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Ana Larousse e Leo Fressato desabafam sobre nudez que causou polêmica no Salve Rainha

Depois de toda polêmica criada nas redes sociais envolvendo o a nudez dos músicos curitibanos Ana Larousse e Leo Fressato, os artistas decidiram se pronunciar a respeito dos comentários de revolta e críticas a postura adotada durante o show no último domingo (19) na Bienal do Salve Rainha, evento que acontece durante todos os domingos de setembro no Parque da Cidadania, Centro da capital.

No vídeo, Ana questiona o porquê de tamanho choque das pessoas com a nudez, já que durante o show, se falou sobre violência contra gays, mulheres, negros, mudanças de governo e a atenção foi voltada apenas para o corpo nu. "Porque a gente tem que atribuir o corpo nu ao sexo? A sexualização excessiva especialmente do corpo feminino não está na nudez, está no olhar dos outros. Quando eu escolho ficar nua no palco eu estou desexualizando o nosso corpo", pontuou a cantora.

A manifestação de Ana Larousse incomodou até a prefeitura de Teresina, que já se manifestou "reprovando" a atitude e comunicando que marcou uma reunião com a coordenação do evento para discutir providências. De acordo com o superintendente da SDU, Antônio de Pádua, o coletivo solicitou autorização para realizar shows musicais durante todos os domingos de setembro no Parque da Cidadania, mas ainda assim, segundo ele, teria passado do horário autorizado, que era de 22h.

Em sua rede social, a cantora aproveitou para criticar os ataques que tem recebido. Ana teve o seu perfil pessoal excluído definitivamento do Facebook, por conta de várias denúncias de internautas revoltados com a  manifestação.

"Bom. Por conta de um ato contra o machismo estou sofrendo muitos ataques pelo facebook. E meu perfil pessoal foi excluído definitivamente do facebook (o que prejudica muito meu trabalho nesse momento). Eu só me pergunto o seguinte: porque a nudez chocou tanto num show onde falamos sobre violências e sobre como devemos nos unir para respeitarmos a todos? Porque não são essas violências contras as quais lutamos que revoltam as pessoas? Porque é um corpo nu de forma completamente dessexualizada? Porque um ato bonito e cheio de amor contra a violência é motivo de tanta raiva?

A cantora aproveitou a oportunidade para declarar apoio ao coletivo Salve Rainha, que já anunciou a programação do próximo domingo que encerra a programação de sua primeira Bienal no Parque da Cidadania. "Para além das consequências que eu estou sofrendo por isso, estou ao lado do coletivo Salve Rainha", publicou a cantora.

Assista ao vídeo de Ana Larousse:

Leo Fressato também fez o seu desabafo pela repercussão que a performance tomou nas redes sociais. Através de vídeo, o artista fez críticas a bancada evangélica, ao preconceito e a morte diária de gays e mulheres em todo o Brasil.

Assista ao vídeo de Leo Fressato:

O coletivo Salve Rainha se posicionou através de nota onde afirma que não tem poder de barrar esses movimentos e garantindo que levará a frente o seu lema de resistir, insistir e existir. O grupo defende que a nudez foi apenas uma manifestação política e que juntos eles não irão recuar "diante dos que tentam deslegitimar o evento".

Leia a nota na íntegra:


O Salve Rainha é uma tecnologia social de valorização do Patrimônio Cultural de Teresina. Assim sendo, sempre se propôs a ocupar áreas públicas e abraçar situações de vulnerabilidade, mobilizando centenas de artistas e possibilitando ao público acesso livre e gratuito às mais diversas formas de expressão e o contato com os seus criadores.

Recebemos manifestações artísticas variadas, da galeria ao palco, em dois anos de (r)evolução e força. E cada talento recebido se mostra e se revela de acordo com a sua verdade, da maneira que achar mais conveniente e apropriada para expressar a sua arte. Nós não interferimos nas apresentações, exposições, intervenções ou performances. Não fazemos ingerência sobre o que é exposto, apenas uma curadoria ao que é produzido anteriormente, sem nenhuma forma de censura. No caso de um show, por exemplo, isto seria até mesmo impraticável, por ser algo que acontece de imediato no palco e não temos como intervir previamente.

Nossos métodos não poderiam ser diferentes, afinal, qualquer forma de censura à expressão artística iria contra a natureza do nosso coletivo. Proporcionamos ao público um diálogo pacífico e respeitoso sobre os temas que são trazidos ao nosso espaço. Nós acreditamos na liberdade de expressão consagrada pela Constituição Federal, inclusive a liberdade aos artistas, como consta no Art. 5o, inciso IX: é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença.

No domingo do dia 18 de setembro recebemos com muita alegria na primeira Bienal do Salve Rainha a nossa, também primeira, atração nacional, em um local específico para manifestações artísticas. Uma mulher feminista, que estava protestando por igualdade de direitos, utilizando o corpo dela, após as 22h. Um homem gay vestido de drag queen, levantando a bandeira da desconstrução.

O que presenciamos foi a livre manifestação política dos artistas, em um momento em que o país vive uma conjuntura especial. Existe uma onda de protestos por todo o Brasil, não apenas em Teresina. Ações vem acontecendo em qualquer tipo de evento, bem como nas Casas Parlamentares e em frente ao Supremo Tribunal Federal. Haver um protesto de artistas e do público no Parque da Cidadania faz parte desta conjuntura nacional.

O coletivo Salve Rainha não tem o poder de barrar esses movimentos, que também receberam o apoio das pessoas presentes, entre homens, mulheres, cis, gays, trans e todas as chamadas minorias. Por isso, não vamos nos abater ou recuar diante dos que tentam deslegitimar uma ação que se desenvolveu na mais completa paz. Estamos conscientes dos nossos direitos e não vamos permitir desrespeito com o nosso público.

Estamos juntos, seguimos em paz e com muito amor nos nossos corações. Mantemos sempre o nosso lema: resistir, insistir e existir.