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Paul Auster - 3 Poemas

Paul Auster nascieu em 1947 em Newark, Nova Jersey, Estados Unidos, e estudou literatura francesa, inglesa e italiana na Columbia University, em Nova York. Viveu em Paris de 1971 a 1975. De volta a Nova York, em 1980 mudou-se para o bairro do Brooklyn, onde vive e trabalha até hoje. Poeta, tradutor, crítico de cinema e literatura, romancista e roteirista de cinema, publicou ensaios, memórias, poesia e ficção.

Os poemas que seguem, são do livro “Todos os Poemas”, com tradução de Caetano W. Galindo e publicado pela Companhia das Letras,

 

Autobiografia do olho

 

Coisas invisíveis, enraizadas no frio,

e crescendo para esta luz

que some

em cada coisa

que ilumina. Nada termina. A hora

retorna ao começo

da hora em que respiramos: como se

nada houvesse. como se eu pudesse ver

nada

que não seja o que é.

 

No limite do verão

e seu calor: céu azul, morro púrpura.

A distância que sobrevive.

Uma casa, erguida em ar, e o fluxo

do ar no ar.

 

Como estas pedras

que redesmoronam na terra.

Como o som da minha voz

em tua boca.

 

 

Braile

 

Legibilidade da terra. o couro

claro do osso,

e a guinada de nuvens pluma-e-bem-estar

num ar vitimado – não mais

por ler

 

“Quando parares nesta estrada,

a estrada, dali em diante,

desaparecerá.”

 

E soubeste, então,

que havia dois de nós: soubeste

que de toda esta carne do ar, eu

encontrara o lugar

onde uma palavra

crescia selvagem.

 

Nove meses mais negra, minha boca perfura

as luminosas trilhas

que cruzam as tuas. Nove vidas

mais fundo, o grito ainda é

o mesmo.

 

 

Obituário do tempo presente

 

Para ele é tudo a mesma coisa –

onde começa

 

e onde acaba. Clara de ovo, seu olho

claro: diz

leite de ave, esperma

 

escorrendo da palavra

dele mesmo. Pois o olho

é evanescente,

agarra-se só ao que é, não mais aqui

 

ou menos aqui, mas em toda parte, em todas

 

as coisas. Ele nada

memoriza. Nem anota

 

coisa alguma. Se abstém

do coração

 

das coisas vivas. Ele espera.

 

E se começa, acabará,

como se o olho tivesse aberto no bico

 

de um pássaro, como se jamais tivesse começado

a ser em parte alguma. Ele fala

 

de distâncias

não menores do que estas.

Nina Rizzi - Poemas

 

Nina Rizzi (SP, 1983), historiadora, tradutora e poeta, vive atualmente em Fortaleza/ CE. Tem poemas, textos e traduções publicados em diversas revistas, jornais, suplementos e antologias. Autora de tambores pra n’zinga (poesia, Ed. Multifoco, 2012), caderno-goiabada (prosa-ensaística, Edições Ellenismos, 2013), Susana Thénon: Habitante do Nada (tradução, Edições Ellenismos, 2013), A Duração do Deserto (poesia, Ed. Patuá, 2014), Romério Rômulo: ¡Ah, si yo fuera Maradona! (versão em espanhol, Ed. Dubolsinho) e geografia dos ossos (poesia, Ed. Douda Correria/ Portugal). Publicará em 2017 um novo livro de poesia e dois de tradução; coedita a escamandro – poesia tradução crítica [https://escamandro.wordpress.com/], e escreve seus textos literários no quandos [http://ninaarizzi.blogspot.com].

 

 

ceciliana

 

escorre o óleo do mundo - lima

de rícino, reino

 

mínima grama ou toda

canteiro, fecundo

 

a poesia é de quem

precisa, disse o carteiro

 

lhe ria, além a lama

ternas de exílio e poda

 

te revisito, o mundo - olha

 

entre as pernas.

 

 

crepúsculo sobre o rio acaraú

 

há em meus olhos uma beleza tão triste:

tamanho o estio, até os carnaubais estão

assim, feito meu peito

 

árido, ardido.

 

(do livro: tambores pra n’zinga)

 

 

pastoral da ribeira

 

uma casinha incendiada surge no prédio ao lado

o  rio cobre as vigas e pedras e cimento e pó

sob o rio se eriçam casas-lama os homens prontos e um emprego

trilhos e pregos e gente balouçam na casinha incendiada ao lado

 

afunda os pés de brincar co’ ua nanã que ri o ferro que afunda largo

um afogamento pronto pra uma cidade que nasce com seus homens fortes

na peneira a colher demora a massa e mofa e demora a massa

o fogão de barro submerso no lugar que nasce

 

acena um oi para a gente que vem incendiada

arde o fogo e a água a pedra e ferro da gente que vem

 

olha pra a direita         mais adiante

folhas de palmeira pra palhoça um pouquinho de amianto

entulho e câncer e as cabritinhas tão bonitinhas ó as galinhas

cisca cisca cisca

 

ôôôôôôôôôôô

camisas numeradas regatas largas e de manguinhas

 

uma cidade emerge submersa

uma ponte metálica de madeira uma ponte

escaiada caiada com luzinhas pra piscar e muda muda

olha a novacor de dez em dez segundos

 

um conjunto habitacional popular há quase cem quilômetros

da gente que levanta e nasce uma cidade submersa

sete prediozinhos de três andares pra amontoar a gente

saída de uma favela onde se gritar um estádio de futebol

 

ôôôôôôôôôôô

 

uma cidade surge submersa no prédio ao lado

é tanta gente é tanta gente e tudo que sente e faz a gente

 

incendeia, amor

 

incendeia

 

(do livro: geografia dos ossos)

 

 

Carlos Orfeu - Poemas

 

Carlos Orfeu: Nasceu em Queimados. É devoto das artes, sobretudo, da literatura e  poesia. Publica em blogs pessoais, revistas e blogs literários. O poeta lançará, em breve,o  seu livro Invisíveis Cotidianos pela editora Literacidade.

 

***

sede é como um rugido de rio

encontrando a margem da garganta

 

sede é peixe uterino

no oceano do corpo

 

visto por fora

despido no espelho

visível deserto de assombros 

 

sede é a possibilidade de romper

o naufrágio e adejar na superfície

 

 

***

debaixo

da pia

um par

de mágoas

envelhecem

 

ratos visitam

a caligrafia das estradas

grafadas na lamúria das solas

 

no

ato

da

fome

 

como se fossem restos

de estômagos nos pratos

roem cada parte sentimental do couro

 

devoram

o tempo

e os endereços

sem o esteio do retorno

da classe social 

de

ordinárias

botas

tristes

 

 

***

rubra árvore

no parque público

acena suas mãos sinuosas

aos navios de brisa

 

dispersa folhas como aves

na epiderme do ar

 

plácidas

ásperas

como cadáveres

em

tons

de

outono

 

 

***

o crepúsculo anfíbio 

salta para trás da poeira de barro

 

na embaçada paisagem

de ruínas

rosários de gengivas

luzem ósseas para mãos

exasperadas

 

perambulam

nos entulhos

pertences

significantes

o nada é tudo

que finda  

 

o repórter documenta

a travessia de bicicletas agonizadas

um vira-lata/ enlutado

andarilho da magreza

passeia/ entre os corpos

carbonizados

 

sussurros  serpenteiam até o céu

 

 

***

no focinho do fuzil

a paz mutilada

 

nas vielas

o incêndio dos sangues

a chacina dos sóis

 

o medo é o traje de cada manhã

mais escura que à noite

 

fuzilam

a cor negra dos corpos

sua honra

concede pétalas de lágrimas

em revoada

 

sobre o asfalto

o declínio no beijo da mãe

com o fel de grito na articulação das juntas do pai

ajoelha cruzes no rosto do filho

 

a tragédia solta seus cães

coturnos famintos

desfilam sua pérfida fúria

latem algoz a covardia

 

o repórter cumpre a ordem do sistema

oculta

da lente

a morte

silenciosa

 

coletando ossos

o riso canta

na residência de lábios

que sonham amanhecer

 

 

Jeanne Callegari - Poemas

 

Jeanne Callegari é poeta. Nasceu em Uberaba, MG, em 1981, e escreveu o livro Caio Fernando Abreu: Inventário de um Escritor Irremediável (Seoman, 2008), biografia do autor gaúcho. Tem poemas publicados em revistas como Raimundo, Modo de Usar, Confeitaria, Parênteses e Escamandro. Jeanne faz parte do grupo de autores que criou o projeto Escritores na Estrada, que vai passar por várias cidades brasileiras com oficinas, bate-papos e leituras. Miolos Frescos (Patuá, 2015) é seu primeiro livro de poemas.

 

perda


esses dias perdi uma memória
soltou da bagagem no dia da mudança
por sorte ficaram outros pacotes 
de segundos gastos
um dia organizo um álbum
bonito, pra guardar lembranças
com legendas espirituosas
na mais perfeita ordem

 

 

para bashô

em silêncio, o pulgão destrói a flor.
ele é a natureza, tanto quanto ela.
o giz que desenhou a lua também fez
as bestas e os corvos
bashô, é preciso abraçar o escuro

 

 

o gato

pode ser insensato
e um tanto quanto leviano
dizer que meu gato
é, dentre tantos,
o mais belo

ele, que mia quando apertado
e é menor que os outros
de sua espécie.

mas o tejo não é mais
belo que o rio que corre
na minha aldeia
assim como os gatos
de concurso
- com seus pêlos
compridos e caras
amassadas -
não são mais formosos
que meu bichano
de olhos amarelos
sem raça definida

não é um siamês
persa abissínio
que se enrola – listrado -
em minha barriga
nem um angorá ou ragdoll
que brinca de esconder
em meus vestidos

meu gato é mais sagrado
que todos os da birmânia.
mesmo quando arranca
sangue de minha pele
(quem mandou não aparar suas garras?)

pode ser que esses gatos
tenham seu charme
- e também não comam se a tigela está pela metade

talvez sejam educados
e não tenham por passatempo derrubar sapatos
livros controles remotos

mas eles não são o meu gato
: eu não sou a pessoa deles
então prefiro
as listras do meu gato
que resmunga quando apertado
e é menor que os outros de sua espécie

 

 

Allan Jonnes - Poemas

 

Allan Jonnes é um poeta e performer brasileiro, nascido na cidade de Lagarto, Sergipe, em 1990. Venceu em maio de 2013 o ZAP Slam edição especial com poetas do Brasil, onde foi convidado a participar do projeto “Autores em cena”, que aconteceu dentro da Balada Literária (SP), sendo dirigido pelo grupo Bartolomeu de Depoimentos em performance de récita eletrônica. Publicou o livreto Pequeno Volume em 2016.

 

Studio Tear #4 - Filho de Macumbeiro - Allan Jonnes

 

O PROBLEMA DA CABEÇA

 

O problema da cabeça do homem

É a ausência de um furo na traseira,

para a evacuação.

Por isso a cabeça é a campeã nas doenças.

Há um desequilíbrio claro por exemplo

se ocorrem dez tomates em um pé: apenas um estará mau

é uma hipótese admissível

no entanto dois em cada três acontecimentos na vida estarão estragados

é uma regra

daí o desequilíbrio

o órgão de suportar o tomate tem a saída

o órgão de suportar a trajetória não tem a saída

Por isso a cabeça é a campeã nas doenças.

Uma questão de arquitetura.

 

 

ELUCIDAÇÃO À CERCA DE TEREZA

 

Terça-feira morreu o Padre Agnaldo

responsável pela criação

 

de 42 crianças devolvidas

no orfanato municipal

 

e o rádio-âncora da manhã

em cerimônia a ele falou aos expectadores:

 

ouçam agora são sete horas e quinze minutos

aqui na sua 103.2 MHz

 

há pessoas que partem

e ficamos aqui sentindo saudade

 

isso poderemos resolver

a partir da oitava semana

 

no entanto há pessoas que partem

e ficamos aqui sentindo falta

 

isso não poderemos resolver nunca mais.

Foi o que disse aquele filho da puta

 

E elucidou o que é que eu tenho por Tereza.

 

 

O MUNDO É AUTO-EXPLICATIVO

 

O mundo é auto-explicativo

numa manhã de Terça-feira

 

em que surge operacional

no canteiro da praça

 

o seu ex-amigo do colégio

de armadura completa para o combate

 

na arriscadíssima função

de guarda municipal.

 

Todo o sonho de pilotar navios pelo mundo ou

ser goleiro da seleção nacional de handball

 

Adiados pela criação de um casal de filhos,

fardamento azul-marinho, óculos ovais

 

o seu ex-amigo do colégio

está apto para a guerra

 

na pracinha da alfândega

 

verificando um adolescente suspeito

de desenhar caralhinhos de asa

 

nas bochechas do patrimônio

número 4832/descrição: Busto à bravura

Do Exc° Gen. Manuel Priciliano de Oliveira Valadão

 

 

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