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O que vi no Rio: torcida campeã em alegria, mal exemplo em educação

Brasil e Romênia entram em quadra para se enfrentarem no handebol feminino. A torcida vaia a entrada e o anúncio de cada jogadora do time romeno. Alguns ensaiaram vaias até para o hino. 

O pai leva a filha de aproximadamente 8, 10 anos de idade, para ver Brasil x Espanha no basquete masculino das Olimpíadas. Não se controla e começa a chamar o espanhol Pau Gasol de "Gazela", aos berros, no assento logo a minha frente.

Ele foi exceção. Porque a regra era gritar: "Ei, Gasol, vai tomar no **".

O mundo agora se assusta com o jeito brasileiro de torcer, que fez os Jogos Pan-Americanos de 2007 no Rio de Janeiro ficarem conhecidos como "Pan da vaia". 

E fica difícil convencer o torcedor que é grosseria ou falta de educação mandar o Gasol ir para aquele lugar se depois dos berros o espanhol erra dois lances livres seguidos. Se deu certo uma vez...

Foto: Danilo Borges /ME /Brasil2016

Vibração da torcida em Brasil x Espanha no basquete masculino

No mesmo jogo, o telão flagrou um torcedor com olhos de fúria e os dois dedos em riste. Um belo exemplo para muitas crianças que estavam alí, só que não. 

Há de se fazer uma ressalva. A vitória por 66 a 65 nos últimos segundos deixou o coração de qualquer um no limite. Isso explica, mas justifica? 

Não há muito o que fazer. Somos nós, os brasileiros. Insuperáveis no quesito empolgação e alegria. Inigualáveis na falta de educação esportiva. 

Afinal, qual a graça e a vantagem em se gritar "bicha" toda vez que o goleiro cobra um tiro de meta no futebol? Vocês acreditam mesmo que isso o atrapalha?

Nos jogos de tênis e nas disputas de natação, os locutores pedem que se faça silêncio antes dos saques e das largadas. Mas sempre tem mais de um gaiato que espera todo mundo se calar para soltar um "Vai, Corinthians" ou outro grito qualquer. E tudo se atrasa. 

Em geral, a torcida brasileira dá um show. Os atletas brasileiros são aplaudidos com euforia que jamais será vista na arquibancada de outra Olimpíada. Vencedores e perdedores de outros países também - com exceção para argentinos em alguns esportes e os russos na natação, pelo que pude notar. 

Os gritos até influenciam os brasileiros positivamente. Quando o handebol masculino do Brasil perdia por seis gols de diferença para a Eslovênia, o coro repetido de "Uh! Defesa" fez a diferença cair para dois, ainda que a derrota não fosse evitada. 

A reverência do público na quadra central de tênis fez Novac Djokovic ir aos prantos. Estava decepcionado por não conseguir retribuir tanto carinho. 

Com o intuito de desconcentrar, o público brasileiro sempre vaia os adversários - em especial os argentinos, que invadiram no Rio e são presenteados com o coro de "Mil gols, mil gols, mil gols, mil gols, mil gols... / Só Pelé, só Pelé / Maradona cheirador" - em alusão ao vício de cocaína que abalou a vida do craque.

Não somos os norte-americanos, que foram em peso ao estádio aquático ver Michael Phelps, gritam "U.S.A." com fervor e como manda o figurino, mas emperram a sequência da "ôla" na arquibancada. 

Somos os reis da alegria, vibração e zoação. Mas não adianta se irritar com a imprensa internacional: temos nossos exageros. Gostaria que eles fossem suprimidos, mas temo que o torcedor brasileiro deixe de ser tão caloroso como é hoje se isso ocorrer.