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O que vi no Rio: "Quero meu hino de volta"


03 de Agosto de 2016 - Rio 2016 - Jogo de Futebol Feminino Brasil x China..Foto: Roberto Castro/ Brasil2016

Estádio Nilton Santos, o Engenhão. O Brasil estreia em sua Olimpíada. Tão aguardado como os gols da seleção feminina de futebol era o momento da execução do hino nacional. E só depois fui me atentar para isso. 

Hino em Olimpíada é sinal de medalha de ouro. No caso do futebol e outras modalidades, o hino sempre é executado no início de cada jogo, como na Copa do Mundo. 

Chega o momento. Estádio com bom público, verde e amarelo das camisas em contraste com o azul dos assentos. O "Ouviram do Ipiranga..." já arrepia. E quando todos cantam "brilhou no céu da pátria neste instante", a melodia pula para "Gigante pela própria natureza...". Sem entender, o público canta "Se o penhor..." e para. Tenta se encaixar no ritmo e só se encontra quando o "Terra adorada.." anunciava os últimos versos. 

Um adolescente na minha frente grita: "Quero meu hino de volta!"

O olhar de alguns chega a ser frustrante. Nada que não fosse esquecido com uma vitória por 3 a 0 sobre a China. Mas bateu saudade do hino à capela, que marcou a Copa do Mundo de 2014. Não tanto quanto o 7 a 1, mas marcou - e positivamente. 

O futebol feminino estreou com uma vitória convicente, mas nem tanto, em em um Engenhão repleto de pessoas que amam o esporte. Que foram para aplaudir Marta de pé ao ser substituída, mesmo que ela não tenha feito um de seus melhores jogos, mas simplesmente porque ela é Marta e isso dispensa qualquer outra explicação. 

Foto: Roberto Castro/ Brasil2016

 

Mas também para gritar "Vai, Formiga!", "Toca a bola, Cristiane!", ou "Valeu Bárbara, meu amor!". Para quem foi ao estádio, a seleção brasileira não é de uma jogadora só - até o técnico Vadão foi cornetado. 

Isso tudo sem contar a alegria dos brasileiros, que farão desses Jogos Olímpicos um dos melhores de todos os tempos. Porque ouvir um grupo gritar "pastel de flango" no jogo da China é no mínimo curioso. Ouvir a torcida gritar "Zika" quando quem chuta a bola é a goleira Hope Solo, dos Estados Unidos (aquela que postou uma foto pronta pra enfrentar o mosquito transmissor da doença), é sinal de que a zoeira não tem limites. 

É um contraste com o taxista que me levou do aeroporto. Ele estava chateado por conta do cancelamento de voos no horário das regatas de Vela, à tarde. Zangado com os congestionamentos provocados pela faixa exclusiva para veículos dos Jogos e pela prioridade dada ao transporte público. Irritado com a crise financeira, os assaltos na rua e aos cofres públicos, o túnel que alaga quando a maré sobe, e todos os outros problemas que afetam a cidade. 

Cada um tem suas razões para ficar chateado, mas é preciso separar uma coisa da outra. Os Jogos Olímpicos não vão acontecer tão cedo no Brasil e há de se aproveitar esse momento, que é do esporte, de valorizar os atletas que se empenharam a vida toda para estarem aqui, de pregar a paz no mundo e a irmandade entre os povos. Para se realizar o evento, a rotina da cidade muda e alguns transtornos são inevitáveis. Já os outros problemas, não dá para culpar as Olimpíadas. 

É bem verdade que a internet do celular não passou no teste de estreia no Engenhão, que a cerveja vendida a R$ 13 nas arenas deve ter ouro em sua composição, que a primeira viagem do Parque Olímpico ao estádio de Engenho de Dentro foi longa e um tanto desconfortável. O taxista me avisou: "É o que temos para oferecer". 

Acredito que ainda vamos superar os problemas, com alegria e emoção. Mesmo que tenham nos tirado o hino à capela. 

Foto: Roberto Castro/ Brasil2016