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Da comunidade para a telona - Preto Kedé mostra raízes e rebate preconceito com autoestima

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Rayldo Pereira
rayldopereira@cidadeverde.com


Cledeilson  Barreto de Araújo, 27anos, ao ler esse nome provavelmente você não irá se identificar de cara, mas e se você descobre que este jovem também atende por Preto Kedé, a história já é diferente. Conquistando discretamente o público de Teresina, o rapper que nasceu e vive na Vila São José, zona Sul da capital, já deu o que falar e mostra ao Cidadeverde.com onde quer fincar suas raízes.

Kedé, como prefere ser chamado, hoje representa a voz de uma comunidade contra o preconceito e quer exaltar com sua música, a autoestima de todos que passam por situações complexas como ele. Em sua história, polêmicas envolvendo Polícia e abordagens deixaram marcas que através da arte, o rapper vem tentando mudar.

Em 2013 o rap "IRA", levou membros da Irmandade, grupo que Kedé faz parte, à delegacia após a denúncia do então comandante das Rondas Ostensivas de Natureza Especial (RONE), capitão Fábio Abreu, que disse se sentir ameaçado com a letra que dizia: "Eu não tenho medo do Avelar, eu não tenho medo do Fábio Abreu porque? Se eles tem o direito deles eu também tenho o meu".

Para o rapper até hoje, reflexo de falsas notícias divulgadas na época ecoam na mente das pessoas e prejudicam seu crescimento como artista. "Eu apenas reivindiquei na música um momento que eu passei. Naquela fase eu estava sendo abordado todos os dias e não só abordado, mas discriminado. Eles julgam todo mundo que está na comunidade e eu tenho que mostrar essas coisas. Devido ao realismo das mensagens e da forma de se expressar isso prejudica porque a galera não entende que estamos batendo de frente com o sistema, mas por outro lado, nos ajudou a mostrar a cara e mandar a mensagem que muita gente barrava", desabafou.

Rapreggae, é assim que Kedé define o seu estilo de música. Se o sucesso nacional e a fuga dos problemas é buscada por muitos artistas, Kedé quer na verdade mostrar de onde veio, e mudar a realidade de todos ao seu redor.  Comunidade é a palavra que espontaneamente o artista mais exalta e o sentimento de pertencimento vira arte como nas mensagens de seu rap Hsol - "Deixe a chuva cair, deixe o céu se abrir, deixe o mundo girar não só em torno de ti".

"Minha maior inspiração é a comunidade, o sorriso da criança, o senhor, a senhora, tudo isso me motiva a resistir. Vivi a vida inteira na vila e hoje a comunidade conhece meu trabalho e me tratam como uma liderança pois eu represento o que eles estão querendo e me sinto responsável por eles", explica.

E é essa autoestima que deve guiar o novo momento artístico de Kedé. O novo disco, com lançamento previsto para janeiro leva o nome "Sinta Minha África". Para ele, o título representa sua mensagem de comunidade, reforça e exalta a necessidade de combater o preconceito social e racial que ele lamenta ter vivido na pele.

"A forma como a mídia me tratava, como se eu fosse um monstro, um criminoso, fez eu entender que o recado deveria ser - conhecer. Existe sim um tratamento diferente, por eu ser negro, por ter tatuagem, pela minha maneira de falar e de se vestir. Os tratamentos são diferentes e eu quero mostrar essas coisas. O preconceito é forte e hoje você só vale o que tem. A sociedade precisa superar isso pAra que não exista mais esse preconceito. Quero plantar nas pessoas que não é só porque eu sou negro, moro na comunidade e tenho o cabelo crespo que eu sou bandido", afirmou o artista.

Mesmo jovem, o rapper já tem dois filhos e precisa se desdobrar para manter a família já que a música ainda não é a única fonte de renda. Foi nos mesmos cabelos crespos que são alvo de preconceito que o artista consegue se exaltar. Kedé faz trança afro na sala de sua casa para complementar a renda e continuar levando sua arte para longe. "Ainda é uma correria para fazer show pra ir tocar nos lugares, nos bares. Hoje não me mantenho completamente pela música, tem outra correria por cima , eu faço trança afro - não tenho salão, mas eu faço em casa, as pessoas não sabem que eu faço isso pra me manter" contou Kede.

"E se escorregar poucos vão te levantar por isso que a vida te ensina a caminhar" - canta o artista nos versos de H Sol - e é justamente essa mão que o rapper que estender para a comunidade. Em meio ao dia-a-dia corrido e aos trabalhos de cabelereiro Kedé ainda encontra tempo para promover uma ação social que leva serviços e lazer para a comunidade.

Desde criança eu sempre gostei de fazer algo na comunidade - sempre gostei de fazer uma brincadeira - arrastava meus amigos todos pra pular mortal e sempre gostei de música e batida. Quando eu comecei a cantar rap eu comecei a expressar aquilo e fui amadurecendo essa ideia. A comunidade é muito carente e aqui mesmo não tem lazer, não tem nem onde brincar. Hoje com o Projeto Comunidade tem uma galera que me apoia a produzir e plantar muita coisa aqui. Nosso objetivo é trazer qualquer coisa que beneficie a todos de um jogo de futebol a um sopão. São coisas simples que tem a maior importância", resumiu.

E é com a força da palavra que o artista quer levar o amor e a autoestima à todos. Com referências como Karol Conká e Emicida, Kedé se inspira para transmitir energia. "O rap está aí para expressar. Hoje eu levanto a autoestima que a gente precisa para ocupar outros espaços e assim provocar as mudanças que precisamos", pontuou.

História que virou filme

E foi na luta que a história de Preto Kedé e da sua Irmandade, alcançaram voos mais altos e agora vai sair das ruas para as telonas do mundo inteiro. O documentário "Deixe a Chuva Cair", aprovado pelo edital nacional Jovem Doc e vai virar longa, ainda sem previsão de lançamento para o público, mas que segundo o diretor, Juscelino Ribeiro, vai impulsionar o debate de questões que já são exaltadas nos versos do rap. "O documentário pra contar a história do Kedé é importante porque a história dele, do Luciano e dos seus aliados da Irmandade tem vários casos de repressão policial, preconceito racial e da vida na comunidade. A história dele reflete muitas coisas que devem ser debatidas e mostrar que essa luta acontece aqui traz uma visão diferente das coisas. Isso é realidade aqui e a gente se engana", concluiu o diretor.

Para a comunidade, uma conquista de visibilidade e para Kedé, uma chance de levar sua poesia para longe. "O rap é a revolução através de palavras, o meu projeto é mandar uma mensagem quero que a galera escute, dance e pense no que estou falando", concluiu o rapper.