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Batalha do Jenipapo quebra mitos sobre a Independência, diz escritor Laurentino Gomes

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Em 2022, o Brasil comemora 200 anos de independência e o Piauí tem papel importante nessa conquista. Foi em terras piauienses, na vila de Campo Maior, que aconteceu um dos confrontos mais sangrentos na luta contra Portugal: a Batalha do Jenipapo. Mais de duzentos piauienses, maranhenses e cearenses morreram ao lutarem contra o Major João José da Cunha Fidié, o comandante das tropas portuguesas. A batalha, apesar de ser considerada pela história um episódio localizado, tem a sua importância para o país e, segundo o escritor e jornalista Laurentino Gomes, ela quebra mitos de que a independência do Brasil não teve caráter nacional. 

“A Batalha do Jenipapo tem dois aspectos muito importantes: primeiro é o caráter nacional da independência do Brasil. Cearenses, piauienses e também maranhenses morreram lutando pela independência do Brasil na Batalha do Jenipapo. O segundo aspecto é derrubar um mito de que a independência do Brasil foi um processo pacifico, quase como se fosse uma negociação entre o pai, Dom João VI e o filho Dom Pedro I”, afirmou o escritor em entrevista à jornalista Claudia Brandão, da TV Cidade Verde.

A Batalha do Jenipapo foi tão importante para o país que ganhou um capítulo no livro 1822, de autoria de Laurentino. Na publicação ele desvenda acontecimentos históricos que culminaram na independência do Brasil.

“A Batalha do Jenipapo no meu entender, embora ela tenha sido um evento muito localizado em Campo Maior, longe de tudo, do Rio de Janeiro, São Paulo, Salvador, Recife, é uma coisa muito específica, e eu diria que hoje não apareceria no noticiário do dia a dia se acontecesse, mas ela muito simbólica, pois mostra que o processo de independência não aconteceu apenas no Rio de Janeiro e nas margens do riacho Ipiranga. Ela envolveu todos os brasileiros”, conta, reforçando que o confronto às margens do riacho Jenipapo em Campo Maior, tem a sua importância.

“Morreu muita gente lutando pela independência do Brasil. Eu considero a Batalha do Jenipapo, apesar do seu caráter local, muito simbólica em relação a alguns mitos da independência do Brasil, que caem diante desses episódios”, afirma.

Laurentino, que esteve no Piauí em 2014 participando do Salão do Livro do Piauí, o Salipi, visitou o local exato onde aconteceu a Batalha do Jenipapo.

“Pra mim foi um choque. Eu tinha ouvido falar vagamente da Batalha do Jenipapo enquanto eu pesquisava a minha bibliografia sobre a independência do Brasil, e daí eu fui convidado a ir ao Salipi e tive a oportunidade de ir a Campo Maior e realmente fiquei muito impressionado. Aquelas tumbas perdidas no meio das palmeiras. Um lugar muito agreste, muito seco, na margem do rio. Aí tive a ideia de fazer um capítulo sobre a Batalha do Jenipapo para mostrar aos outros brasileiros o que aconteceu aqui. Pouquíssimas pessoas sabiam a respeito desse episódio, mas também pelo seu caráter de que a independência do Brasil foi um movimento nacional e não apenas localizado”, relata.

A entrevista de Laurentino marca o lançamento do projeto especial 200 anos da Independência do Brasil, da TV Cidade Verde, que aconteceu nesta sexta-feira (12) no Jornal do Piauí. O projeto inclui a exibição de uma minissérie sobre a Batalha do Jenipapo, com 10 capítulos, uma iniciativa pioneira de Alexandre Melo em parceria com a TV Cidade Verde.

Foto: Reprodução/TV Cidade Verde

O escritor falou sobre os vários episódios que antecederam a independência do Brasil.

“No final do século 18, início do século 19, o Brasil tinha presenciado algumas rebeliões, revoltas regionais, como por exemplo a reforma dos Alfaiates em Salvador (1798) ou a própria Inconfidência Mineira um pouco antes, mas não havia de fato o sentimento de independência no Brasil. Aí as coisas começam a se complicar na Europa. Primeiro a revolução francesa, as guerras napoleônicas, o bloqueio continental. Há uma revolução nas ideias mais do que o enfrentamento nas batalhas pelas armas, os exércitos. Esse é um momento de grandes transformações nas ideias. E essas ideias acabam chegando a Portugal. E houve uma mudança grande”, conta.

A primeira delas foi a fuga da corte de Dom João para o Rio de Janeiro. “Primeiro uma transformação crucial na história de Portugal, que é a fuga da corte de Dom João para o Rio de Janeiro em 1807/1808. Portugal ficou para trás, abandonado e sofreu muito. Enquanto isso, o Brasil se transformou durante 13 anos. Dom João tomou decisões fundamentais que transformaram a realidade brasileira. Até então não tinha imprensa no Brasil. Ela passa a existir em 1808 com a chegada de Dom João. Não tinha escola superior, biblioteca nacional, não tinha nada. É uma transformação muito grande e a coisa se complica em Portugal”, relata, lembrando os momentos que vieram antes da guerra.

“São plantadas ali sementes de uma guerra civil que envolveu inclusive o imperador Pedro I. Depois que abdicou ele voltou a Portugal para lutar uma guerra civil entre liberais e absolutistas cujas as raízes estavam na independência do Brasil. Então é uma divergência entre portugueses que leva a uma radicalização do ambiente e o resultado é a separação final entre 1822, com o chamado grito do Ipiranga, e em 1823 onde nós temos esses episódios cruciais como a batalha do Jenipapo no Piauí ou 2 de julho na Bahia”, finalizou.

O livro 1822 foi lançado em 2010 e conta a história do Brasil em 250 páginas.

Hérlon Moraes
[email protected]

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