Cidadeverde.com

Não se pode subestimar a torcida do River. E nem a explorar demais

Na lista dos meus filmes favoritos, o número 1 é "A Felicidade não se compra" (It's a Wonderful Life, EUA, 1946), obra prima dirigida por Frank Capra e talvez o melhor filme sobre Natal feito até hoje. 

Sem tentar soltar spoilers, digo que o protagonista George Bailey se vê desesperado por dívidas e a ponto de cometer suicídio. No fim, ele é salvo por pessoas que cativou ao longo da vida, inclusive as que eles menos esperava. 

Nos últimos dias de 2018, guardadas as devidas proporções, George Bailey era o River Atlético Clube. E seus salvadores foram os torcedores. 

Foto: Wilson Filho/Arquivo Cidadeverde.com

O tricolor piauiense corria o risco de sofrer uma redução drástica em uma de suas principais fontes de receita, a Timemania, loteria federal criada para ajudar clubes de futebol brasileiros. A queda no repasse poderia inviabilizar os planos do River para 2019. 

Ao longo do ano, era difícil o Galo passar das 10 mil apostas na loteria. No último concurso de 2018, o clube chegou a 48 mil, sendo o quinto mais apostado no país - mais que Palmeiras, Corinthians, Santos, Grêmio, São Paulo, Vasco... 

O risco de "rebaixamento" na loteria foi afastado. O percentual de receita do River na Timemania será mantido. 

E isso mostra a força da mobilização da torcida do Galo. Os riverinos devem ficar orgulhosos do que conseguiram fazer em poucos dias. 

Mas a diretoria não pode se empolgar e achar que 48 mil apostas vão resultar em estádio lotado na próxima temporada. Aí são outros 500, já que o texto hoje é pautado em números.  

O fato da mobilização pelas apostas ter dado certo não significa que todo torcedor poderá pagar R$ 20, R$ 30 ou até R$ 50 - este último preço praticado em 2017, nas cadeiras do Lindolfo Monteiro. 

Já são duas temporadas com preços de ingressos no alvo das críticas. Quando o valor do bilhete é reduzido, o clube trata como promoção, um alerta de que, num futuro, ele voltará aos valores que o torcedor não quer - e não os quer porque, além de preferir gastar menos, não tem como pagar muito mais. 

Não posso deixar de mencionar: reduzir o preço em definitivo é arriscado, desvaloriza o produto e pode fazer o torcedor esperar um valor ainda menor em uma futura promoção. O marketing do clube deve ser mesmo cuidadoso nesse sentido. 

Mas, ao contrário da lenda que se propagou ao longo de décadas, de que o Flamengo tem a torcida pobre e o River é formado pelos ricos da Zona Leste, a grande massa riverina não tem condições de tirar R$ 20 do bolso em todas as rodadas - e nunca é só esse valor, porque ele não inclui o transporte, o filho pequeno e o lanche/bebida no estádio. 

Agrave isso com a crise econômica que o país atravessa, e com o Governo do Estado, principal empregador do Piauí, postergando o pagamento de salários a partir de janeiro - para não dizer atrasando, já que o calendário prevê depósitos após o quinto dia útil, contrariando o previsto na legislação brasileira. 

Como tudo em excesso faz mal, o River precisa analisar com atenção o cenário econômico e acertar a dose na bilheteria. Falo isso porque ouço queixas de riverinos nos últimos anos. 

Saber que o time não terá receita reduzida em 2019 faz cada torcedor ficar orgulhoso de cada canhoto da Timemania que guardou. A felicidade riverina não se compra. Contudo, o bolso do torcedor tem limite.