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Um estádio para Leonardo

Fábio Lima
fabiolima@cidadeverde.com

Às vezes é preciso a dor da perda para que o reconhecimento surja. 

Leonardo sempre foi importante na história do futebol piauiense, mas esse importante parece soar como um traço na memória. 

Não é que toda homenagem pareça ser pouca e nem que a emoção do momento me leve a exageros, mas é preciso admitir que o primeiro grande nome depois de Sima no futebol piauiense é o de Leonardo.

Sima é eterno. Mesmo se estivesse em atividade, Leonardo dificilmente alcançaria o Pelé do Nordeste em gols. Mas no mínimo se iguala a Toinho, campeão brasileiro pelo São Paulo em 1977.

O sucesso de Sima foi em clubes do Piauí. Por mais que ele tenha passado por outras equipes do Nordeste, o artilheiro não fez sua história nelas. 

Nos anos 1990 eu cresci ouvindo falar de Sima. E da mesma forma que eu questionava se o goleiro Toinho foi titular no São Paulo, eu me perguntava se Sima tinha jogado no Palmeiras, Vasco, Corinthians...

Eis que surgiu Leonardo, que jogou no Sport e depois Palmeiras, Vasco, Corinthians, Belenenses (Portugal). E tudo isso depois de ser revelado em sua terra, em Picos. 

Para quem nasceu no Piauí e sonhava ser jogador de futebol, as referências há duas décadas eram dois jogadores já aposentados. Nenhum craque de porte nacional surgia. Parecia que estavamos fadados a alimentar nossas esperanças com o passado. 

A importância de Leonardo para o esporte piauiense reside nisso. Imagine querer ser jogador de futebol em um dos estados mais pobres do país, cujo esporte de longe não tinha a visibilidade nacional de hoje, e sem as facilidades de comunicação de agora para se fazer ser visto. 

Leonardo rompeu uma barreira e provou que era possível sair do Piauí e jogar futebol. Ele alimentou a esperança de milhares de crianças que sonhavam viver da bola. Quando elas entravam em campo na escolinha do José Ronaib, em Teresina, ouviam a história de um exemplo que deu certo. E quando menos esperavam, Leonardo surgia até os pequenos jogadores trazendo presentes nas festas de fim de ano. 

Há o futebol piauiense antes de depois de Sima. Concordem comigo ou não, Leonardo também é um divisor nessa história. Não pode ser por acaso que dois dos melhores jogadores do estado em atividade sejam de Picos - Renê, lateral do Sport (PE); e Rômulo, do Spartak Moscou (Rússia).

Pelo exposto acima - e nem citei suas habilidades como jogador-, Leonardo é digno de todas as homenagens. A melhor delas seria na sua terra, que tanto se orgulha dele. E não é por menos. No Piauí que tanto já idolatrou santos e políticos, ter um craque como ele para se gabar é algo raro. 

Em Parnaíba, por mais que a decisão possa ter tido cunho político, o estádio municipal passou a homenagear Pedro Alelaf, que cuidou do Parnahyba Sport Club até o fim de sua vida. O nome deixou de ser Mão Santa e o ex-governador não morreu por causa disso. 

Ao povo de Picos, cidadãos, torcedores, autoridades, deixo minha humilde sugestão. Se o ex-governador e ex-senador Helvídio Nunes estivesse vivo, talvez partisse dele o gesto de rebatizar o estádio municipal, para que no "tapetão verde da Malva" surjam novos Leonardos. E com tantos prédios e logradouros públicos que já o homenageiam, não será pela troca que o político ficará esquecido. 

Para a torcida do Sport Recife, Leonardo é um rei. O povo de Picos também há de fazer suas reverências - que não irão cessar após o sepultamento do craque nesta quinta-feira (3). 

Foto: Romário Mendes