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Rosa Alice Branco - Poemas

Rosa Alice Branco é uma poeta portuguesa, nascida em Aveiro em 1950. Publicou os livros Animais da Terra (1988), Monadologia Breve(1991), O Que falta ao Mundo para ser Quadro (1993), A Mão Feliz. Poemas D(e)ícticos (1994), O Único Traço de Pincel (1997), Da Alma e dos Espíritos Animais (2001), Soletrar o Dia (2002), O Mundo Não Acaba no Frio dos Teus Ossos (2009) e Gado do Senhor (2011).
 
 
 
A TUA PELE DESCALÇA
 
Veio uma onda . A varrer o meu sono .
Caminhava nele como caminho na areia .
Nada me une ou divide. Nada me retém.
Sentas-te onde me sento no teu colo
e peço sempre a mesma história . A tua voz
cria as memórias que hei-de ter . Por agora
caminho ao longo das gaivotas e grito como elas
quando a maré baixa . Às vezes apoio-me num rochedo
para dizer “casa” e logo desmorono. Sigo descalça
como tu para dizer “seguimos”. Mas são apenas sons
sob o sol de maio. Murmúrios do que não serei.
Sempre tive problemas com o verbo ser. Faço
e desfaço as malas, entro e saio das gavetas.
Pausa na camisa que vestiste da última vez.
Uma vontade de amarrotar, desapertar os botões
e sentir lá dentro a tua pele cá fora.
Tudo isto é tão verdade como podem ser os botões
de uma camisa escrita. Confesso que não pensei na cor,
ou se era às riscas. Agora acho que podia ser a de quadrados.
Em qualquer delas a tua pele entra na minha.
 
 
 
CENÁRIO COM OS PÉS DE FORA
 
Deitamo-nos com a cama por fazer.
Uma pilha de blusas cai. Chão de verão.
Amor à tardinha com a vida desarrumada,
as coisas ao meio. Até o silêncio está
desarrumado. Gosto desse cenário.
Há nele uma verdade que nem mesmo sei.
O meu quarto antigo sempre em desalinho
com os livros no chão ao pé da cama. Sentir
que a vida não é uma coisa útil e as horas,
e tu menos ainda, sem dobra no lençol
e os pés de fora. Foi isto que quis
a minha vida. Sem buraco do ozono,
sem buraco de fome ou de balas
atravessando os lençóis do mundo.
 
 
Rosa Alice Branco recita o poema "Sem Livro de Reclamações"
 
 
SEM LIVRO DE RECLAMAÇÕES
 
No princípio era o verbo
e agora ninguém responde.
O marido, a amante, a família e os amigos,
todos alinhados sobre as campas.
Começam pela oração ou o correspondente laico
e logo passam às súplicas e aos subornos.
Os cemitérios são repartições públicas.
Por isso não há respostas.
Há noites mal dormidas pelas razões erradas.
Esta noite a cama tremeu três vezes. Os teus balbucios
na minha boca. A tua pele húmida. Sou o teu epitáfio?
A família e os demais continuam a acorrer aos balcões
sem os formulários preenchidos.
Os mortos já não pertencem às respostas.
Qualquer adjectivo apodrece como as flores.
Qualquer frase se decompõe sem sujeito.
Sou apenas uma tatuagem na tua campa.
No princípio era o fim.

 

 

SOLETRAR O DIA

 
Tenho tudo por dizer e gasto palavras
para lá chegar. Não sei se me afasto
ou se chego perto. Se alguma vez rocei
a pele do essencial. E pergunto sempre
para quê estas linhas que me teimam.
O passado não é o que está feito,
mas o que palavra alguma fará de novo.
Por isso leio sempre o futuro, mas não sei
para que lado do tempo escrevo. E se soubesse
que arrasto as letras como um caranguejo
diria que só tenho esta mão de palavras.
Soletro os dias em cada coisa que me olha
quando me sinto a vê-la. É tudo.
E não há desculpas para o que faço.
 
 

Revista Acrobata nº 5

 
 
Caminhando contra a intolerância contemporânea e a depressão nacional, a revista Acrobata levanta sua bandeira do afeto e da arte e segue adiante. Lamentamos por não termos lançado a edição de nº 5 ainda no ano de 2015, mas celebramos imensamente o sucesso da edição de nº 4, lançada ainda no primeiro semestre. Nesse momento, estamos com os 4 números esgotados e um dos poucos lugares que os leitores ainda podem encontrar exemplares das 4 edições é na livraria Entrelivros. De todo modo, todas as edições estão disponíveis em nossa página do ISSUU.
 
A Acrobata nº 5 está finalizada e será lançada no decorrer do mês de janeiro. Então, antes que o ano acabe, vamos apresentar para os leitores quem são os autores(as) que estão na edição. 
 
O primeiro destaque fica por conta do artista plástico e grafiteiro piauiense Hudson Melo, que ilustra toda a edição.
 
A nossa entrevista é com a atriz e produtora Helena Ignez. A história da Helena é marcada pelo trânsito nos mais importantes movi¬mentos cinematográficos brasileiros dos anos 60 e 70. Foi no Cinema Novo que conheceu e trabalhou com Glauber Rocha (com quem foi casada) em O Pátio (1959), entre outras obras fundamentais como Assalto ao Trem Pagador (1962), de Roberto Farias, e O Padre e a Moça (1965), de Joaquim Pedro de Andrade. Mas podemos dizer que sua aproximação com o diretor Rogério Sganzerla (com quem também foi casada) gerou seus filmes mais intensos, política e esteticamente, seja em O Bandido da Luz Vermel¬ha (1968), A Mulher de Todos (1969), Copacabana Mon Amour (1970), Sem Essa Aranha (1970), entre outras parcerias de forte impacto para o cinema nacional.
 

Na sessão de artigos de literatura, temos: o trabalho do pernambucano José Juva sobre a poesia xamânica do poeta Roberto Piva; o paraibano Paulo Vasconcelos discutindo a literatura contemporânea fora do grande eixo RJ-SP; uma turma de São Paulo capitaneada pelo Daniel Scandurra falando o projeto de digitalização e disponibilização da revista Código, editada originalmente entre os anos de 1974 e 1990; e um perfil biográfico da poeta portuguesa Violante do Céu, que viveu no século XVII, escrito pela pesquisadora piauiense Socorro Fernandes.
 
Na sessão de artigos de cinema, algumas discussões fundamentais: um texto do pesquisador José Luís Silva, sobre o filme piauiense Cipriano, do diretor Douglas Machado; e o belíssimo artigo escrito pela Natasha Karenina sobre o filme Os Incompreendidos, um clássico do diretor François Truffaut.
 
Ainda temos um artigo escrito pela americana Monique Ortiz (Lancaster / Austin) falando de sua trajetória na música. Ela é Vocalista, baixista e compositora da banda Alien Knife Fight, também trabalhou no projeto sonoro A.K.A.C.O.D, em colaboração com o saxofonista Dana Colley (Morphine) e com o baterista Larry Dersch. Atualmente, ela é uma referência no Gothic Blues e Post-Punk contemporâneo.
 
A escalação dos poetas é ampla e variada: Laís Romero (PI); Daniel Scandurra (SP); André Vallias (RJ); André Monteiro (MG); Joãozinho Gomes (PA/AP); André Ricardo Aguiar (PB); Tarso de Melo (SP); Rosa Laura (SP); Lia Testa (PR/TO). Além do poeta português Luís Filipe Marinheiro e do poeta argentino Fernando Noy, traduzido pelo Wanderson Lima (PI). 
 
Para fechar a edição temos ainda um conto do Sidney Rocha (CE/PE); a sessão processo de criação é com o produtor Eduardo Crispim (PI). Ele fala da série de vídeos S3TART e dos 6 episódios em que ele acompanha e entrevista artistas plásticos que espalham sua arte pelas ruas de algumas cidades do nordeste; e pra encerrar, um quadrinho que tem o roteiro escrito pelo Aristides Oliveira, que é um dos editores da revista, e o desenho do quadrinista Joniel Santos.
 
Agora é aguardar um pouco que logo logo a Acrobata n 5 estará circulando. Em breve iremos divulgar as datas e locais dos primeiros lançamentos. 

Dalila Teles Veras - Poemas

 
Dalila (Isabel Agrela) Teles Veras, natural do Funchal, Ilha da Madeira, Portugal, (1946), emigrou com a família para o Brasil (São Paulo, Capital), em 1957. Em 1972, após seu casamento com o advogado e escritor Valdecirio Teles Veras, radicou-se em Santo André.
 
 
Publicou mais de uma dezena de livros, nos gêneros poesia, crônica e o livro "Minudências", um diário do ano de 1999. Participou de inúmeras antologias no país e no exterior. Possui trabalhos (artigos, ensaios e textos literários) publicados em jornais e revistas de todo o país e do exterior. Atua à frente da livraria, editora e espaço cultural Alpharrabio. 
 
 
Entre os vários livros publicados estão: Lições de Tempo (1982); Inventário Precoce (1983); Madeira: do Vinho à Saudade (1989); Elemento em Fúria (1989); Forasteiros Registros Nordestinos (1991); Poética das Circunstâncias (1996); A Palavraparte (1996); A Vida Crônica (1999); As Artes do Ofício - um olhar sobre o ABC (2000); Minudências (diário) (2000); À Janela dos dias - poesia quase toda (2002); Vestígios (2003); Poesia do Intervalo (2005); Solilóquios (2005); Pecados (2006); Retratos Falhados (2008); Solidões da Memória (20150).
 
 
Os poemas aqui publicados são do seu último livro “Solidões da Memória”, lançado ainda no mês de dezembro.
 
 
Para saber mais sobre a poeta é só acessar 
 
 
RIZOMA
 
vestígios de pegadas nas areias
restos d’ossos roídos e d’espinhas
António Barahona
 
a infância e a memória 
da infância, submersa
na líquida travessia
 
vez por outra
o atlântico deposita
ossos datados
nas terras do exílio
 
(a menina antiga
recebe os sinais
códigos esquecidos
legendas para o lembrar
– revivências)
 
a memória da infância
é a memória possível
(e só a memória cabe recriar)
 
 
 
CARTOGRAFIA SOLETRADA
 
quietos fazemos as grandes viagens
José Tolentino Mendonça
 
o tio
 
(marinheiro, remetia
cartões postais
dos portos por onde
atracava seu navio
 
ulisses consanguíneo
sempre voltava para
contar, no seu
contar/inventar
reinventava-se
ficcionava-se)
 
soletrava cartografia
no imaginário da
destinatária
 
 
 
PASSAGEM
 
porque não sou desta ilha, cresceram-se
as assas que me afastam e desesperam
José Viale Moutinho
 
ansiado
o fogo de dezembro
coroava de assombros os
corpos bordados por urtigas
as pernas grossas de ladeiras
os olhos da mesma paisagem
(o fogo, artifício
intermitência do existir)
 
ano findo, meia noite
em ponto, os apitos dos vapores
invadiam terraços e janelas
nos parapeitos, iluminados
estremeciam-se
corpos e ilha
 
o mar, vagas ocultas
acendia-se
em esplendor
em fogo, os olhos
virgens de incêndios
armazenavam centelhas
(reserva e antídoto à monotonia
do novo e igual calendário)
alvoroço
para o poema vindouro

Entrevista com o Editor Eduardo Lacerda/ Ed Patuá

 
No primeiro semestre de 2014 fiz uma pesquisa sobre o cenário das editoras independentes para escrever um artigo que foi publicado na revista Acrobata nº 3, “Janela Aberta Para Novas Paisagens: o papel das editoras independentes no cenário literário contemporâneo”. Esse texto também foi apresentado no II Encontro Nacional de Crítica Genética e Arquivologia, que aconteceu na Universidade Estadual do Piauí. 
 
Para ajudar na escrita, fiz um roteiro com 5 perguntas e enviei para alguns editores e recebi resposta de 4 deles: Eduardo Lacerda/ Patuá (SP), Bruno azevedo/ Pitomba (MA), Rodrigo Acioli Peixoto/ Livrinho de papel Finíssimo (PE) e Lúcia Rosa/ Dulcineia Catadora (SP). A intenção era colher direto na fonte as impressões e experiências desses editores que atuando no cenário independente. Além de poder compreender melhor algumas especificidades desse universo.
 
Enfim, o texto ficou pronto, publicado e apresentado. Mas as entrevistas foram engavetadas. Agora, com o blog Janelas em Rotação, resolvi publicá-las. E inclusive, vou ampliar essa série de entrevistas, com mais editores e escritores.
 
Para iniciar essa série de entrevistas resolvi começar com o escritor e editor Eduardo Lacerda da Editora Patuá. Essa, que hoje é uma das principais do cenário independente, com um catálogo que ultrapassa os 300 títulos e alguns prêmios literários ganhos ao longo dos últimos anos. 
 
conheça os livros da Patuá - catálogo da editora 
 
Quais seus caminhos para produzir e fazer seus livros circularem? 
 

Eu entendo a edição como um projeto de vida, como um projeto artístico. Apesar de ter alguns poemas escritos e um livro publicado, eu muitas vezes repito que não sou um poeta. Não sou um poeta porque para se dizer poeta é preciso ser visceral, é preciso se entregar completamente para o ato de escrever poesia. O Piva disse, e eu concordo: “Só acredito em poeta experimental que tenha vida experimental”. Eu acredito que sou um editor porque na edição eu me entreguei completamente e porque na edição eu tenho vida experimental.
Eu precisei iniciar dizendo isso porque o ato de editar, de tornar público um livro, que passa também por processos muito técnicos, por processos burocráticos e também comerciais, esse ato para mim é artístico. Então produzir e fazer o livro circular, para mim, está relacionado com cuidar de maneira artesanal de processos que são industriais. E é, principalmente, acreditar nos escritores que eu publico e fazer o possível para que eles acreditem em mim. 
 
Nós não vamos concorrer, nem é isso o que eu quero, com as grandes editoras comerciais, também não quero concorrer com editoras que produzem livros sob demanda, cobrando dos escritores (e muitas vezes sem nenhuma qualidade), muito menos com outras editoras pequenas e independentes, que contribuem imensamente para a diversidade de títulos e de ideias circulando. A palavra concorrer não existe, não pode existir, me angustia. 
 
Preciso acreditar que podemos fazer algo diferente da lógica corrente.
 
Agora, uma resposta mais prática sobre o processo e custos (de gráfica, mas também humanos, com ilustradores, artistas) criar livros de qualidade tem quase o mesmo custo final do que fazer um livro de qualidade inferior. Não entendo, nunca consegui entender, a opção pelo pior, se a diferença é muito pequena, quase irrisória. Portanto, tenho escolhido sempre pelo melhor, mesmo que isso aumente um pouco o custo. E isso ajuda demais na visibilidade de nossos livros.
 
Como chega até os autores, ou são eles que chegam até você? 
 
Tenho sorte de poder escolher quem e o que quero publicar. A Patuá está em um momento muito bom, pelo menos editorialmente (financeiramente ainda temos muitos problemas), de atrair cada vez mais escritores. O que ainda me motiva é descobrir um jovem autor, mas temos atraído escritores já experientes também. Essa troca entre a vitalidade de alguém que está estreando (vitalidade, mas também ansiedade, uma energia positiva e uma negativa) e autores experientes e um pouco reconhecidos tem sido importantíssima para a editora. Há sempre o que aprender e trocar.
 
Como já temos algum reconhecimento (que é sempre virtual, que deixa de existir se o trabalho cessar), hoje em dia os autores é que nos procuram, embora eu esteja sempre atento ao que acontece na literatura. Eu tanto frequento saraus, eventos, lançamentos quanto leio tudo o que posso pela internet.
 
Eu afirmo que quero uma editora, uma experiência editorial, que passe pela experiência poética, então tento sempre estar em contato com os escritores e acho que isso os motiva e incentiva na escolha da Patuá como editora.
 
Quais suas estratégias para conseguir vender os livros? Você utiliza algum meio específico, quais suas experiências nesse campo?
 
Infelizmente, vender livros é um trabalho quase impossível. A maior parte dos autores (embora não todos) estão centrados apenas em si mesmos. Querem apenas publicar, mas não querem ler. O público para livros de literatura, principalmente poesia, sempre foi muito pequeno. Eu cito sempre o trecho do livro Arte de amar, do Ovídio, ele diz que o próprio Homero não deveria levar poemas, pois a poesia não seria mais (há dois mil anos) uma honraria. 
 

A experiência da poesia, no Brasil, nunca foi uma experiência de massas (tivemos algumas experiências mais populares, o que é diferente de experiências coletivas, no âmbito da criação ou de massas, no âmbito comercial). Não adianta usar o Leminski como parâmetro de vendas de poesia. 
 
Então, para mim, gosto de pensar o seguinte “a questão não é mais se poesia vende, mas se poesia se compra”. Você, escritor, é um leitor? Você vivencia a experiência de ler outros poetas e ainda contribui para que o sistema possa se manter independente?
 
Recebo mais propostas de autores querendo pagar pela publicação de seu próprio livro do que propostas de autores querendo a edição gratuita, mas comprometidos em usar (um pouco, muito pouco), do dinheiro economizado para conhecer o trabalho de outros poetas. 
Tenho me preocupado cada vez menos com as vendas, eu tenho conseguido manter meu negócio através do modelo que criei, que é bem enxuto, com poucos gastos exteriores ao da própria obra e apostando em bons livros mais do que em boas vendas. 
 
Um bom livro pode vender pouco no início, mas se o autor estiver comprometido com sua literatura seu livro venderá por muito tempo, mesmo que pouco, mas por muito tempo.
 
Qual a sua relação ( editor/editora) com as redes sociais e as diversas possibilidades do mundo virtual? Você explora de que forma esse campo?
 
A internet é apenas um meio, uma plataforma, para o encontro com pessoas reais. Passo boa parte do meu dia nas redes sociais, mas quero que elas sejam um meio para encontros reais, para leituras, lançamentos, conversas. Tento explorar a internet dessa forma, para encontrar coisas reais na vida. Essas relações podem se manter virtuais por algum tempo, mas um dia isso eclode em um encontro, em uma conversa, em uma ideia. Deixam de ser virtuais e passam a ser reais.
 
Na sua opinião, qual o papel das pequenas editoras e o que elas trazem de novidade para o cenário literário contemporâneo?
 
Acredito que as pequenas editoras cumprem seu papel na resistência contra a massificação da literatura, que tenta transformá-la em produto de consumo em um mundo que desumaniza, cada vez mais, as relações. Incluindo as relações literárias. 
 
Mas, se as pequenas editoras não se preocuparem também com o leitor, com sua formação e encontro, então acho que não trazem nenhuma novidade, pois estaremos sempre nos focando somente na produção, que é cada vez alucinante e, diga-se a verdade, muitas vezes com pouca relação com a criatividade de um artista, mas com a necessidade e ego dos ‘escritores’.
 
O equilíbrio ideal que devemos buscar é o do diálogo entre nossa proposta editorial, os escritores que decidimos publicar – e que sejam escritores por necessidade criativa -, e o leitor, que poderá refletir e também fruir / fluir essa produção. 
Devemos ampliar essa noção de editora pequena. 
 
Na sua concepção, o que significa ser independente independente no circuito editorial contemporâneo? 
 
Por muito tempo pensei que ser independente, obviamente, era não depender de nada ou de ninguém, mas hoje penso que a independência passa por ser dependente, mas não do mercado, do dinheiro, mas daquilo a que nos propomos a fazer. Sou dependente da minha proposta editorial, não posso fazer concessões e preciso ser coerente com o que eu acredito. 
 
Também acredito que para ser independente é necessário ser dependente, em certa medida, daquelas pessoas que acreditam em nosso trabalho. Sou dependente, de alguma forma, da Acrobata, por exemplo, sou dependente dos meus autores, em respeito ao que eles me trazem eu não posso considerá-los descartáveis ou substituíveis, sou dependente dos nossos leitores. 
 
Não acredito em atividades isoladas, então eu mudei meus conceitos sobre o que significa ser independente. Sou dependente, mas não da maneira convencional, de estar dependendo do ‘mercado’ para realizar projetos nos quais acredito, minha dependência é do humano.
 

O Barulho e o Silêncio de Demetrios Galvão

"... é possível esticar o mundo"
 
Texto: Nathan Matos* 
 
 
O livro de Demetrios Galvão, Bifurcações (Editora Patuá), carrega por seus caminhos, e com suas criaturas encantadas, a força que muitos livros de poesia brasileira não conseguem criar em um poema sequer.
 
Bifurcações se destaca entre os demais livros de poesia brasileira contemporânea por possuir uma linguagem mais do que imagética. Com construções que nos levam a visualizar quadros quase surreais, é possível observar que cada poema foi composto de maneira detalhada e pensada; em certos momentos, lendo os poemas de Galvão, é possível lembrar de algumas telas do pintor holandês Bosch, que com criaturas amórficas ou sem coerência, e que aparentemente não dialogam entre si, criam um panorama maravilhoso e cheio de vida.
 
 
Assim são os poemas de Bifurcações. Em uma primeira leitura, se o leitor não se fizer atento terá a percepção de que os versos de Galvão são apenas como uma colagem, que de início podem não fazer o menor sentido. Contudo, os poemas vivos de Bifurcações parecem carregar a profundidade e, ao mesmo tempo, certa leveza no que o poeta pretende dizer, transpassando aquele que já é uma própria bifurcação viva: o ser humano.
 
Fica evidente que a linguagem utilizada no livro desafia o leitor, seja aquele que não tem tanta afeição pela poesia ou aquele que diariamente lê e escreve poesia. Os poemas de Demetrios desejam nos fazer vivos, pois diante das dúvidas da vida acabamos nos perdendo diante de nossas escolhas, seus poemas querem nos atravessar, fazendo-nos senti-los como se construíssem um diálogo singular a partir de cada “capítulo” do livro. Talvez seja justamente isso.
 
Foi difícil estabelecer um ponto de contato, um ponto que nos possibilitasse chegar a uma origem, com a obra, a partir das leituras que realizei. Dividido em quatro partes singulares– céu de porcelana; para uma criatura encantada; cosmologia invertebrada; ecos de uma luz distante –, mas que ainda assim, por um momento, se tocam sem se repetir, como numa espiral que desce dos céus até os nossos olhos, o livro vai criando alicerces potentes, não deixando o leitor naufragar em possíveis versos difíceis de acompanhar, como é possível encontrar, principalmente, na terceira parte, intitulada cosmologia invertebrada.
 
iv
 Engolir o anzol-espinha
:
o gafanhoto devora  o estômago de
deus
e
rumina tinta podre
nos lábios petrificados
.
 
Diante dessa incompreensão, que fingimos não entender, tentar buscar imaginar, dentro da obra de Demetrios Galvão, quem são as suas criaturas encantadas, onde estão os demônios das rochas ou querer compreender por qual razão o carteiro entregou infâncias na casa do poeta é não saber ler os seus poemas, mais do que isso, é não saber senti-los.
Assim, lendo os poemas, as bifurcações me fizeram perceber que o silêncio e o barulho podem ser criados a partir, também, do gozo, pois como bem diz o poema:
 
o barulho do menino assis é
o silêncio que vazou da barriga da mãe
 
Como se de um “ponto zero” de nossa existência estes fossem os nossos denominadores comuns. Partindo de um silêncio não ouvido pelo exterior da barriga da mãe, parte também de um barulho monumental para quem ainda não enxerga a possível realidade, preso ainda a um cordão umbilical.
Dessa maneira, nascer é bifurcar-se desde sempre. O poeta nos avisa ao som de the doors que:
Bifurcar-se é inventar
Um outro, outros…
 
É como se a partir de nossa experiência vivida pudéssemos, enfim, encontrar um único caminho, quando na realidade nada disso é possível, pois somos vários, mesmo que a psicologia busque afirmar uma unidade em cada um de nós. Diante disso, o que pode nos salvar é o poema, a poesia, é possível assim esticar o mundo para que possamos acreditar em nossos vários:
 
 
ainda é possível esticar o mundo com a palavra poética
 
se aliando ao balé das arrais
aos porteiros que abrem os caminhos do mundo
às armas de misericórdia dos infames
aos livreiros da diáspora
às mercearias que sediam confrarias fugazes
aos tuaregues mensageiros dos ventos-suburbanos
aos engenhos e cachaças mágicas
aos taxistas sobrenaturais que detêm a arte dos atalhos
ao cinema do oriente abandonado
às musas que habitam os labirintos da memória
aos andaimes dos cemitérios da carne
aos carteiros que espalham pontes silenciosas
às chuvas que inventam estradas aquáticas
aos jardineiros que curam e fazem partos nos canteiros
aos gatos que amaciam os recantos da cidade
aos pintores alados que enfeitam os muros
aos bem-te-vis arquitetos do assovio
às crianças que dominam gramáticas horizontais
 
… é possível esticar o mundo
 
 
Pois talvez assim seja possível esticarmos a nós e ficarmos mais flexíveis às tentações, aos pecados, ao mundo.
 
E as bifurcações que encontramos em nós se fazem presentes nos próprios poemas, como cada interpretação fosse uma nova vereda criada. A poesia de Galvão é alvo dela própria. Exemplo disso, provavelmente, é o poema vivo, que é quase um metapoema, que fala de si como se fosse outro:
 
tenho um poema vivo
que me tira o sono
e me faz demasiado humano
[…]
 
Foi por isso que naufraguei frente à escrita de canhoneiro de Demetrios Galvão. Foi por isso que me impossibilitei na tentativa de não morrer na beira da praia, tentando buscar de onde eu havia partido, como se quisesse saber de qual bifurcação primeira eu havia me iniciado. Quem sabe a nossa origem, nossa primeira bifurcação seja essa: o barulho e o silêncio.
 
 
*Nathan Matos - Editor e criador do LiteraturaBr. É também editor da Revista e da Editora Substânsia. A literatura o salvou na adolescência, quinze anos depois ele ainda persiste no sonho.
 
# Texto publicado originalmente no site LiteraturaBR em 02/09/2015

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