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Das coisas e cotidianos invisíveis & sua linguagem visível

Das coisas e cotidianos invisíveis & sua linguagem visível

Airton Souza*

 

 

A poesia carrega intrinsecamente dentro de cada palavra a indivisível maneira de muitos males, quase sem curas, no refazer dos dias no mundo. Os poetas têm sido ao longo do tempo e na variação das geografias o tradutor das coisas da vida. Sob esses males todos eles estão enredados, como que a tecer as tramas, ora suas, oras alheias. Isso implicar afirmar que é como se todos os demais seres tivessem, mesmo com armas, abdicados do combate e, os poetas só com palavras, sua arma de peso, não desistiram da guerra. Porque só eles sabem despertarem para os dias com os invisíveis cotidianos pendendo nos olhos e a garganta sem fuga a elidir imagens emolduradas, que dizem:

                              

na estante

sobre as janelas dos olhos

a imobilidade dos rostos

           

e o inapreensível grito

das coisas insubstituíveis.

 

 

Nesse invisíveis cotidianos, de Carlos Orfeu, o poeta demole, a cada circunscrito poema, uma maneira única de como lidar com a linguagem poética. Carlos Orfeu parece ter desvendado as coisas tanto da casa como as que estão fora dela e, nos traz as imagens dessas coisas de um jeito diferente. Sem a maneira de apaziguar ternuras, na maioria das vezes, seus poemas são acionativos, porque não comunicam só por comunicar, ou seja, o poeta sabe sobretudo, não só apontar as coisas, mas, com um gesto transgressor, esse poeta consegue jogar o leitor dentro da ação das coisas, empregando um ritmo na linguagem que poucos conseguiram fazer.  

Por isso é salutar afirmar que esse poeta tem o que deveriam ter todos aqueles que gostariam de ser considerado como grande poeta, sendo, portanto, a tarefa de como nos comover diante de palavras cerzindo imagens. Pois, esses versos nos mostram um ensaio de como desapaziguar imagens:

 

o verde balança

a noturna tristeza do quintal

 

Em invisíveis cotidianos é possível, dentro muitas questões latentes, atentarmos para duas recorrentes imagens, que são elas: o enredado das palavras, no sentido mesmo de musicalizar-se, na construção de nascer uma após a outra, para significar, e, o enredo que essas mesmas palavras se constroem nos interstícios de uma maneira dialógica coerente, para ressignificar a imagem poética proposta pelo poeta. É exatamente com essa maestria que Carlos Orfeu vem cerzindo o cada poema o cotidiano e seus invisíveis dilemas na pele dos homens diários. Só para ficamos em alguns exemplos:

na praça

o

c

é

u

 

se dissolve

 

...

 

nas vielas

o incêndio dos sangues

a chacina dos sóis

...

 

oco

sinto

tanto

por

inteiro

 

O poeta recorre também nesse livro, para traçar uma coerente unidade, abarcando em grande parte dos poemas, ao que a simbologia do sol, entre os dias, pode lhe representar, para que assim também possa refazer em suas memórias a poética de “homens”, dentro do preceito bíblico que essa palavra carrega, a representar os seres. E, dessas imagens ele traz à cena o desconsolo para os homens nesses dias de caos.

o sol no pulmão da cidade

(...)

o caos é uma granada de cansaço

 

...

 

o medo é o traje de cada manhã

mais escura que à noite

(...)

coletando ossos

o riso canta

na residência de lábios

que sonham amanhecer

 

...

(...)

a guerra desventrada do menino

move o mapa de cimento e manhã

 

no sol

que queima o verde

dos soldados de plástico

 

...

a claridade

enovela

seus

gestos

 

Também, em invisíveis cotidianos, o poeta soube traçar a leveza e a dispersão da descrença. Assim, ele transcreve para os verbos e sujeitos outras significações e funções possíveis somente para a poesia. A exemplificação aqui fica clara, quando ele traz para a imagem poética o homem e ressignifica ele por meio de um pássaro desesperado; cadáveres em tons de outono; oS homens e os objetos e outras cenas cotidianas.

Esse livro pincela parte de seu auto-retrato, pela claridade dos dias, aonde formigas e suas formalidades, vão canibalizando o feto que tem as chuvas, a lamber a cigarra em estado de casca, para luzir em nós outros silêncios depois de atravessar cada poema escrito aqui.

É preciso, portanto, sair desse livro com mais perguntas que respostas. Porque não a exata dimensão de como adquirir a diligência para o escuro é exatamente esse sentimento de não enxergar a completude da vida, pois caso isso aconteça, a vida em si perde o sentido da busca, que movem os homens no tempo e no espaço.

 

o nada e o agora

atados entre o sentido

e a falta dele

 

 

 

*Airton Souza é poeta e professor. Publicou mais de 26 livros, entre poemas e infantis e venceu alguns prêmios literários, entre eles: Prêmio Dalcídio Jurandir 2013, III Prêmio Ufes de Literatura 2015, IV Prêmio Proex de Literatura 2015, Prêmio Novos Talentos da Poesia Brasileira 2016 e Prêmio Machado de Assis de Poesia 2015. Coordena diversos projetos literários, entre eles: Barraca Literária, Antologia Mandala, Anuário da Poesia Paraense, Projeto Tocaiunas, Poema Postal, Projeto Foto-Poema e idealizou um dos maiores saraus do Estado do Pará, o Sarau da Lua Cheia.

Casé Lontra Marques - Poemas

 

Casé Lontra Marques nasceu em 1985. Mora em Vitória (ES). Publicou  Movo as mãos queimadas sob a águaSaber o sol do esquecimento, Mares inacabados a O som das coisas se descolando, entre outros. Reúne o que escreve em caselontramarques.blogspot.com.br.

 

# poemas do livro "o som das coisas se descolando", Ed. Aves de Água, 2017.

 

 

***

Contra o prazer da resignação,

o perigo

que é persistir – maré cítrica –

inventa

(ou reativa) maneiras de

angariar alguma alegria.

 

 

***

A saliva não larga

fácil o fôlego, dança

inadiada; esquecer

o tempo no meio

das palavras.

 

 

***

Tragédia veloz, trajetória voraz

– inenfaticamente:

aprender a ruir é já ressuscitar.

 

 

***

No bulbo, um baque

– plasmando a amplidão:

múltiplos prismas

(e improváveis paisagens)

emergem

da fragilidade.

 

 

***

A vontade que me envolve

(e ritmicamente

viabiliza)

prolonga o rosto da água

– latejando, latejando –

sem se limitar

à euforia.

 

 

***

O vazio, um ovário

– arejando a hora:

animais movediços

(célula alguma

os encerra).

 

 

Thiago Scarlata - Poemas

Thiago Scarlata é poeta, músico, escritor e criador/editor do blog literário Croqui . Teve poemas publicados nas Antologias “Âmago” (Editora Regência/SP - 2011) e “Prêmio Sesc de Poesia Carlos Drummond de Andrade 2016” e também nas Revistas “Gueto”, “Escamandro” “Mallarmagens” e “Poesia Brasileira Hoje”, além de blogs literários. Foi finalista do PRÊMIO SESC DE LITERATURA 2016 , vencedor do CONCURSO MOTUS – MOVIMENTO LITERÁRIO DIGITAL 2017 e finalista do III CONCURSO DE POESIA “PRÊMIO JAYME ROLDON 2011. Após esse hiato de 5 anos, retoma a escrita e agora publica seu primeiro livro de poesia, de título "Quando não olhamos o relógio, ele faz o que quer com o tempo", pela Editora Multifoco.

E-mail: scarlatatts@gmail.com
 

 

Refração


o cego compõe

suas próprias cores,

sua cidade.

não é o cego um condenado

 

como a sombra

que é o jeito da luz

ser as coisas que toca,

ele tem um hábito

 

 

Cinzeiro


Tempo, esse velho surdo e apressado

que não mede a teia que tece

desobriga grão a grão

(sem qualquer objeção)

pastoreando em rostos e restos

 

as cinzas de minha avó

ainda conservam sua leveza

sutileza-pó

 

guarnecido pelo silêncio

e tragado pela digestão da manhã

saco o verbete:

"só há disparo quando o peito engatilha"

enquanto uma infame ogiva

beija o chão da Palestina

 

as cinzas de meu avô

ainda conservam sua decência

granulado-humor

 

após sua leitura este poema

deve ser cremado e distribuído

no mais próximo mato

[mini monte de métrica poeira]

fermentando, assim, de alguma maneira

o devir do pasto

 

quanto ao poeta mais pra frente

a tradição jogando laço,

selando o corpo

pairá fibra e porosamente

deixo aqui testamentado:

às minhas cinzas,
o sopro

 

 

Vacância


não sou parteiro

minhas mãos não herdam

o vinagre dos nascimentos

 

não sou porteiro

nunca forcei maçanetas e nem tenho

a prerrogativa das entradas

 

não sou marceneiro

sequer me comovi do alto

com o verniz que progrediu nos caibros

 

o pedreiro que tentou me habitar

era tão bruto que não movia

a pedra do estado burro

 

meu pai, ah, meu pai, não me peça

pra lavrar a pomada desta terra

abortar de seios cios

a bacia do leite virgem

os punhos que ordenham agora

são eles que agridem

 

pai, nada aqui é lembrança

nem aqui ou em qualquer outro

basta de profecias redondas!

arromba teu porão, pai!

grita mais que a veia embala!

pai, desenha tua própria bandeira!

e me alforria dessa porteira...

 

Noélia Ribeiro - Poemas

A pernambucana Noélia Ribeiro mora para Brasília desde 1972. Formada em Letras na UnB, lançou Expectativa, em 1982; Atarantada (Ed. Verbis), em 2009, e Escalafobética (Ed. Vidráguas), em 2015. Tem poemas publicados em antologias brasileiras e nas revistas eletrônicas Mallarmagens e InComunidade. Recebeu o Prêmio FAC 2017 – Igualdade de Gêneros na Cultura (SECULT-DF). Será uma das homenageadas do Salão de Poesia Psiu Poético, em Montes Claros, em outubro de 2017.

 

SOBRE AS ONDAS

 

Conversando com o mar,

decifrei meus tsunamis

de paixão

(também os teus).

 

Consultando o mar,

percebi a inevitável

arrebentação

das ondas ao léu.

 

Contemplando o mar,

vi-te mergulhar

desvairado,

e me afoguei por um momento.

 

Compreendendo o mar,

afugentei o vício

de amar sem razão,

salvando-me do afogamento.

 

 

CLIMA ETÉREO

 

Todo minimalista,

ele entrou no íntimo

(de Eurídice)

sem deixar pista,

estancando

o sangue natural,

o desejo do gozo

e o mais ínfimo

detalhe vital

de feminice.

 

Febril,

secou cabelos

lábios, pele, pelos,

atingindo,

em tom levemente senil,

o óleo da vagina,

sagrado elixir de menina.

 

Calado e repentino,

fez soar o sino,

acelerando o tempo etéreo

por horas e horas,

em 40 graus de quentura,

para depois,

nem tão sério

nem tão apressado,

ensejar

naquela senhora,

em vez de amargura,

um olhar womanizado.

 

 

MOVIE

 

A vida repousa em uma sala escura

para projetar-se intensa, púrpura

como filme de Woody Allen.

Na poltrona, penso esperançosa

no dia em que brotará do Cairo a rosa.

 

Assim saladespero uma eternidade...

Assim permaneço na escuridade,

sem perceber o lanterninha

que iluminará nas entrelinhas

algo de que não me lembrava mais:

 

o filme da minha vida estava há muito tempo em cartaz!

 

 

DEEP IN MY MIND

 

Deep in my mind,

rola um filme de segunda

com close no peito e na bunda

e beijo fake pra começar.

Tem dedos que brincam,

línguas que dançam jingles

in the dark

sem hora pra terminar.

 

Tudo free, sem o olhar severo

de quem quer que seja.

 

Inside of me é assim, baby.

Outside, porém, é outro lance:

 

Meu amor nada sabe

da minha sandice.

Não beija quente

nem fala inglês.

Toca-me com doçura

e ama minha nudez

de moça pura.

 

 

Michael Garcia Spring - Poemas

Poemas: Michael Garcia Spring ganhou a bolsa luso-americana 2016 do Projecto DISQUIET International. É autor de quatro livros de poesia de língua inglesa. O seu quinto livro, Corvo Azul, o primeiro em língua portuguesa, será publicado em 2018 e está actualmente a ser traduzido por Maria João Marques. Os seus poemas já figuraram em várias publicações portuguesas, incluindo as revistas NEO, Vértice, The Portuguese Times, Gávea-Brown e o jornal Açoriano Oriental. Michael vive no estado do Oregon, nos EUA, onde é agricultor, instrutor de artes marciais e editor de poesia para a Revista Pedestal.

Tradução: Maria João Marques é licenciada em Escrita de Argumento pela Escola Superior de Teatro e Cinema, mestre em Estudos Ingleses e Norte-Americanos pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e tradutora desde 2008, tendo já traduzido alguns poemas de Michael Garcia Spring, publicados no jornal Açoriano Oriental e The Portuguese Times.

 

baratas

 

chamo-as

das casas de lata vazias

dos túneis subterrâneos

e das carcaças esventradas dos computadores

 

eis a desoladora

paisagem de cogumelos de pizza

que deixo suspensa do lustre –

preciso de continuar

 

a desafiá-las

a mantê-las atentas e fortes

 

quando esta casa

estiver reduzida a um mero

alpendre pairando sobre o abismo

 

e as baratas

forem obrigadas a fugir e a rastejar por entre

cabelo queimado e roupas bolorentas

ficarei contente

 

por ter reforçado a sua sorte

contente por saber

 

que algo desta casa

possa precipitar-se

para o outro mundo

 

 

o guitarrista

inspirado por Steve Vai

 

ele sustém uma nota

tão longa como o seu braço

 

uma veia carnuda

que arranca do pulso

 

põe uma extremidade

na boca

 

para ver quanto tempo

consegue respirar assim

 

gostaria de pensar

que cada nota

 

em cada música

pudesse ser assim tão fácil

 

assim tão próxima do que ele é

 

 

o choro

 

assim que me sentei a escrever

o choro da criança brotou do outro lado

do riacho transbordante

 

calou todos os outros sons, rompendo

o ruído das folhas

e encrespando o canto dos pássaros

 

tentei ignorá-lo, mas foi então que aterrou

no meu caderno – exausto, soluçante, faminto –

os seixos e o timbre da voz da água

emaranhavam-se nos seus cabelos

 

foi então que me rendi

e deixei-o alimentar-se da minha escrita

deixei-o devorar todas as palavras que queria

até estar farto

arrotando e gorgolejando e cuspindo palavras

até se transformar numa estrofe

 

foi então que decidi reescrevê-lo

fazer o que seria melhor para o choro

dei-lhe asas – asas de borboleta enormes e moles –

e lancei-o no ar

 

vi-o agitar-se languidamente –

um suspiro profundo – um sopro sonolento – pairando

de novo rumo ao escuro das janelas

 

 

o tatuador

 

o tatuador bateu à minha porta

estava zangado e num pranto

queria a mulher de volta

 

achou que podia esquecê-la

depois de a suturar na minha coxa

 

estava desesperado, lançando

a voz através da porta

disse que ela nunca seria mulher para mim

 

disse que com as suas ferramentas afiadas

e cores vivas

podia transformá-la

em algo mais que eu desejasse:

 

teias psicodélicas na minha cara – uma língua

nos meus genitais – uma boca escancarada

florescendo em êxtase

 

mas a mulher já começara a mover-se

sobre o meu peito, lentamente

envolvendo-se no meu corpo

a sua boca contra o meu ouvido

 

deixei de ouvir

o que o tatuador dizia

deixei de ouvir

as pancadas na porta

 

 

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