Cidadeverde.com

O desabafo de Athirson

  • athirson16.jpg Foto: Roberta Aline/Cidade Verde
  • athirson15.jpg Foto: Roberta Aline/Cidade Verde
  • athirson13.jpg Foto: Roberta Aline/Cidade Verde
  • athirson12.jpg Foto: Roberta Aline/Cidade Verde
  • athirson11.jpg Foto: Roberta Aline/Cidade Verde
  • athirson10.jpg Foto: Roberta Aline/Cidade Verde
  • athirson08.jpg Foto: Roberta Aline/Cidade Verde
  • athirson07.jpg Foto: Roberta Aline/Cidade Verde
  • athirson06.jpg Foto: Roberta Aline/Cidade Verde
  • athirson05.jpg Foto: Roberta Aline/Cidade Verde
  • athirson04.jpg Foto: Roberta Aline/Cidade Verde
  • athirson03.jpg Foto: Roberta Aline/Cidade Verde
  • athirson02.jpg Foto: Roberta Aline/Cidade Verde
  • athirson01.jpg Foto: Roberta Aline/Cidade Verde

Fábio Lima
fabiolima@cidadeverde.com

Atualizada em 21/04, às 17h08

Em uma clínica na zona Leste, Athirson Mazzoli se despediu do futebol piauiense. Ao lado do auxiliar Denis Alves e do preparador físico Marco Antonio Andrade, o treinador fez um desabafo de meia hora sobre os problemas que enfrentou no Esporte Clube Flamengo. Problemas que não acabaram e agora, segundo o técnico, estão aos cuidados de seu advogado. 

O olhar de tristeza na entrevista contrastava com a alegria e simpatia do Athirson no trato com a imprensa desde o final de outubro de 2015, quando o treinador foi anunciado pela diretoria rubro-negra para Copa do Nordeste e Campeonato Piauiense. 

Em suas mãos, um relatório com fotos dos problemas enfrentados durante sua passagem pelo clube. Situações que antes se tentava resolver internamente, mas que vieram a público após o afastamento de Athirson do comando do time, no início do mês. 

O Esporte Clube Flamengo já foi procurado ainda na quarta-feira, mas só se posicionou sobre a entrevista em outra coletiva de imprensa, no dia seguinte

Nada, no entanto, é surpresa face a situação precária do clube: endividado, sem sede social e com uma lista de problemas extra campo talvez até maior do que os pontos a seguir. 

Torcedor, é muita coisa. Vamos por partes. 


Afastamento
Athirson foi comunicado no dia 8 de abril que não iria mais trabalhar com o elenco profissional e seria remanejado para outra função, assim como o seu auxiliar. O treinador estava viajando para o Rio de Janeiro. 

- Naquele momento eu fiquei muito triste pelo fato de não respeitar o momento de felicidade da minha família, da minha filha que ia completar 15 anos, era debutante naquele momento, e não tiveram nem um pingo de sensibilidade de respeitar esse momento tão marcante para a família. 

Segundo Athirson, seu contrato diz que essa mudança de função não é possível, então ele entendeu que estava sendo demitido. O treinador relatou que houve tentativa de acordo com o clube, mas a negociação foi frustrada e o caso agora está aos cuidados do seu advogado. 

- Eu senti que eu estava sendo demitido, mas o clube não tinha feito dessa forma. 

Ignorando a Copa do Nordeste, na qual o Flamengo, na avaliação do treinador, não tinha condições de igualdade para brigar com os adversários, Athirson somou cinco vitórias, três empates e três derrotas no Campeonato Piauiense. Ele não entende a alegação de resultados ruins para seu desligamento. 

- Até hoje nós da comissão técnica não sabemos o motivo do nosso desligamento. 

Foto: Roberta Aline/Cidade Verde


Contrato descumprido
De acordo com o treinador, o carro que estava a sua disposição foi retirado no dia 4 de abril. 

- A partir desse momento a gente ficou sem carro, sem ter aonde comer e com 75 dias de salário atrasado. 

Segundo Athirson, o transporte da comissão técnica fazia parte do contrato. O treinador já estava no Rio de Janeiro cuidando do aniversário da filha, mas seus auxiliares continuaram em Teresina sem dinheiro para sair de casa.

No fim da entrevista, Athirson fez um agradecimento ao restaurante onde almoçou e jantou de graça nos últimos meses. 

O treinador citou também que havia um acordo em relação a moradia, mas a comissão técnica teve de esperar entre dois e três meses para que a questão fosse resolvida - e ainda de forma desconfortável para eles. 


Falta de água potável e até comida
Jogo a jogo, Athirson relatou problemas em relação aos atletas, com direito a fotos. Disse que não revelou os bastidores antes em respeito ao clube, mas não as pessoas envolvidas com ele hoje. 

O treinador citou problemas já denunciados por atletas, como a presença de ratos na casa dos jogadores. Relatou ainda que o grupo descobriu que a água consumida por eles não era potável e alguns passaram mal.

- Tudo o que foi citado é verdadeiro e a gente nunca quis expor essa situação. (...) Imagina você convivendo com rato dentro de uma casa. Para mim, não é normal. É uma situação muito delicada, que expõe a tua saúde e pode vir uma doença muito grave. 

Entre os problemas, Athirson reclamou da falta de transporte para deslocamento aos locais de treino. Uma van precisava fazer duas viagens para pegar os jogadores, o que atrasava as atividades em até 40 minutos. 

Foto: Roberta Aline/Cidade Verde

Athirson até elogiou o campo do clube das Classes Produtoras, mas disse que o vestiário não tinha condições de uso e os jogadores tinham de trocar de roupa ao ar livre. 

No clássico com o River, no dia 14 de março, o time estaria sem transporte faltando uma hora para o início da partida. O Flamengo ganhou por 1 a 0. 

Situação mais complicada foi na partida da Copa do Nordeste com o Sampaio Corrêa (MA). A viagem teria demorado mais que o previsto e ainda faltou dinheiro para a alimentação dos atletas. 

- Aí eu faço uma pergunta pra vocês da imprensa: vocês acham justo o que está acontecendo, o que está se passando no futebol do Piauí?

Outro relato que chamou a atenção trata da alimentação dos atletas. Athirson não disse que os jogadores chegaram a passar fome, mas relatou que a situação era precária e os horários incertos.  

O treinador relembrou um jogo marcado para 20h. Contou que o time almoçou às 12h arroz, feijão e frango. Depois disso, teria de comer às 16h para fazer a digestão antes da partida. Quando soube que às 17h30 o problema não havia sido sanado, Athirson pegou o próprio dinheiro para resolver. 

- Tivemos de parar o nosso trabalho e ir numa padaria - tem relatos, fotos - comprar a alimentação dos atletas. (...) Se a gente não chega com o pão 6 horas da tarde, e não é uma alimentação adequada para um atleta de alto rendimento, ele não tinha nada para comer e poderia passar mal. 

No dia 2 de abril, antes do jogo com Altos, pelo 2º turno, os jogadores cruzaram os braços e ameaçaram não jogar por conta dos salários atrasados. Athirson disse que conversou com os atletas na tentativa de convencê-los que esta não era a melhor saída. Após uma reunião com a diretoria, cada um teria recebido R$ 100 para entrar em campo. 

- Se a gente tem condições de trabalho, o Piauí teria mais representantes na Série B, Série C, Série D e até Série A do Brasileiro. 

 

Saúde de jogadores
O treinador denunciou que três jogadores tiveram lesões graves, sendo que dois não passaram por cirurgia: Gabriel e Romarinho - o último estaria desde janeiro esperando para ser operado. O terceiro foi Ernesto, que fez o procedimento necessário de forma particular. 


Elogios ao River
Na entrevista, o treinador agradeceu pela compreensão dos rubro-negros em relação ao seu trabalho. Mas dos elogios ao rival, eu não sei se eles vão gostar:

- Não é a toa que o River está conseguindo cada vez mais seus objetivos. O River é um grande exemplo da cidade. Que ainda tem os seus problemas, mas cada vez mais vai se estruturando para que consiga seus objetivos e alcançar cada vez mais voos maiores. Eu peço para que todos os clubes do estado do Piauí peguem o grande espelho, que é o River, e busquem fazer como exemplo. 


Futuro
Athirson voltará para o Rio de Janeiro. Não quer mais dor de cabeça e deixou tudo nas mãos do advogado. 

- Quero seguir minha vida. Espero em breve estar em um novo clube. Não quero demorar muito.

Ele disse que espera voltar, em outra oportunidade e em outra situação. Creio que o torcedor espera isso também.