lages Neiva, bate-papo literário com Demétrios Galvão e Thiago E, intervenção artística com a exposição Caos sem Olho, do poeta e publicitário Italo Lima, intervenção poética com João Henrique Vieira e Lucas Rolim, intervenção artística musical com Marcus Sousa (Sonoridas) e Fabrício Santos (Música Tio~), além do lançamento da Revista Acrobata.

O Sarau Segunda com Letras acontecerá nas últimas segundas-feiras dos meses de janeiro, abril, julho e outubro, sempre no Bar Genu Moraes, às 18h30.

____________
Sarau Segunda com Letras | Theatro 4 de Setembro – Bar Genú Moraes | 30/01 | 19h | Gratuito | Livre para todos os públicos |

 

www.pi.sesc.com.br

Bruno Molinero - Poemas

Bruno Molinero, autor do livro de poemas Alarido (ed Patuá, 2015), estudou na Escola de Comunicações e Artes da USP, na Escuela Internacional de Cine y Televisión (Cuba) e na Universitat de les Illes Balears (Espanha). Jornalista, escreve para a Folha de S.Paulo desde 2010. Foi vencedor do prêmio Jovem Jornalista, do Instituto Vladimir Herzog, finalista do prêmio Nascente, da USP, e indicado ao Prêmio Folha. Em 2012, representou o Brasil no World Event Young Artist, na Inglaterra. Alarido integra a Coleção Patuscada 2, projeto premiado com o ProAC - Programa de Ação Cultural do Governo do Estado de São Paulo.

 

marcela, 43, casada

 

matei, sim senhor
porque quis
não, até que era bonzinho
na gaveta da cozinha. uma daquelas grandes, sabe?
isso, ele estava no sofá
de costas
não, não me viu
dei dois passos e a lâmina escorregou para a cabeça dele
não tirei porque mancharia ainda mais o tapete
ora, se sabe, por que pergunta?
desculpe. sim, o corpo ficou lá
depois saí
mansão. era muito rico
não. deixou tudo para as meninas
eu sabia, sim senhor
porque quis, já disse
cansei de subir em pau de sebo. deslizar fácil não tem graça
sim. mas vou ficar muito tempo?
é que deixei a panela no fogo

 

 

salete, 66, centro de atenção psicossocial álcool e drogas III

 

como estão os répteis?

sacodem as inexoráveis

escamosas

patas pela sala?

e os demais tortos

insodáveis

sempre deitados

nas saliências sinuosas

ainda seguem

salutares

inoxidáveis?

os répteis da somália

onde estão?

bocas cheias de cáries

e gengivas incipientes

segregados

dos novos répteis da sarjeta?

e os toscos ascos

santificados

pelas sementes do sussurro

do socorro

do insano

sentados com os velhos

répteis sintomáticos

sibilantes de sovina

e soltos pelos cantos

onde estão?

 

silêncio

 

os répteis

sopram

segredos

 

 

priscilla, 19, dois três sete

 

o que mais me irrita aqui dentro

é o espelho em forma de losango

 

mais que a árvore de natal

encostada no pole dance

ou que os tapas na bunda

e meu sorriso cimentado para não desagradar o cliente

mais que pau de obra

cavocando o meio das minhas pernas

como se procurasse petróleo

mais ainda que o grupo de amigos

tão bêbados

que nem conseguem fazer o pau subir

mas exigem que continue chupando borrachas molengas

até dar câimbra na boca

 

o vidro irrita mais

porque não instalaram outro

e é tão pequeno

que a gente mal pode retocar a maquiagem

 

já reclamei um milhão de vezes

pedi para colocarem um dos grandes

no teto de cada quarto

o que agradaria os rapazes

e me ajudaria um bocado

 

mas não

sempre dizem a mesma coisa

é muito caro

não temos verba

quem sabe no mês que vem

 

o que ninguém imagina

é que, se chego em casa

de manhã

borrada

roupa amassada,

meu namorado nem me olha

vira de lado

sem dar bom dia

um beijo no pescoço

ou puxar meu cabelo

 

de propósito

 

pois já está careca de saber

que adoro quando ele faz isso

e que a culpa

é do maldito espelho losango

que não deixa eu me arrumar

quando saio do trabalho

 

 

Lançamento da Revista Acrobata n 6

foto: Lucas Rolim

foto do primeiro lançamento da Acrobata n 6, os editores da revista com o escritor paulo Machado.

 

Hoje, à partir das 19h, acontecerá mais um lançamento da Acrobata n 6, seguindo um circuito de apresentações da edição ao público. O lançamento será no Café da Gota Serena. A atual edição tem uma ótima entrevista com o poeta e pesquisador Paulo Machado e ilustrações da artista visual italiana Giulia Pex. Além de muita poesia, discussões sobre políticas culturais, audiovisual e literatura contemporânea. Apareçam para batermos um papo e tomar aquele café.

(O Café da Gota Serena fica na Anfrísio Lobão (X com a praça dos skatistas), em frente ao Pão de Açúcar do Jóquei.)

 

Segue um trecho da entrevista com o poeta e pesquisador Paulo Machado, como uma peque amostra.

 

Paulo, em toda a tua fala literária, há uma busca de informação no campo da história pela informação fidedigna, pesquisando no arquivo público, nos jornais, preocupado com a memória da cidade. Como tu costura a relação entre história e literatura?

Tendo nascido e vivido no centro da cidade, percebi mudanças arquitetônicas e comportamentais. As áreas de­ixavam de ser residências e as famílias ausentavam-se. Os imóveis começavam a ser modificados ou demolidos. As práticas de vidas iam sendo substituídas, num processo muito rápido. Começou a surgir, nas mídias impres­sas da época, a afirmação que “Teresina era uma cidade sem memória”. Isso me inquietou. Pode uma cidade não ter memória? E o que significa a memória de uma cidade? Fazendo essas reflexões, comecei a perceber que a memória coletiva é o somatório das memórias individuais. E que a memória coletiva, não corresponde à memória construída nos textos de história. Sabemos que toda História é uma versão, produzida por quem escreveu o texto, a partir de determinantes ideológicos. Muito da memória coletiva é excluída. Há quem afirme: “isso ocorre por esquecimento”. Mas o esquecimento é involuntário. Já o processo de ocultação, este, sim, é resultado de uma decisão. Nesse contexto, me deparei com o poema do H. Dobal, spbre Leonardo da Senhora das Dores Castelo Branco, personagem por mim desconhecido. Até hoje ele continua um desconhecido para muitos piauienses. Quais forças teriam produzido a ocultação de Leonardo? Em 1976, quando fazíamos o Jornal Chapada do Corisco, numa das discussões de pauta, foi colocada a possibilidade que editássemos pela primeira vez, no Piauí, um conto de um piauiense, que só tinha sido editado, uma única vez, em Salvador. Titulo do conto: Fogo. Autor do conto: Vitor Gonçalves Neto. Editor baiano: Pinto de Aguiar. Livro em que o conto foi editado: Contos Regionais Brasileiros, em 1951. Temática do conto: os incêndios ocorridos durante a Ditadura Vargas, na cidade de Teresina, que resultaram na morte de um número sig­nificativo de pessoas! Apopulação que morava em casas de taipa, cobertas de palha. Decidimos editar o conto Fogo, pela primeira vez no Piauí, no Jornal Chapada do Corisco. (...)

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