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Um ano após desabafo na TV, judocas deixam o Rio Grande do Sul e voltam ao Piauí

  • vicente-de-volta-judo-4.jpg Vicente, ao centro, com os alunos Willian e David: coleção de medalhas conquistadas em um ano no Rio Grande do Sul
    Foto: Fábio Lima/Cidade Verde
  • vicente-de-volta-judo-3.jpg Foto: Fábio Lima/Cidade Verde
  • vicente-de-volta-judo-2.jpg Foto: Fábio Lima/Cidade Verde
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Quase um ano após o desabafo de despedida ao vivo na TV Cidade Verde, o professor de judô Vicente Ferreira Neto está de volta ao Piauí. Foram meses de aprendizado no Rio Grande do Sul ao lado dos alunos William Farias e David Silva, que conquistaram muitas medalhas em competições gaúchas. Mas usar "RS" nas costas do quimono não era a mesma coisa. 

Na última quinta-feira, o trio desembarcou em Teresina (PI). Ontem à noite eles já estavam treinando. A ideia é colocar de volta o "PI" nas costas, mesmo que esse Piauí dê as costas para o talento deles.  

Nas mãos e no peito, eles carregam medalhas, troféus e placas em reconhecimento pelos títulos conquistados. Um tapa na cara para o estado que eles deixaram reclamando de falta de apoio. E para onde agora querem voltar a treinar por amor. 

Vicente Ferreira vai voltar a treinar jovens no projeto Fábrica de Campeões, no Parque Piauí, zona Sul de Teresina. Retorna com sangue no olho para encarar as adversidades e garante: 

- Se a gente tiver de treinar no chão, como a gente treinou muitas vezes, a gente vai fazer. 

Foi com o professor que o blog bateu um papo na esportiva, para tentar entender o que o fez voltar ao Piauí. 


Na Esportiva - Vicente, faz mais ou menos um ano que você foi embora para onde a gente acredita haver melhor estrutura. E agora você decide voltar. Explica o que aconteceu. 
Vicente Ferreira - A gente passou um ano lá em treinamento. Eu procurei evoluir enquanto profissional, fiz uma pós-graduação. Estava trabalhando em uma das principais academias de lá, inclusive campeã gaúcha, a Associação Canoense de Judô. E os meninos estavam nesse tempo treinando, fazendo intercâmbio nos principais clubes da capital e do interior. A gente participou, a gente conheceu, a gente cresceu. Mas a gente é piauiense, a gente não é gaúcho. Uma coisa que me deixa chateado é você me chamar de gaúcho e não de piauiense. 

Vocês iam para as competições com o "RS" nas costas...
Iam com o "RS" nas costas, eram tratados como gaúchos, eram bem recebidos, mas a gente é piauiense. A gente representou quem nos acolheu, mas a gente é do Piauí. A gente conta com o apoio dos piauienses, com o apoio dos empresários... Do poder público eu não posso dizer que eu conto porque eu sei que eles não fazem nada. Eu estou no judô não é de hoje. Fui atleta, fui competidor, nunca fizeram nada por mim, nunca fizeram nada pelos meus amigos, e nunca vão fazer. Pode ser que alguém novo entre aí e faça alguma coisa, mas esses que estiveram no tempo que eu passei nunca fizeram nada. 

Eu lembro que conheci você na época do Campeonato Brasileiro Júnior de 2004, em Teresina. De lá para cá, essa falta de apoio continua.
Na época eu já estava iniciando o projeto Fábrica de Campeões, estava dando aula para os primeiros alunos e competindo, participando e treinando. Na nossa época nós éramos tão fortes no Piauí que nós combinávamos: eu ia para uma categoria e o Luís Figueiredo foi para outra categoria e nós ganhamos as duas categorias, porque nós tínhamos cacife para lutar e ganhamos. Essa força que nós tínhamos ontem nós também temos hoje. O que falta é o incentivo, o que falta é a ajuda. Aqui no Piauí infelizmente as academias tem uma cultura de "Ah, eu vou te dar uma bolsa para tu malhar". Muito obrigado, nós recebemos, nós usamos e isso nos ajuda muito. Mas isso não é suficiente. 

Vocês estavam em uma estrutura melhor e voltaram para essa situação adversa. Como vai ser agora?
Nós chegamos lá e eles me colocaram dentro de uma casa grande, com um quarto para cada um. Com todos os móveis, com tudo que uma casa tem. Coisa até que na casa da minha mãe e do meu pai não tinha. Me deram empregos - não foi um emprego, foram empregos. Me deram salário para eu me manter e manter o esporte dos meninos, porque eles realmente investiram nos meninos. Os clubes também dava uma ajuda financeira para os meninos todo o mês. Nós tivemos total apoio. Mas eu decidi voltar porque eu não sou gaúcho. Eu sou piauiense nato. Eu tenho um projeto, eu tenho uma história, eu tenho um trabalho. Se é reconhecido pelo poder público ou não, eu creio que pelo menos pela sociedade do judô, pelas pessoas que conhecem o nosso trabalho de perto, nós somos bem reconhecidos. Independente se vai ter ajuda financeira ou não eu decidi voltar. Não vou te garantir que vou ficar por muito tempo. Eu vou tentar mais uma vez. Eu vou buscar fazer o trabalho bem feito como eu sempre fiz.