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O que vi no Rio: as surpresas e lágrimas de Del Potro, Djokovic e Rafaela Silva

A Olimpíada ainda está no início, mas será difícil surgir injustiça maior que a eliminação do sérvio Novac Djokovic logo na estreia do torneio de tênis.

Não que a vitória do argentino Juan Martin Del Potro por 2 a 0 (7-6, 7-6) tenha sido injusta. Operado por três vezes no punho esquerdo, ele chegou a desistir do Masters 1000 de Miami neste ano. No domingo (7), com saques que chegaram a 210 quilômetros por hora, eliminou o número 1 do mundo de forma merecida e até emocionante. Uma reviravolta e tanto na carreira.


No domingo, ainda emocionado, o argentino recebe os aplausos do público enquanto o sérvio, também ovacionado, vai embora aos prantos. Foto: Getty Images

 

Mas não deixo de achar injusto que o tenista mais carismático do circuito mundial vá embora sem o título na mais carismática de todas as cidades olímpicas. Chega a ser doloroso ver o sérvio deixar a quadra chorando e se despedir do torneio de simples sem protagonizar suas brincadeiras com boleiros e o público no Rio de Janeiro.  Não por acaso, foi apoiado pela torcida como um brasileiro - e assim seria mesmo que a partida não fosse contra um argentino. O clima no centro olímpico de tênis era de estádio de futebol. 

Favorito ao ouro, Djokovic tem a cara da alegria do Rio. 

Fora da lista de favoritas ao ouro, Rafaela Silva é do Rio. Seguiu pelo judô em meio as dificuldades da Cidade de Deus. Em 2008, junto com Sarah Menezes, foi campeã mundial júnior. Mas gosta mesmo é de lutar em casa, tanto que foi campeã mundial em 2013, no Rio de Janeiro.


08/08/2016 - Brasil, RJ, Rio de Janeiro - Parque Olimpico, Arena Carioca 2 - Jogos Olimpicos Rio 2016, Judo - fase eliminatoria, -57kg - Rafaela Silva (BRA) x Kim Jandi (KOR) ©Marcio Rodrigues/MPIX/CBJ

 

O retrospecto recente colocaria Rafaela Silva perto de uma medalha de bronze. Mas ela estava em casa e lutou como uma fera. Chamada de "macaca" por internautas após a eliminação precoce em Londres 2012, a judoca esperou quatro anos para rebater as mensagens racistas que a mandavam voltar para a "jaula". No bom sentido, ontem (8) a carioca saiu da jaula. A cara de raiva nas lutas parecia a de um animal furioso. Até o canto da torcida lembrou isso: "Olelê, olalá, a Rafa vem aí e o bicho vai pegar".

Era o dia de Rafaela. Não haveria chance para mais ninguém. 

Na Arena do Futuro, onde o Brasil venceu a Romênia no handebol feminino, a torcida esqueceu o jogo em quadra para acompanhar a final pelos telefones celulares. Após a confirmação da vitória no judô, torcedores emocionados, alguns aos prantos, gritavam em coro "Ah, é Rafaela!".

E o primeiro ouro brasileiro no Rio 2016 é de uma mulher, negra, carioca, de origem pobre. Pensando bem, deixar Rafaela sem medalha seria outra injustiça desses Jogos.

Duas grandes surpresas em menos de 24 horas e um nível elevado de fortes emoções. Coisas que só acontecem nos Jogos Olímpicos. 


08/08/2016 - Brasil, RJ, Rio de Janeiro - Parque Olimpico, Arena Carioca 2 - Jogos Olimpicos Rio 2016, Judo - final, -57kg - Rafaela Silva (BRA), medalha de ouro. ©Marcio Rodrigues/MPIX/CBJ