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River admite forçar cartões amarelos para evitar desfalques nas semifinais do Campeonato Piauiense

Foto: Letícia Santos/Cidadeverde.com

Cartão amarelo sofrido por Maceió contra o Altos foi para evitar suspensão nas semifinais

Reta final de partida, o River empatava em casa contra um Altos que perdeu Sidney, expulso, ainda nos primeiros minutos de jogo. Mondragon abre mão de cobrar o tiro de meta. Vem Maceió para o seu lugar. O zagueiro demora para cobrar. O árbitro dá cartão amarelo para o jogador tricolor. 

O que gerou irritação de torcedores no final do 0 a 0 de ontem (20), no Albertão, na verdade fazia parte de um plano do time tricolor - executado quase com perfeição: levar o cartão amarelo agora para ficar sem cartões acumulados nas semifinais do Campeonato Piauiense. 

A execução do plano só não foi perfeita por dois motivos:

1) Dos três jogadores pendurados no River, só dois tomaram o terceiro cartão amarelo contra o Altos: Maceió e João Paulo;

2) A conduta, para a qual já há precedentes em outros episódios julgados na Justiça Desportiva brasileira, foi revelada pelos tricolores sem que ninguém perguntasse. 

O primeiro a soltar o verbo sobre a manobra riverina foi o goleiro Mondragon, ainda no gramado do Albertão, em entrevista ao vivo para Wellyson Costa no final da transmissão feita pela Rádio Cidade Verde. O jogador foi explicar a razão de Maceió cobrar o tiro de meta no seu lugar. 

Foto: Roberta Aline/Cidadeverde.com/Arquivo

- O meu zagueiro está com dois cartões. Então assim... A gente tem que se precaver nas semifinais. A gente tem que pensar lá na frente. Ele não tomou cartão na partida. Então era o momento para ele tomar o terceiro e cumprir suspensão no próximo para estar zerado na semifinal. (...) Como eles fizeram também a mesma coisa, então a gente tem que ser inteligente também pra fazer isso. 

Ao dizer que "eles fizeram", Mondragon faz referência ao Altos, que teve tiros de meta do goleiro Fernando Henrique cobrados pelo zagueiro Renato Santos e pelo lateral Tiaguinho. Mas só Tiaguinho e Raphael Freitas, artilheiro do campeonato, estavam pendurados no Jacaré - e os dois levaram cartão amarelo e estarão suspensos na próxima rodada.

No entanto, ninguém do Altos abriu a boca sobre cartões amarelos. Os jogadores do River acabaram falando mesmo sem serem questionados. 

Depois, na coletiva de imprensa, o zagueiro Cris também falou do plano tricolor de forma espontânea. Ninguém sequer havia tocado no assunto do tiro de meta cobrado por Maceió. 

- Acho que deu tudo certo no planejamento. Quem tava com 'três' cartões tomou o terceiro e a gente pode entrar 100% na semifinal. 

Foi o jeito perguntar ao técnico Flávio Araújo sobre o que seus jogadores estavam falando. E o treinador admitiu o plano. 

Foto: Letícia Santos/Cidadeverde.com

- Eram três jogadores que nós tínhamos programado para pegar o terceiro cartão amarelo. Dois pegaram, que foi o João Paulo e outro foi o Maceió, que a torcida não entendeu (a demora no tiro de meta), mas alí era para pegar o cartão. 

O que está no papel
Pelo regulamento do Campeonato Piauiense, os cartões amarelos não são zerados na semifinal. Ou seja: quem tomar o terceiro cartão amarelo na última rodada, fica fora do primeiro jogo das semifinais. 

Com isso, Maceió e João Paulo, do River, e Raphael Freitas e Tiaguinho, do Altos, vão cumprir suspensão na última rodada e evitam desfalcar seus times nas semifinais. 

Precedentes
O Código Brasileiro de Justiça Desportiva, o artigo 258 pune "qualquer conduta contrária à disciplina ou à ética desportiva não tipificada pelas demais regras deste Código". 

Foi com base no artigo do CBJD que em 2013, Valdívia, então no Palmeiras, admitiu em entrevista que forçou o cartão amarelo em jogo da Série B do Brasileirão. Acabou suspenso por mais dois jogos. 

No mesmo ano, Elias, do Flamengo, também foi punido com um jogo de suspensão por conduta parecida em jogo da Série A. 

Nem Palmeiras e muito menos o Flamengo foram prejudicados. Elias já havia cumprido a suspensão e Valdívia desfalcou seu clube na mesma época em que foi liberado para defender a seleção chilena. 

E nos dois casos, os atletas admitiram em entrevista que forçaram o cartão amarelo. Não foi o que ocorreu com o Altos - a não ser que algum colega jornalista tenha uma entrevista a qual não tivemos acesso ainda. 

Vale outra observação para alguns questionamentos: no caso de Valdívia, o cartão foi forçado em 10 de agosto e a punição veio no início de setembro. O Tribunal de Justiça Desportiva do Piauí, que realizou a primeira sessão de 2019 nesta semana, restando uma rodada para o fim da fase classificatória, receberá denúncia e julgará um eventual processo contra o River antes do Campeonato Piauiense acabar?

No Galo, ou houve desinformação por parte de quem abriu o bico, ou confiança de que não haverá punição - seja por algum entendimento jurídico ou pelo curto tempo para o TJD julgar o caso.