Cidadeverde.com

De coração novo, Fabieldo Torres volta a treinar judocas do Piauí em seletiva nacional

Foto: Fernando Alves/CBJ

Ao lado do tatame, o monitor apontava 70 batimentos cardíacos por minuto. Tranquilo demais para quem voltava a sentir a emoção de fazer o que mais ama - e oito meses depois de nascer de novo. 

No dia 6 de março de 2019, uma Quarta-feira de Cinzas, Fabieldo Torres recebeu um novo coração. Nesta sexta-feira (8), ainda com uma máscara que o protege de infecções, ele voltou a treinar a seleção piauiense de judô na Seletiva Nacional Sub-21, em Fortaleza (CE). 

Foi na capital cearense que Fabieldo, hoje com 39 anos, foi submetido ao transplante. Vice-campeão brasileiro como atleta, ele descobriu, no ano passado, que uma gripe adquirida em 2015 provocou uma cardiopatia. 

Em julho de 2018, já ciente do problema cardíaco, Fabieldo Torres veio até a TV Cidade Verde para conceder uma entrevista. Estacionou o carro e subiu a ladeira caminhando até a porta da emissora.

- Quando eu cheguei na porta da emissora, eu senti um cansaço enorme. (...) Eu fiquei tão triste com isso, porque isso estava começando a me impedir de fazer minhas coisas normais. 

No dia seguinte, Fabieldo procurou um médico, que o recomendou a buscar o transplante cardíaco. Ainda em agosto do ano passado, o educador físico se mudou para a capital cearnese com a esposa, Sheylla Patrícia, com quem é casado há 5 anos. 

Reprodução/Instagram

- Eu disse: doutor, se for para fazer amanhã, eu faço. Eu prefiro fazer um transplante e passar por um risco de morte do que sentir isso de novo. Eu não vou deixar de fazer o que eu amo, que é o judô. 

Coração testado em jogo do Flamengo
O transplante foi um sucesso. Prova disso foi o primeiro "teste" feito por Fabieldo Torres. No dia 23 de março, menos de um mês após a cirurgia, o educador físico buscou um lugar para ver o jogo do seu time do coração. E não foi qualquer jogo. 

Naquele dia, Flamengo e Fluminense jogaram pelas semifinais do Campeonato Carioca. O rubro-negro abriu o placar com o piauiense Renê. Yony Gonzalez empatou o jogo. E Everton Ribeiro, nos acréscimos, garantiu a vitória do Fla. 

Reprodução/Instagram

O flamenguista transplantado aguentou a emoção. E se havia alguma dúvida do sucesso da cirurgia, o próprio Fabieldo já estava mais tranquilo quanto a isso. Meses depois, ele foi ao estádio Castelão torcer por seu time contra o Ceará.

Homenagens do judô
Mas os testes emocionais não se resumiram a vibrar com o Flamengo. Em abril, no Campeonato Brasileiro Regional, o primeiro torneio da seleção piauiense sem Fabieldo Torres, professores levaram o nome do treinador no uniforme

Em outubro, no Grand Slam de Brasília (DF), foi a vez da Confederação Brasileira de Judô (CBJ) prestar sua homenagem. Depois de tomar conhecimento da história do judoca, o próprio presidente da entidade Sílvio Acácio Borges, enviou um áudio convidando Fabieldo Torres para acompanhar o torneio no camarote da entidade. 

Reprodução/Instagram

A liberação de Fabieldo para ir ao Grand Slam merece uma explicação especial. Foi a primeira vez que o educador físico deixou Fortaleza em meio ao longo processo de recuperação. Uma viagem como essa poderia ter sido vetada pelos médicos, mas recuperação impressionante do piauiense o ajudou - e o fato de ser atleta durante anos foi fundamental nesse sentido. Inclusive, seu transplante é objeto de estudo de médicos em Fortaleza (CE). 

De volta aos tatames e para casa
Fabieldo Torres tinha dois desejos após o transplante. O primeiro ele realizou neste fim de semana:

Foto: Fernando Alves/CBJ

- Não consigo encontrar as palavras para descrever a sensação que estou sentindo, de reencontrar alguns amigos e técnicos. Tem gente que ainda não sabe (do transplante) e diz: "Meu Deus, eu não acredito!". Eles falaram que sentiram minha falta. Eu me sinto realizado e me sinto amado. Eu tenho irmãos no judô, não só amigos, não. Eu tô igual pinto no lixo, estou no meu habitat natural. 

O outro desejo, o professor realizará nos próximos dias. Após a seletiva nacional em Fortaleza, Fabieldo Torres quer se despedir das praias cearenses e voltar para Teresina, onde a família e os atletas da Associação Judô Queiroz o esperam.

Retomar a rotina, isso sim, talvez seja a maior de todas as emoções pelas quais Fabieldo Torres poderá passar após o transplante. Mas o novo coração dará conta. 

Foto: Fernando Alves/CBJ