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Sonho de professor vira projeto de inclusão para crianças deficientes através da música

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Era dezembro de 2013, quando um sonho mudaria a vida do historiador João Gilberto Oliveira Foster. Ao acordar naquela manhã, a primeira missão foi organizar as ideias e colocar tudo no papel.  Com a ajuda de amigos que organizaram e formataram a iniciativa, nascia ali há cinco anos atrás, o primeiro projeto para inclusão de crianças deficientes através da música no Piauí, batizado de Música Eficiente.

Membro da Orquestra Sinfônica de Teresina, Gilberto trabalhava como historiador quando foi chamado para lecionar na Escola Pequeno Rubim no bairro Mocambinho. Foi lá onde ele passou a ver com outros olhos as crianças , que na época eram chamadas de especiais, mas que na verdade precisavam apenas de inclusão. Contrariando as expectativas, ele optou por se dedicar a essa causa, até então desassistida.

"Quando eu percebi os primeiros acordes que eles tiraram eu sabia que era com isso que eu iria trabalhar. Foi aí que começamos a atender três pessoas na escola e aí foram começando as publicações e quando viram que as crianças deficientes estavam tocando isso gerou um impacto muito grande. Rapidamente já éramos 40 alunos", conta o professor.

 João Gilberto de historiador se tornou um guia para centenas de crianças atendidas hoje pela escola. Ele buscou se especializar para oferecer um melhor ensino com educação especial, libras, musicalização infantil e muitos outros cursos. Não falta mais experiência no currículo do professor que mudou radicalmente a sua vida para ajudar a mudar a dos seus alunos. 

Hoje o quadro da escola  atende 220 matriculados que ocupam um prédio especial anexo a escola Pequeno Rubim, onde começou. O projeto tem como foco principal o ensino em música para pessoas com deficiência através da inclusão, que acontece com a presença de 30% de alunos sem deficiência convivendo no mesmo espaço, assistindo as mesmas aulas e dividindo os mesmos instrumentos com os colegas deficientes.

Foto: Roberta Aline / Cidadeverde.com

É essa inclusão que motiva garotos como Mikéias Rodrigues Mota Melo, de apenas 10 anos. Deficiente desde que nasceu, a escola para ele é o ambiente em que se sente mais especial, mas não pelas suas características físicas, simplesmente por poder ser uma criança normal. 

"Aqui eu me sinto uma criança como qualquer outra com muitas habilidades e algumas que outros nem conseguem ter. Nunca senti preconceito e fiz muitos amigos. A música é tudo na minha vida", fala o estudante.

Luzia Vitoriana Mota, de 65 anos é avó de Mikéias e cria o garoto desde que ele foi deixado pelos pais. Ela conta que o medo chegou a tomar conta de seus pensamentos sobre a criação do garoto que nasceu com hidrocefalia e mielomeningocele, mas que a sensação se tornou orgulho ao ver que durante a sua vida, Mikéias só atraiu "estrelas", como ela costuma chamar pessoas como o professor Gilberto.

"Eu fico até sem palavras porquê para mim esse projeto é todo completo. Não falta nada. Só em ver essa criança se desenvolver, não há dinheiro que pague. Hoje peço perdão a Deus pelo que pensei sobre a vida do Mikéias pois a cada dia cai uma nova estrela para ele e é só luz", diz Luzia emocionada.

Ela afirma que sempre fez questão de manter todos os quatro filhos que teve na escola e com Mikéias não é diferente. Mesmo analfabeta, Luzia defende um ponto de vista muitas vezes negligenciado na sociedade atual. A cultura e a presença dos pais.

"A música é tudo na vida dele. A escola e a música não tem nada para se comparar. Quem tiver filhos a minha mensagem é que invista na cultura e acompanhem de perto, tenha tempo para seus filhos, conversem com eles. A vida me ensinou e a cultura foi o maior aprendizado da minha vida", completa.

Mikéias que entrou no projeto desde o início hoje já toca 11 instrumentos violino, violão, flauta doce, teclado, cavaquinho, guitarra, flauta transversal, saxofone, meia-lua, pandeiro e escaleta.

Além de formar cidadãos, hoje o Música Eficiente forma também profissionais que atendem em diversas áreas crianças com deficiência de todos os tipos. Além de Teresina o projeto já começou a se descentralizar pelo interior, em outros três municípios, e já planeja voos maiores, como um intercâmbio que fará na Itália em março de 2019.

“Vamos passar uma semana na Itália com os alunos para fazermos uma apresentação. Os italianos conheceram o projeto  e nunca tinham visto nada como aqui. Inclusive o Mikéias vai com a avó dele e lá vamos dividir nossas experiências”, conta o professor.

O projeto continua sendo inteiramente voluntário desde seu início e vivendo as custas de doações, a maioria delas do Judiciário Piauiense. Mas segundo o professor, a partir de 2019 essa realidade deve mudar e todos os atuais 17 voluntários serão contratados e passarão a receber uma remuneração para prestar essa assistência. Uma conquista que para o professor abrirá portas e fará do projeto um verdadeiro centro especializado de treinamento para ensinar aqueles que no futuro vão difundir a didática e ensino de música em nossa região.

“Não tenho dúvida desse crescimento do projeto. Esse conhecimento não deve ficar preso só conosco.  Vamos desconstruir para a sociedade que o deficiente não é capaz. Sou grato a Deus por me dar essa oportunidade e hoje eu consigo que a sociedade olhe essas pessoas com outros olhares. Eu vivo aqui e meu alimento diário é perceber no olhar da criança um sorriso após entender aquilo que estamos passando e fazendo da música seu instrumento de inclusão”, conclui o professor.