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Imbróglio de transmissão do Carioca pode afetar Estaduais. O Piauí que se cuide

Foto: Alexandre Vidal / Flamengo

Depois do Fla x Flu político, com apoiadores defendendo seus candidados como se eles fossem times de futebol, agora temos um Fla x Flu dos direitos de transmissão, com um discurso pirotécnico de que os clubes brasileiros agora estão "livres da Globo". Pensar assim é um tremendo engano - e se você ainda pensa dessa forma, leia atentamente o que explicarei a seguir. 

Para contextualizar: uma Medida Provisória foi assinada pelo presidente Jair Bolsonaro, após conversas com a diretoria do Flamengo. Ela coloca o mandante do jogo como único detentor dos direitos de transmissão. Com isso, na quarta-feira (1º), o Fla, que não tem contrato com a Globo, mostrou seu jogo com o Boavista no Youtube. Um marco histórico, de fato. Mas o que veio no dia seguinte terá impacto direto muito maior no futebol brasileiro. 

A Globo alega ter contrato de exclusividade do Campeonato Carioca, exceto com o Flamengo. Ou seja, ela não pode mostrar jogos do rubro-negro, mas ninguém poderia mostrar jogos do Boavista além dela, por exemplo. Alegando que isso não foi seguido, a emissora rompeu o contrato de transmissão do torneio estadual. E contrato é contrato.

Muitos torcedores comemoraram nas redes sociais com "estamos livres da Globo", como se ela fosse vilã, e não o dirigente que prendeu o clube a eternos direitos de transmissão ao pedir antecipação de pagamentos todos os anos. Os clubes estão mais presos a desmandos e erros de cartolas do que  legislação. 

Enquanto uns pensaram na ruptura como "alforria", a federação de futebol do Rio de Janeiro entendeu o recado. Pediu inclusive que os clubes com contrato com a Globo não mostrassem seus jogos no Youtube até nova avaliação jurídica.

O Vasco decidiu não seguir a FERJ e exibiu seu jogo no mesmo dia. E isso mostra como a federação perde força com a Medida Provisória. E sem contrato para os próximos anos, o Vasco não precisa mais da entidade para negociar direitos de transmissão. Nem ele, nem Flamengo, Fluminense, Botafogo, nem o Madurei... Opa, agora muita calma nessa hora. 

Clube grande, com torcida, tem poder para negociar seus jogos, atraindo veículos de comunicação e empresas anunciantes. Os times menores sobreviveram até agora com os contratos negociados com as federações - a maior prova disso foi a pressa pela retomada do Campeonato Carioca para receber as cotas de transmissão. 

Um exemplo prático: uma Amazon terá claro interesse em mostrar um Fla x Flu para seus assinantes. O jogo entre Flamengo e Cabofriense, também, mas talvez queira pagar menos por isso. Já Cabofriente e Madureira, o interesse pode ser mínimo ou até mesmo não existir. 

Ao romper contrato, a Globo não deu uma resposta ao Flamengo ou ao Palácio do Planalto. Ela avisou que não tem mais interesse nos estaduais. Isso parece sem volta, ao contrário da Medida Provisória, que ainda pode perder a validade. 

E não achem que, com o cenário atual, outra emissora vai querer pagar o mesmo que a Globo para ter todos os jogos de um campeonato estadual. Nada de comprar carne com osso. Só o filé interessa. 

Esse aviso chegou ao Nordeste. Paulo Carneiro, presidente do Vitória (BA), foi um dos primeiros a se manifestar nas redes sociais e defender uma Copa do Nordeste ampliada, com os estaduais sendo disputados por times sub-23. 

 

Guilherme Bellintani, presidente do Bahia, foi além: chamou os estaduais de "zumbis esportivos" e disse que clube grande do Brasil que quer ser global não conseguirá isso jogando estadual. Não é por acaso que o tricolor joga o Campeonato Baiano com um time alternativo. 

 

 

Comentei sobre isso no Acorda Piauí, nesta sexta-feira (3). 

Aqui, faço um adendo que não houve tempo para comentar na Rádio Cidade Verde. A Medida Provisória é temporária, o nome já diz. Precisará ser votada em plena pandemia, podendo até trancar a pauta. Mas está claro que, sendo mantida, ela interessa aos clubes de maior torcida do país - ainda que alguns possam propor alterações durante a tramitação no Congresso Nacional. 

Com o calendário apertado em razão da pandemia, os clubes de maior torcida poderão propor alterações para a temporada 2021. E o discurso está claro: estaduais não interessam a muitos deles. 

E com a Medida Provisória, os maiores clubes não precisam dos menores para negociar. Aos menores, restará se unir para conseguir um contrato razoável, que dificilmente será feito por grandes veículos de comunicação. São esses veículos que têm maior alcance e, com isso, atraem mais anunciantes.

As federações podem se tornar mero acessório nas negociações dos estaduais. Correm risco de perder receita. Mas são amparadas pela CBF, e devem cobrar que ela mantenha seus torneios com destaque no calendário nacional. Por outro lado, os clubes de maior torcida podem reforçar o pedido por mudanças radicais ou até o fim dos estaduais.

Nesse debate, campeonatos como o do Piauí são mero acessório. Se as propostas por mudança nos estaduais ganhar força, só restará aos menores seguir o que for determinado pela CBF. 

Nesse contexto, o Campeonato Piauiense ainda pode sair no lucro se virar extensão da Copa do Nordeste - uma fase preliminar do Nordestão, penso eu. 

Contudo, esse é um dos cenários possíveis. O que está em aberto é o debate sobre uma mudança radical ou até mesmo fim dos estaduais. Com tantas reviravoltas nas últimas semanas, em plena pandemia do novo coronavírus, o cenário pode ser outro na próxima semana.

Atualização - 13h40: No Cidade Verde Notícias, na tarde desta sexta-feira, voltamos ao tema com Nadja Rodrigues, Fenelon Rocha e Pablo Cavalcante: