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Fundespi diz que não entendeu a polêmica. A gente explica

Vicente Sobrinho respondeu, nesta quinta-feira (29), sobre a polêmica que envolveu o pagamento de passagem para a ex-diretora do Sine Piauí, Maria Bethânia Rios Magalhães, para competir em uma prova de atletismo em Portugal. 

O presidente da Fundação dos Esportes do Piauí (Fundespi) falou em entrevista ao vivo na internet para o radialista Sidney Santos. Você pode conferir o vídeo neste link e tirar suas próprias conclusões. Eu tirei as minhas e acho que o Vicente não entendeu o xis do problema. 

Foto: Thiago Amaral/Cidade Verde

Na visão de Sobrinho, existe um "lado político da situação". De fato, a notícia chama a atenção pelo fato da corredora ser ex-diretora do Sine e ex-esposa de deputado. Opositores deitam e rolam com um assunto como esse. 

Vicente Sobrinho também disse não compreender a polêmica. "Não vejo nenhum equívoco nisso. O processo foi feito normal."

O gestor afirmou que todo o processo de solicitação das passagens foi legal, e disse mais: que a Fundespi não tinha dinheiro na época, mas negociou com a agência de viagens e conseguiu emitir as passagens, efetuando o pagamento apenas quatro meses depois.

As passagens, segundo Sobrinho, custaram cerca de R$ 4 mil. 

"É um bom valor? É, quatro mil reais. Mas não é algo que vai cair a banda do mundo por conta disso."

O presidente da Fundespi ressaltou que a atleta ficou em 46º na sua categoria. Disse, e com razão, que o poder público tem de dar condições para que as pessoas possam praticar esportes independente da faixa etária, especialmente com muitos iniciando a atividade esportiva somente quando adultos, em busca de saúde e qualidade de vida. Quem acompanha este blog já deve ter lido por aqui que esporte é um direito constitucional dos brasileiros - e isso independe de idade. 

Em resumo, são essas as informações. 

De fato, não há nada que aparente ilegalidade. Apesar de ser estranho o Governo deletar a matéria sobre o assunto em seu site oficial. 

Vicente não mentiu em nada e ainda tocou num ponto importante: a Fundespi também tem também como missão apoiar atletas amadores, ainda que não venham a competir entre os profissionais no futuro. 

Aliás, se as coisas nesse Brasil funcionassem como deveriam, os profissionais nem precisariam do Governo, porque seriam patrocinados pela iniciativa privada.

É aí que começa o problema, tratado no artigo de ontem: não há como patrocinar todo mundo. Nem as empresas ajudam, nem o poder público tem verba pra contemplar a todos. E nessas horas é que se precisa definir critérios para escolher quem apoiar: a corredora amadora com melhor condição de renda ou um atleta pobre da periferia que busca viver do esporte?

Portanto, se o senhor não entendeu a polêmica, Vicente Sobrinho, é só ler o parágrafo anterior. Não se trata de ilegalidade. É que para atender a uma demanda, outras precisarão ser negadas. São escolhas difíceis, é verdade. Mas tudo fica mais fácil quando se deixa claro quantos poderão ser beneficiados e em quais áreas, como ocorria com o finado Bolsa Atleta. E quando a Fundespi faz suas escolhas, tem de dar explicações e arcar com a cobrança da sociedade. 

E devo alertar que sua entrevista em nada o ajudou a convencer os esportistas piauienses. Alguns devem estar surpresos com a compra das passagens para a Fundespi pagar apenas quatro meses depois. Imagino que agora atletas baterão à porta da Fundação já confiantes em serem atendidos. Afinal, se não há dinheiro agora, dá pra resolver no futuro.

Essa mendicância me incomoda e certamente deve ser algo frustrante para todos no esporte brasileiro. Tomara que esse episódio sirva para se debater ainda mais o problema e efetivar soluções. Especialmente com os cortes que o setor sofrerá nesta crise econômica. 

E por fim, não se engane: 4 mil reais pode parecer pouco nas contas públicas, mas todos estamos vendo a banda do mundo cair por conta disso.